Seria fácil comparar as araucárias a candelabros.
Mas eu digo que elas se parecem com aquele rapaz
que, braços, cabelos, surgiu devagar
sob a luz de junho, úmida de orvalho.
Veio em minha direção.
E trazia o horizonte
nos seus ombros largos.
Mostrando postagens com marcador Eucanaã Ferraz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eucanaã Ferraz. Mostrar todas as postagens
domingo, 26 de abril de 2015
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Pai (Eucanaã Ferraz - 1961)
No chão tenro do Rio,
misto de areia e restos de alagadiços,
pus teu corpo
triturado,
limalha da velha Minas, ímã
que já não prendia nenhuma alma.
Pus ao pé de uma árvore,
perto do mar,
teu corpo moído, pesado, que
parecia um punhado de conchas
que se macerou insistente,
violentamente.
O chão do Rio ganhou mais peso,
outra geologia.
misto de areia e restos de alagadiços,
pus teu corpo
triturado,
limalha da velha Minas, ímã
que já não prendia nenhuma alma.
Pus ao pé de uma árvore,
perto do mar,
teu corpo moído, pesado, que
parecia um punhado de conchas
que se macerou insistente,
violentamente.
O chão do Rio ganhou mais peso,
outra geologia.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Figura III (Eucanaã Ferraz)
Ainda sobre a cômoda,
colhidas há pouco,
esperam.
Que nome o delas?
Goivos, cravos, narcisos,
gardênias, junquilhos?
Venham a água
e o vaso – esperam.
Serenamente. A urgência
pode ser assim, macia.
O amarelo tem sede.
colhidas há pouco,
esperam.
Que nome o delas?
Goivos, cravos, narcisos,
gardênias, junquilhos?
Venham a água
e o vaso – esperam.
Serenamente. A urgência
pode ser assim, macia.
O amarelo tem sede.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Presto (Eucanaã Ferraz - 1961)
Os dias despencam
aos pedaços. Logo será janeiro.
Posso farejar o amarelo das amendoeiras
de então (amarelas como teu cabelo)
e a praia, os bares, a ferrugem, nossas costas
e braços liquefeitos. Tanto faz a solidão,
a companhia: tudo são doenças tropicais,
incuráveis. O verão virá, forasteiro,
no vôo tonto, nupcial dos cupins
em volta das lâmpadas. Janeiro
está próximo, pressinto seu peso, a alegria,
o tremor, a sezão, o óleo,
a girândola veloz dos relógios
a nos golpear no ventre. Girassóis
em bando assestarão suas lâminas
em direção aos táxis
enquanto os rios, erráticos, desaguarão
à porta dos edifícios da Senador Vergueiro.
aos pedaços. Logo será janeiro.
Posso farejar o amarelo das amendoeiras
de então (amarelas como teu cabelo)
e a praia, os bares, a ferrugem, nossas costas
e braços liquefeitos. Tanto faz a solidão,
a companhia: tudo são doenças tropicais,
incuráveis. O verão virá, forasteiro,
no vôo tonto, nupcial dos cupins
em volta das lâmpadas. Janeiro
está próximo, pressinto seu peso, a alegria,
o tremor, a sezão, o óleo,
a girândola veloz dos relógios
a nos golpear no ventre. Girassóis
em bando assestarão suas lâminas
em direção aos táxis
enquanto os rios, erráticos, desaguarão
à porta dos edifícios da Senador Vergueiro.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Valsa para Graça (Eucanaã Ferraz - 1961)
Abra-se tudo
em grande-angular:
alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram
em salas abertas, salões,
e o que se fechara
antes desabroche
numa sucessão de estrelas
em pleno dia claro.
Abra-se o teto
do planetário, abra-se
o coração do fogo
e nele toda dor
torne a nada e
nada lhe resista
e por onde passe alastre
sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.
Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto
alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar
a mesma sandália
que as palavras e os gestos
dela, alas
a ela, que, assim
alta,
como que vai
descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes
e do medo, largando
na sua valsa
um rasto só de beleza.
Alas a ela.
em grande-angular:
alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram
em salas abertas, salões,
e o que se fechara
antes desabroche
numa sucessão de estrelas
em pleno dia claro.
Abra-se o teto
do planetário, abra-se
o coração do fogo
e nele toda dor
torne a nada e
nada lhe resista
e por onde passe alastre
sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.
Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto
alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar
a mesma sandália
que as palavras e os gestos
dela, alas
a ela, que, assim
alta,
como que vai
descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes
e do medo, largando
na sua valsa
um rasto só de beleza.
Alas a ela.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Passe (Eucanaã Ferraz - 1961)
O verbo cisnir, intransitivo,
assinale o modo como,
entre rodas e transeuntes,
no trânsito
(repentinamente transmutado em águas,
lama e restos
que se desviam num aluvião sem nexo
a fim de que o rapaz passe) o rapaz
cisne.
assinale o modo como,
entre rodas e transeuntes,
no trânsito
(repentinamente transmutado em águas,
lama e restos
que se desviam num aluvião sem nexo
a fim de que o rapaz passe) o rapaz
cisne.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
18.05.1961 (Eucanaã Ferraz - 1961)
Nasci num lugar pobre,
onde o hospital era longe,
onde era longe a estrada
e os anjos não conheciam.
Nasci mês de maio, azul
de tardes macias,
de pai José,
mãe Maria.
Batizaram-me: Terra Prometida.
Terra pobre, onde a felicidade passa
longe, mas daqui eu a vejo
e todo o meu corpo brilha.
onde o hospital era longe,
onde era longe a estrada
e os anjos não conheciam.
Nasci mês de maio, azul
de tardes macias,
de pai José,
mãe Maria.
Batizaram-me: Terra Prometida.
Terra pobre, onde a felicidade passa
longe, mas daqui eu a vejo
e todo o meu corpo brilha.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Passeio (Eucanaã Ferraz - 1961)
Na entrada do cinema, o drops
pode ser misto ou de hortelã,
o misto tem gosto de frutas,
o de hortelã de hortelã.
As pessoas são muitas pessoas.
Dentro do cinema, quanto tudo é escuro
são todos anônimos e mesmo em inúmeros
assim como são, ficam uma só pessoa
no escuro, como se não fosse ninguém.
pode ser misto ou de hortelã,
o misto tem gosto de frutas,
o de hortelã de hortelã.
As pessoas são muitas pessoas.
Dentro do cinema, quanto tudo é escuro
são todos anônimos e mesmo em inúmeros
assim como são, ficam uma só pessoa
no escuro, como se não fosse ninguém.
sexta-feira, 14 de março de 2014
A palma da tua mão não tem segredo... (Eucanaã Ferraz - 1961)
A palma da tua
mão não tem segredo
algum. Letra em tua mão
é de nome nenhum.
Não há mistério nem mensagem
no lenho aleatório.
Tua mão tem destino noutras palmas.
Confidência, piedade, ira. Deixa que,
aberta, distribua-se ao ponto – à perfeição –
de não ser mais tua mão: pátio,
pouso necessário de quem jamais te viu.
mão não tem segredo
algum. Letra em tua mão
é de nome nenhum.
Não há mistério nem mensagem
no lenho aleatório.
Tua mão tem destino noutras palmas.
Confidência, piedade, ira. Deixa que,
aberta, distribua-se ao ponto – à perfeição –
de não ser mais tua mão: pátio,
pouso necessário de quem jamais te viu.
quinta-feira, 13 de março de 2014
O dragão (Eucanaã Ferraz - 1961)
Semana que vem, chega-te pelo correio
a lua: puro papelão,
que aos teus dedos transmutará em loiça.
Não fosse a gripe que me assolou esses dias,
não fosse a preguiça, os livros e o sono,
eu te mataria um dragão.
Na entrada da tua vila, deixaria o bicho,
pesado como uma hecatombe
(um hematoma na boca do estômago,
as asas imensas de bomba
imersas numa poça de sangue verde).
Ora, não te assustes,
sei que te acostumei com presentes mais delicados.
Mas não seria preciso guardá-lo: telefonarias
para o Departamento de Limpeza Urbana
avisando que um louco que te ama
deixou um sonho morto
na porta da tua casa.
a lua: puro papelão,
que aos teus dedos transmutará em loiça.
Não fosse a gripe que me assolou esses dias,
não fosse a preguiça, os livros e o sono,
eu te mataria um dragão.
Na entrada da tua vila, deixaria o bicho,
pesado como uma hecatombe
(um hematoma na boca do estômago,
as asas imensas de bomba
imersas numa poça de sangue verde).
