Não me fales com essa tua voz de silêncio
De torturar os mortos,
Tu que escalaste a montanha inacessível
Da minha alma...
Porque não choras, não gritas,
E olhas com esse teu rosto azul
A lua do teu coval
Como um esqueleto descarnado de ideais,
Se és testemunha e não vítima
Desta humanidade incolor?
Porque não ergues o estandarte triunfal
Dos "excluídos para sempre"?
Oh, não me fales da putrefação,
Nem da extinção da tua existência impoluta,
Se não me prometeres que vais ser o Sol Verde
Tingindo os Outonos de cabelos amarelos!
quinta-feira, 31 de março de 2011
Soneto (Mário de Andrade - 1893-1945)
Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de milhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de milhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Amavisse (Hilda Hilst - 1930-2004)
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Aforismo (José Craveirinha - 1922-2003)
Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastros
mas não podiam
ajoelhar-nos.
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastros
mas não podiam
ajoelhar-nos.
terça-feira, 29 de março de 2011
Não ser é talvez ser sem que tu sejas (Pablo Neruda - 1904-1973)
Não ser é talvez ser sem que tu sejas,
sem que vás atravessando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e pelos ladrilhos,
sem essa luz que transportas na mão
que outros não verão talvez dourada,
que talvez ninguém saiba que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, estimulante, a conhecer a minha vida,
rajada de roseira, trigo do vento,
e desde então eu sou porque tu és,
e desde então tu és, eu sou, nós somos
e por amor serei, serás, seremos.
Antes de amar-te, amor, eu nada tinha (Pablo Neruda - 1904-1973)
Antes de amar-te, amor, eu nada tinha:
vacilei pelas ruas e pelas coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que aguardava.
Conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que teimavam sobre a areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e abatido,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que a tua beleza e a tua pobreza
encheram o outono de presentes.
vacilei pelas ruas e pelas coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que aguardava.
Conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que teimavam sobre a areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e abatido,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que a tua beleza e a tua pobreza
encheram o outono de presentes.
segunda-feira, 28 de março de 2011
"O céu jamais me dê a tentação funesta" (Jorge de Lima - 1895-1953)
O céu jamais me dê a tentação funesta
de adormecer ao léu, na lomba da floresta,
onde há visgo, onde certa erva sucosa e fria,
carnívora decerto o sono espia.
Que culpa temos nós dessa planta da infância,
de sua sedução, de seu viço e constância?
Minha cabeça estava em pedra, adormecida,
quando me sobreveio a cena pressentida.
Em sonâmbulo arriei as mãos e os pés culpados
dos passos e do gesto em vão desperdiçados.
Despi-me de outros bens, de glória mais modesta:
restava-me por fim a minha pobre testa
confundida com a pedra, em meio da floresta.
Que doces olhos têm as coisas simples e unas
onde a loucura dorme inteira e sem lacunas!
Agora posso ver as mãos entrecruzadas
e as plantas de meus pés nas entranhas amadas,
nesse início que é a clara insônia verdadeira.
Ó seres primordiais que sois testa e viseira,
restituo-me em vós, sangue e máscara vividos,
desejo de esquecer tempo e espaço existidos;
e em vós e em vossa paz meus solilóquios para-os,
penetro-me do Verbo em seus silêncios claros,
invisto-me de vós, vossa fronte me espia
através dessa pedra em que nasce o meu dia.
de adormecer ao léu, na lomba da floresta,
onde há visgo, onde certa erva sucosa e fria,
carnívora decerto o sono espia.
Que culpa temos nós dessa planta da infância,
de sua sedução, de seu viço e constância?
Minha cabeça estava em pedra, adormecida,
quando me sobreveio a cena pressentida.
Em sonâmbulo arriei as mãos e os pés culpados
dos passos e do gesto em vão desperdiçados.
Despi-me de outros bens, de glória mais modesta:
restava-me por fim a minha pobre testa
confundida com a pedra, em meio da floresta.
Que doces olhos têm as coisas simples e unas
onde a loucura dorme inteira e sem lacunas!
Agora posso ver as mãos entrecruzadas
e as plantas de meus pés nas entranhas amadas,
nesse início que é a clara insônia verdadeira.
Ó seres primordiais que sois testa e viseira,
restituo-me em vós, sangue e máscara vividos,
desejo de esquecer tempo e espaço existidos;
e em vós e em vossa paz meus solilóquios para-os,
penetro-me do Verbo em seus silêncios claros,
invisto-me de vós, vossa fronte me espia
através dessa pedra em que nasce o meu dia.
Assinar:
Postagens (Atom)

