sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Amar você é coisa de minutos (Paulo Leminski - 1944 - 1989)

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Arrojos (Cesário Verde - 1855-1886)

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignones" e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os céus abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.

E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Escrevendo (Neide Archanjo - 1940)

As palavras fenecem
descem à tumba
rejuvenescem.
Enganam a ponta do lápis
o escritor
e o teclado do computador.

As palavras são déspotas
exigem escolhas apaixonadas.

Corremos ao encalço
mas pronunciadas
ei-las fora do laço.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Profundamente (Neide Archanjo - 1940)

Estão todos sentados esta noite.
Estão todos sentados.

A velha mesa respira
mas nadas se aquieta.

Estão todos sentados
mortos e sentados.

E este amor não basta
para carpir os beijos os nomes
os retratos.

sábado, 25 de janeiro de 2014

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Evolução (Antero de Quental - 1842 - 1891)

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo...

Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O que se foi (Ferreira Gullar - 1930)

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Círculo (Leonardo Borges)

A la silla le falta una pata,
la mesa está a medio levantar,
y tomás de tu propia resaca,
un elixir y tu llanto de sal.
En tus entrañas se clava la estaca,
tu mente, endiablado espiral,
y la noche se vuelve una etapa,
en la que recordar es pecado fatal.
Sabés que el cántaro no vendrá jamás,
nunca más... y tomas una gota.
Nunca más y el látigo te azota,
pero porque hablarles de fulano de tal,
si seré yo el que me descomponga,
hasta que la silla no soporte más.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Simplemente gracias (Leonardo Borges)

Gracias noche,
por ser noche y no ser día.
Gracias luna,
por ser una y solo mía.
Gracias amor,
por madurarme el corazón.
Gracias vida,
por amaestrarme en el dolor.
Gracias gente,
por ser mi musa siempre.
Gracias a vos,
por llegar siempre a mi mente.
Gracias sueños,
por soñarlos bien despierto.
Gracias locura,
que sin cura yo me siento.
Gracias sol,
por iluminarme el corazón.
Gracias a todos,
gracias por la inspiración.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Sonatina a tempo (Leonardo Borges)

El tiempo es la cuerda que ata este mundo,
es una piedra sobre nuestra realidad,
son relojes que solo siguen su curso,
sin preguntarte si quéres continuar...
Es um villano en tu película de absurdo,
es el tic-tac que no te deja pensar,
son agujas que te laceran profundo,
en tu mente que solo piensa em llegar...
Pensando una persona en un minuto
al parecer una hora va a llorar,
y el cuarzo ya parece reflejar
el puño del villano más astuto.
Te golpea, te despierta y te da un susto.
Ya te hizo de tu sueño despertar...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Poética (Alexandre Pilati - 1976)

A propósito diria
que agora trato de inventar o que passou
Imaginar e planejar o passado
(Talvez utilize coloridos gráficos, planilhas e quadros)
e de esquecer o futuro como faria um legítimo fantasma.

E eis que está aqui (algo que evidentemente
se encontra no mesmo nível
de reificação daquele luminoso
de refrigerante
que às vezes cega minha vinda pela avenida)

E eis que está aqui (um grão de capital em velocidade infinita
rápido: um conceito
ou o riso de uma onça negra)
algo lindo, límpido, esquálido. Nem eu nem tu. Nem ele nem ela.

Um artefato deixado sob os ossos
Esquecido. Duma antiga guerra.
Que ainda mantém vivo seu poder aniquilador.

Eis aqui poucas sílabas. Palanques de um terreno em disputa.
Unha a unha, pelo a pelo, disputado, como naquele caso antigo
da maçã que marcou o mundo com pecado.

- Simples como palitar os dentes: detoná-lo, num lance de sorte.
Iriam pelos ares os molares de um sorriso
Ou a pó iria meu coração de melão -

Não o mexamos muito não. Deixestar. Não.

Eis aqui esta palavra.
Baldada a última tentativa de nos matarmos.
E outro mundo vir à tona.
Tratemos de imaginar o passado – apenas como os poetas fariam.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A arte de amar (Gilberto Mendonça Teles - 1931)

Abro o espaço da fome e me abasteço
das coisas mais comuns.
Sou trivial e sóbrio, mas faminto.
Amo o jogo das tripas e dos tropos
e todo dia exercito a competência
da língua retorcida como um búzio
nas vésperas da posse.

E sete vezes sete (e mais a conta
dos números do mito) arremeti
meus dardos contra os muros
dessa tebas morena de mil olhos.

E sete vezes sete (e mais o fôlego
dos gatos guturais) recomecei
o gesto natural da minha flauta
que a chuva modulava no alicerce,
como a canção de amor que principiava
pelas curvas dos ventres nos espelhos.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Cercanías (Jorge Luis Borges - 1899 - 1986)

Los patios y su antigua certidumbre,
los patios cimentados
en la tierra y el cielo.
Las ventanas con reja
desde la cual la calle
se vuelve familiar como una lámpara.
Las alcobas profundas
donde arde en quieta llama la caoba
y el espejo de tenues resplandores
es como un remanso en la sombra.
Las encrucijadas oscuras
que lancean cuatro infinitas distancias
en arrabales de silencio.
He nombrado los sitios
donde se desparrama la ternura
y estoy solo y conmigo.