Ora, não te assustes,
sei que te acostumei com presentes mais delicados.
Mas não seria preciso guardá-lo: telefonarias
para o Departamento de Limpeza Urbana
avisando que um louco que te ama
deixou um sonho morto
na porta da tua casa.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Lugarejo (Eucanaã Ferraz - 1961)
O trem muge o longe.
Os vagões levam toneladas de horas
e astros enferrujados.
Bicho de ferro atravessando
a facão o lombo do dia, enchendo
de metálica melodia a vida
dos homens dali.
Os vagões levam toneladas de horas
e astros enferrujados.
Bicho de ferro atravessando
a facão o lombo do dia, enchendo
de metálica melodia a vida
dos homens dali.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
A questão (Eucanaã Ferraz - 1961)
Como decidir do desejo?
Algum padrão diz do que
e de quanto vive?
Ele vive do que deseja?
É uma necessidade?
Subsiste no fundo do tempo?
Faz-se num minuto? Morre
no outro? Perdura uma existência inteira?
O desejo que não desejamos,
refreá-lo como? Respiramos.
Há interromper-lhe o passo?
O desejo nos ouve?
É cego? É doido? O desejo vê
mais que tudo? São os nossos
os seus olhos? Se os fechamos,
ele finda? Quem pôs o desejo em nós?
Onde está posto? E onde não?
Penetra o sonho, o trabalho, infiltra
nos livros, no óbvio, nos óculos,
na cervical, na segunda-feira e os versos
não sabem outro tema.
Há quem não deseje?
Tudo o que vive deseja?
Faça-se o exercício: não desejar,
por um mês, uma semana,
um dia. O desejo fabrica-se
de nenhum aval? Ele não teme?
Não receia o sal à face da razão?
Não teme a dor, decerto, que dela
parece, por vezes, primo-irmão.
E perguntamos, perplexos. O desejo
é uma forma oblíqua de alegria? Brinca
conosco? Mas, brincarmos com ele,
ai de nós, é de seus truques
o mais fatal. Morremos de desejo?
Com ele removemos pedras?
Por ele removemos montanhas?
Pode o desejo mover o não?
(O não: esta seta o mata?
Ou esta farpa fomenta o que nele nos ultrapassa
e que, sem nome nem fim, não desistirá
senão quando tudo morto em nós?)
Química tão secreta,
não vale a pena qualquer pesquisa,
uma pluma, este poema.
Algum padrão diz do que
e de quanto vive?
Ele vive do que deseja?
É uma necessidade?
Subsiste no fundo do tempo?
Faz-se num minuto? Morre
no outro? Perdura uma existência inteira?
O desejo que não desejamos,
refreá-lo como? Respiramos.
Há interromper-lhe o passo?
O desejo nos ouve?
É cego? É doido? O desejo vê
mais que tudo? São os nossos
os seus olhos? Se os fechamos,
ele finda? Quem pôs o desejo em nós?
Onde está posto? E onde não?
Penetra o sonho, o trabalho, infiltra
nos livros, no óbvio, nos óculos,
na cervical, na segunda-feira e os versos
não sabem outro tema.
Há quem não deseje?
Tudo o que vive deseja?
Faça-se o exercício: não desejar,
por um mês, uma semana,
um dia. O desejo fabrica-se
de nenhum aval? Ele não teme?
Não receia o sal à face da razão?
Não teme a dor, decerto, que dela
parece, por vezes, primo-irmão.
E perguntamos, perplexos. O desejo
é uma forma oblíqua de alegria? Brinca
conosco? Mas, brincarmos com ele,
ai de nós, é de seus truques
o mais fatal. Morremos de desejo?
Com ele removemos pedras?
Por ele removemos montanhas?
Pode o desejo mover o não?
(O não: esta seta o mata?
Ou esta farpa fomenta o que nele nos ultrapassa
e que, sem nome nem fim, não desistirá
senão quando tudo morto em nós?)
Química tão secreta,
não vale a pena qualquer pesquisa,
uma pluma, este poema.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Mais doce (Eucanaã Ferraz - 1961)
Confesso: não pude desamar de ti.
Tornei-me, então, tua mãe.
