Áspero é o teu dia. E o meu também.
Inauguro ares e ilhas
Para que o teu corpo se conheça
Sobre mim, mas é áspera
Minha boca móvel de poesia,
Áspera minha noite
Porque nem sei se o canto há de chegar
No escuro labirinto em que te fazes,
Nessa rede de aço que te envolve,
Nesse fechar-se enorme onde te moves.
Trabalho tua terra cada dia
E não me vês. O teu passo de ferro
Esmaga o que na noite foi minha vida.
E recomeço. E recomeço.
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domingo, 11 de novembro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Acreditariam se eu dissesse (Hilda Hilst - 1930 - 2004)
Acreditariam
se eu dissesse aos homens
que nascemos
tristemente humanos
e morremos flor?
Acreditariam
que a presença é ausente
quando o olhar se perde
nas alturas?
Acreditariam
ser a nossa vida
vontade consciente
de não ser?
E ser luz e estrela
água, flor
se eu dissesse aos homens
que nascemos
tristemente humanos
e morremos flor?
Acreditariam
que a presença é ausente
quando o olhar se perde
nas alturas?
Acreditariam
ser a nossa vida
vontade consciente
de não ser?
E ser luz e estrela
água, flor
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Cançãozinha triste (Hilda Hilst - 1930 - 2004)
E fiz de tudo.
Fui autêntica, durante algum tempo.
Fui inquietude e fragilidade.
Brilhei em roda de amigos.
Pratiquei o esporte com violência
e uma vez (trágica melancolia!)
nadei com aparente desenvoltura
(peito arfante e dilacerado)
mil metros na butterfly...
Fui amante, amiga, irmã,
sorri quando ele me disse coisas amargas...
E nada o comove.
Nada o espanta.
E ele mente
e mente amor
como as crianças mentem.
Fui autêntica, durante algum tempo.
Fui inquietude e fragilidade.
Brilhei em roda de amigos.
Pratiquei o esporte com violência
e uma vez (trágica melancolia!)
nadei com aparente desenvoltura
(peito arfante e dilacerado)
mil metros na butterfly...
Fui amante, amiga, irmã,
sorri quando ele me disse coisas amargas...
E nada o comove.
Nada o espanta.
E ele mente
e mente amor
como as crianças mentem.
Já não sei mais o amor (Hilda Hilst - 1930 - 2004)
Já não sei mais o amor
e também não sei mais nada.
Amei os homens do dia
suaves e decentes esportistas.
Amei os homens da noite
poetas melancólicos, tomistas,
críticos de arte e os nada.
Agora quero um amigo.
E nesta noite sem fim
confiar-lhe o meu desejo
o meu gesto e a lua nova
Os que estão perto de mim
não me vêem... Estende a tua mão.
Ficaremos sós e olhos abertos
para a imensidão do nada.
e também não sei mais nada.
Amei os homens do dia
suaves e decentes esportistas.
Amei os homens da noite
poetas melancólicos, tomistas,
críticos de arte e os nada.
Agora quero um amigo.
E nesta noite sem fim
confiar-lhe o meu desejo
o meu gesto e a lua nova
Os que estão perto de mim
não me vêem... Estende a tua mão.
Ficaremos sós e olhos abertos
para a imensidão do nada.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Amavisse (Hilda Hilst - 1930-2004)
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
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