quinta-feira, 5 de maio de 2011

Tristeza (Ivan Junqueira - 1934)

Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza,
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes do meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrima de olho escondido.

(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)

E o resto é mesmo tristeza.

Canção (Ivan Junqueira - 1934)

Porque pedes, trago flores
e derramo-as em teu leito,
sobre teus úmidos pêlos,
entre os gomos do teu seio.

Porque pedes, planto flores
em lugar do desespero
e mudo os tons da palheta
do negro para o vermelho.

Porque pedes, colho flores
até na escarpa mais erma,
nos desertos onde a seca
mostra a vida pelo avesso.

Porque pedes, ponho flores
nos tetos e nas paredes
e são elas, não as letras,
que dão sentido ao que escrevo.

Porque pedes, deito flores
às ondas de teus cabelos
e elas faíscam - estrelas -
no pélago em que as semeio.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Da primeira vez em que me assassinaram (Mario Quintana - 1906-1994)

Da primeira vez em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Oh! como se me alonga, de ano em ano... (Camões 1524-1580)

Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio que ainda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece;
mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se ainda aparece,
da vista se me perde e da esperança.

Passo por meus trabalhos tão isento (Camões 1524-1580)

Passo por meus trabalhos tão isento
de sentimento grande nem pequeno,
que só pela vontade com que peno
me fica Amor devendo mais tormento.

Mas vai-me Amor matando tanto a tento,
temperando a triaga com veneno,
que do penar a ordem desordeno,
porque assim mo consente o sofrimento.

Porém, se esta fineza o Amor não sente,
e pagar-me meu mal com mal pretende;
torna-me com prazer como ao Sol neve.

Mas se me vê co' males tão contente,
faz-se avaro da pena, porque entende
que quanto mais me paga, mais me deve.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Vicente do Rego Monteiro (João Cabral de Melo Neto - 1920-1999)

Eu vi teus bichos
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professsor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
- É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.

domingo, 1 de maio de 2011

Este quarto... (Mario Quintana - 1906-1994)

Para Guilhermino César

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte devia ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...