Afinal, não serias o meu homem,
eu sabia. Não vacilei, e dedico-me
à condição mais intestina,
mais doce – a de quem cozinha,
cose, espera, cala, tece,
aconselha, espera, vela
(mesmo que não, é como se fosse),
à condição de quem vê passar
o tempo no cabelo, nos gestos,
nas histórias, nos amigos, nos dentes
do seu pequeno príncipe, do seu dolorido,
do seu príncipe feliz.
Porque não me querias como homem,
porque não poderia ser teu pai,
restou-me não ser menos que este amor
que segue ao teu lado
mesmo quando é tão distante teu caminho,
teu silêncio, teu passo rápido, teu sonho.
Choro,
que o destino das mães é sempre triste.
Porque é triste não poder ser
a mulher do seu menino.
Tornei-me, então, tua mãe.
Afinal, não serias o meu homem,
eu sabia. Não vacilei, e dedico-me
à condição mais intestina,
mais doce – a de quem cozinha,
cose, espera, cala, tece,
aconselha, espera, vela
(mesmo que não, é como se fosse),
à condição de quem vê passar
o tempo no cabelo, nos gestos,
nas histórias, nos amigos, nos dentes
do seu pequeno príncipe, do seu dolorido,
do seu príncipe feliz.
Porque não me querias como homem,
porque não poderia ser teu pai,
restou-me não ser menos que este amor
que segue ao teu lado
mesmo quando é tão distante teu caminho,
teu silêncio, teu passo rápido, teu sonho.
Choro,
que o destino das mães é sempre triste.
Porque é triste não poder ser
a mulher do seu menino.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Manifesto (Eucanaã Ferraz - 1961)
Sim ao prazer sem custo.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.
Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide
do que é capaz a coincidência
entre as coisas. Nesse mundo
em que gênios são servos de si mesmos,
pratique-se o descanso, para
que o povo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.
Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide
do que é capaz a coincidência
entre as coisas. Nesse mundo
em que gênios são servos de si mesmos,
pratique-se o descanso, para
que o povo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Passando em frente... (Eucanaã Ferraz - 1961)
Passando em frente
ao antigo, imponente
prédio:
o leão, velho, pára
e repara, atento,
naquele seu estranho parente.
Repara nas patas
bem postas,
pesadas, afiadas,
nos pelos, nos olhos,
em tudo que, granítico,
jamais apodrece.
O leão velho vê
a si mesmo
e inveja o irmão de pedra.
Pensa, por exemplo, que
não poderia guardar
entradas de edifícios
como faz o pétreo
leão de guarda,
impávido, perfeito.
Enquanto medita, moscas
fazem festa em volta de sua juba,
um tanto suja,
não há como negar, e
todo ele, desse jeito, mostra
uma ternura engraçada,
de palhaço,
de palhaço velho,
mais doce por isso.
O leão de pedra,
ao contrário, é,
depois de um século,
todo empáfia,
um rei
que não morresse,
que não morre,
que permanece, e
mais rei por isso.
O leão de pedra, imóvel,
guarda a entrada do templo,
enquanto o outro
procura por nós, igual
a nós, dentro
do tempo.
ao antigo, imponente
prédio:
o leão, velho, pára
e repara, atento,
naquele seu estranho parente.
Repara nas patas
bem postas,
pesadas, afiadas,
nos pelos, nos olhos,
em tudo que, granítico,
jamais apodrece.
O leão velho vê
a si mesmo
e inveja o irmão de pedra.
Pensa, por exemplo, que
não poderia guardar
entradas de edifícios
como faz o pétreo
leão de guarda,
impávido, perfeito.
Enquanto medita, moscas
fazem festa em volta de sua juba,
um tanto suja,
não há como negar, e
todo ele, desse jeito, mostra
uma ternura engraçada,
de palhaço,
de palhaço velho,
mais doce por isso.
O leão de pedra,
ao contrário, é,
depois de um século,
todo empáfia,
um rei
que não morresse,
que não morre,
que permanece, e
mais rei por isso.
O leão de pedra, imóvel,
guarda a entrada do templo,
enquanto o outro
procura por nós, igual
a nós, dentro
do tempo.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Vê: a luz, pela fresta (Eucanaã Ferraz - 1961)
Vê: a luz, pela fresta,
estrela magnífica
e doméstica, vem,
acaso e matemática,
morder no copo
a água que dormiu à mesa.
