segunda-feira, 4 de abril de 2011

É preciso voar neste tempo, para onde (Pablo Neruda - 1904-1973)

É preciso voar neste tempo, para onde?
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não levantaram os pés do viajante.

É preciso voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
é preciso vencer os olhos de Saturno
e implantar ali novos sinos.

Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não serve a terra aos errantes,
as raízes já atravessaram a noite,

e tu aparecerás em outra estrela
decididamente transitória,
em papoila enfim convertida.

O meu condado (Antonio Nobre - 1867-1900)

No campo azul da alada fantasia
Edifiquei outr'ora, por meu mal,
Castelos de oiro, esmalte e pedraria,
Torres de lápis-lazúli e coral.

N'uma extensão de léguas, não havia
Quem possuísse outro domínio igual:
Tão belo, assim tão belo, parecia,
O território de um senhor feudal...

Um dia (não sei quando, nem sei d'onde),
Um vento agreste de indiferença e spleen
Lançou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado - o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso conde,
N'aquela idade em que é conde assim...

domingo, 3 de abril de 2011

Um exemplo de invisibilidade social: mea culpa (Maíra Ramos)

Há muito tempo venho pensando sobre o tema e em como essa invisibilidade se faz presente em nossas vidas, principalmente nos grandes centros urbanos, onde o ritmo apressado nos leva, invariavelmente, a esquecer de olhar o outro.

Venho aqui contar uma história real, de um trabalhador da minha super quadra, em Brasília. Faço mea culpa, pois, embora o admire de longe, não tive a coragem, ainda, de conversar com ele, saber seu nome ou mesmo sua história.

O senhor aparenta ter, já, uns sessenta anos. Talvez não tenha toda essa idade. No entanto, para quem vive de sol a sol, o tempo deixa marcas mais profundas na pele, o que acaba por lhe dar mais anos do que efetivamente venha a ter. Ele varre a quadra: isso inclui retirar as folhas que as muitas árvores teimam em jogar no chão, limpar o parquinho infantil e varrer o piso acimentado. Chega bem cedo para fazer o seu trabalho. Está sempre de bom humor, ao menos é o que deixa transparecer para quem procura ver.

Sou uma das poucas pessoas que lhe deseja bom dia. Queria fazer mais, talvez conversar um pouco, ouvir o que esse senhor tem a dizer ou mesmo partilhar do seu silêncio, se as palavras não puderem ou não quiserem sair.

Esse senhor não deve ter grande formação acadêmica, pessoa de poucos estudos, a quem, quiçá, esse seja o mais importante emprego que poderia almejar. Talvez não... Como saber?

Bom, o fato é que mesmo sem nada conhecer a respeito da vida desse trabalhador, admiro-o em silêncio, do conforto do meu amplo apartamento. Às vezes me pego a olhá-lo e me vejo repleta de um sentimento bom que não sei explicar, pois me é diferente de tudo que já senti anteriormente. Percebo, à distância, a serenidade do seu trabalho, em como, com graça, ele recolhe as flores e folhas caídas, em como o lixo é juntado, quase que religiosamente, nos sacos pretos...

É certo que as folhas caem todos os dias e ele, sabedor de tal fato, vem, diariamente, exercer com zelo o seu ofício. De manhãzinha chega e só se retira quando o céu dá sinal de que a noite se avizinha. A maioria de nós passa por esse trabalhador sem o enxergar; alguns têm pressa, mas a maior parte simplesmente não enxerga a pessoa que mantém limpo o chão onde nossos pés pisam.

Já faz umas semanas que não vejo, de minha janela, o senhor. Foi substituído por um rapaz jovem, que não desenvolve, com a mesma graça, o trabalho. Tenho sentido falta dele. Quero acreditar que essa ausência seja só por um período de férias. Frequentemente me ponho a olhar pela janela, saudosa de uma pessoa que nem conheço e que, mesmo sem saber, faz parte dos meus dias. Invisível para muitos e exemplo de perseverança para mim...

sábado, 2 de abril de 2011

Casamento (Adélia Prado - 1935)

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Ao longe os barcos de flores (Camilo Pessanha - 1867-1926)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, de carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há de remi-la?
Quem sabe a dor que em razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Saberás que não te amo e que te amo (Pablo Neruda - 1904-1973)

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

O morcego (Augusto dos Anjos - 1884-1914)


Meia-noite. Ao me quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.


"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!


Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!


A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!