Sala Vacía (Jorge Luis Borges - 1899 - 1986)

Los muebles de caoba perpetúan
entre la indecisión del brocado
su tertulia de siempre.
Los daguerrotipos
mientem su falsa cercanía
de tiempo detenido en um espejo
y ante nuestro examen se pierden
como fechas inútiles
de borrosos aniversarios.
Desde hace largo tiempo
sus angustiadas voces nos buscan
y ahora apenas están
en las mañanas iniciales de nuestra infancia.
La luz del día de hoy
exalta los cristales de la ventana
desde la calle de clamor y de vértigo
y arrincona y apaga la voz lacia
de los antepassados.

domingo, 12 de janeiro de 2014

El Sur (Jorge Luis Borges - 1899 - 1986)

Desde uno de tus patios haber mirado
las antiguas estrellas,
desde el banco de sombra haber mirado
esas luces dispersas,
que mi ignorancia no ha aprendido a nombrar
ni a ordenar en constelaciones,
haber sentido el círculo del agua
en el secreto aljibe,
el olor del jazmín y la madreselva,
el silencio del pájaro dormido,
el arco del zaguán, la humedad
- esas cosas, acaso, son el poema.

sábado, 11 de janeiro de 2014

O equilibrista (Orides Fontela - 1940 - 1998)

Essencialmente equilíbrio:
nem máximo nem mínimo.

Caminho determinado
movimentos precisos sempre
medo controlado máscara
de serenidade difícil.

Atenção dirigida olhar reto
pés sobre o fio sobre a lâmina
ser numa só idéia nítida
equilíbrio. Equilíbrio.

Acaba a prova? Só quando
o trapézio oferece o voo
e a queda possível desafia
a precisão do corpo todo.

Acaba a prova se a aventura
inda mais aguda se mostra
mortal intensa desumana
desequilíbrio essencialmente.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O trabalho das nuvens (Ferreira Gullar - 1930)

Esta varanda fica
à margem
da tarde. Onde nuvens trabalham

A cadeira não é tão seca
e lúcida, como
o coração.
Só à margem da tarde
é que se conhece
a tarde: que são as
folhas de verde e vento, e
o cacarejar da galinha e as
casas sob um céu: isso, diante
de olhos.

e os frutos?
e também os
frutos. Cujo crescer altera
a verdade e a cor
dos céus. Sim, os frutos
que não comeremos, também
fazem a tarde
(a vossa
tarde, de que estou à margem).

Há, porém, a tarde
do fruto. Essa não roubaremos:
tarde
em que ele se propõe a glória de
não mais ser fruto, sendo-o
mais: de esplender, não como astro, mas
como fruto que esplende.

E a tarde futura onde ele
arderá como um facho
efêmero!

Em verdade, é desconcertante para
os homens o
trabalho das nuvens.
Elas não trabalham
acima das cidades: quando
há nuvens não há
cidades: as nuvens ignoram
se deslizam por sobre
nossa cabeça: nós é que sabemos que
deslizamos sob elas: as
nuvens cintilam, mas não é para
o coração dos homens.

A tarde é
as folhas esperarem amarelecer
e nós o observarmos.

E o mais é o pássaro branco que
voa - e que só porque voa e o vemos,
voa para vermos. O pássaro que é
branco
não porque ele o queira nem
porque o necessitemos:
o pássaro que é branco
porque é branco.

Que te resta, pois, senão
aceitar?
Por ti e pelo
pássaro pássaro.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ponto cego (da força e da fraqueza de nosso tempo) (Alberto Pucheu - 1966)

"Quem somos?” –
perguntam aos poemas
em busca de uma resposta
que complete a pergunta,
sobrepondo uma, sem falta
nem excesso, à outra.
Mas os poemas repetidamente
respondem que somos
aquilo em que nos perdemos
ao buscarmos encontrar
o que acreditamos ser.
Se insistirem, portanto,
em perguntar aos poemas
de buscas, encontros, crenças...
se insistirem, portanto, em saber
a voz dos poemas, saibam que,
de diferentes modos, eles só dizem
o que não se busca nem se encontra,
a perdição, o fim das crenças,
oque não se oferece a nenhuma frase,
nem mesmo mais a nenhum verso.
Há um ponto cego nos poemas,
como há um ponto cego na vida,
não visto por mim nem por você
nem por ninguém, desde o qual
eles são o que são, um ponto cego
que somente os poemas – talvez –
nem sei – vejam. Se insistirem,
portanto, no trato com os poemas,
se de fato quiserem permanecer
com eles, sejam, ainda que os últimos
afeitos a tal empenho, fortes,
porque quase todos os outros
– sinal dos tempos – os abandonaram.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A roda do tempo (Cyro de Mattos - 1939)

Criei vaga-lumes
Para vê-los à noite
Brilhando no quarto.

Nadei como um peixe ágil
Nas águas mais claras
Do Rio de Agua Doce.

Como um pássaro
Tive cada voo
Com o vento mais alto.

Andei como bicho solto
Sem ter medo de nada
Nos caminhos do mato.

Mas a infância tem o sabor
De uma fruta que termina
Na idade dos homens.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A palavra presente (Cyro de Mattos - 1939)

Dá vôo à razão
Na leitura do mundo.
Equilíbrio nos vazios
Por entre mistérios
Que soam absurdos.
Simulação do real
Na emoção do ser elo
Íntimo das coisas.
Ritmo agudo do ver.
Ouvir e falar silêncios
Onde me usa o amor
Resvalando na vida
Que o tempo engole.
Nas litanias do mal,
No refrigério da relva
Fogo eterno de cantores
Desde não quando.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Que teu corpo seja brasa (Alice Ruiz - 1946)

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

domingo, 5 de janeiro de 2014

A casa (Adélia Prado - 1935)

É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
- esta que parece sombria -
e uma noiva lá dentro que sou eu.
E uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel.

sábado, 4 de janeiro de 2014

O sorriso (Eugénio de Andrade - 1923 - 2005)

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.