Do corpo amado, da canção,
de uma romã, de uma manhã qualquer
a lâmpada que se exala
pode não ser a morte da morte
e talvez não mostre a agulha perdida
na sala ou no tempo, mas
infringe, por ínfimo farol
que seja, certos escuros: um canto
do quarto, da dor, do olhar.
Dure apenas um minuto
a gema de um tal ardor,
sol tão pequeno,
há que se acender
em cada mínimo
a força da minúcia.
estrela magnífica
e doméstica, vem,
acaso e matemática,
morder no copo
a água que dormiu à mesa.
Do corpo amado, da canção,
de uma romã, de uma manhã qualquer
a lâmpada que se exala
pode não ser a morte da morte
e talvez não mostre a agulha perdida
na sala ou no tempo, mas
infringe, por ínfimo farol
que seja, certos escuros: um canto
do quarto, da dor, do olhar.
Dure apenas um minuto
a gema de um tal ardor,
sol tão pequeno,
há que se acender
em cada mínimo
a força da minúcia.
quarta-feira, 6 de março de 2013
O doido (Eucanaã Ferraz - 1961)
Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra
acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça
reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua
em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.
Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação
de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos
encardidos a água das praias,
como se província sua,
como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,
até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.
e que a despeito dos bens que possuíra
acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça
reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua
em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.
Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação
de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos
encardidos a água das praias,
como se província sua,
como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,
até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Romântico (Eucanaã Ferraz - 1961)
Amar noutro mundo
que não este.
Poder equilibrar – perfeito –
um prato sobre um alfinete.
Equilibrar um livro, uma casa,
sobre um alfinete.
Outro mundo. Sua maquete:
palavra e cavalete.
Outro: este, mas
em falsete. Sete vezes
mais belo, mil mais leve.
Setecentos o mesmo gesto – amar –
e, no entanto, não se complete.
Um rio que se repetisse,
um Tibete ameno, translúcido – e seu fundo,
em que não se chegasse,
era jamais a morte.
que não este.
Poder equilibrar – perfeito –
um prato sobre um alfinete.
Equilibrar um livro, uma casa,
sobre um alfinete.
Outro mundo. Sua maquete:
palavra e cavalete.
Outro: este, mas
em falsete. Sete vezes
mais belo, mil mais leve.
Setecentos o mesmo gesto – amar –
e, no entanto, não se complete.
Um rio que se repetisse,
um Tibete ameno, translúcido – e seu fundo,
em que não se chegasse,
era jamais a morte.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Papel tesoura e cola (Eucanaã Ferraz - 1961)
Dia de verão na Vista Chinesa. Eu, sozinho,
era um mandarim frio; mas vendo tudo
do alto, tomado pela beleza, achei que
em meu coração a tristeza era mesquinha;
pensar em mim e em você me pareceu avareza,
tendo em vista que nós somos bem menores
vistos do Alto da Boa Vista. Janeiro bicicletas
bem-te-vis entraram pelos meus olhos
abrindo em cheio meu peito; que sombra
demoraria à luz de tantas lanternas?
Mesmo a noite mais profunda logo se incendiara
e, decerto, morreríamos só depois da madrugada.
Era uma tarde chinesa, tarde de mim sem você,
quando vi que nós dois juntos não valíamos
a cena.
era um mandarim frio; mas vendo tudo
do alto, tomado pela beleza, achei que
em meu coração a tristeza era mesquinha;
pensar em mim e em você me pareceu avareza,
tendo em vista que nós somos bem menores
vistos do Alto da Boa Vista. Janeiro bicicletas
bem-te-vis entraram pelos meus olhos
abrindo em cheio meu peito; que sombra
demoraria à luz de tantas lanternas?
Mesmo a noite mais profunda logo se incendiara
e, decerto, morreríamos só depois da madrugada.
Era uma tarde chinesa, tarde de mim sem você,
quando vi que nós dois juntos não valíamos
a cena.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Enquanto descansa, dorme... (Eucanaã Ferraz - 1961)
Enquanto descansa, dorme,
a mulher que amo, que me ama,
sigo neste exercício da ternura exata
e comum:
cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,
e, assim, em volta da mulher que amo,
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum.
a mulher que amo, que me ama,
sigo neste exercício da ternura exata
e comum:
cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,
e, assim, em volta da mulher que amo,
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum.
Assinar:
Postagens (Atom)