terça-feira, 31 de maio de 2011
A árvore da serra (Augusto dos Anjos - 1884-1914)
- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...
- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!
Senectude precoce (Augusto dos Anjos - 1884-1914)
Envelheci. A cal da sepultura
Caiu por sobre a minha mocidade...
E eu que ainda julgava em minha idealidade
Ver inda toda a geração futura!
Eu que julgava! Pois não é verdade?!
Hoje estou velho. Olha essa neve pura!
- Foi saudade? foi dor? - foi tanta agrura
Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade!
Sei que durante toda a travessia
Da minha infância trágica, vivia,
Assim como uma casa abandonada
Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas...
Sei que na infância nunca tive auroras,
E afora disto, eu já nem sei mais nada!
Caiu por sobre a minha mocidade...
E eu que ainda julgava em minha idealidade
Ver inda toda a geração futura!
Eu que julgava! Pois não é verdade?!
Hoje estou velho. Olha essa neve pura!
- Foi saudade? foi dor? - foi tanta agrura
Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade!
Sei que durante toda a travessia
Da minha infância trágica, vivia,
Assim como uma casa abandonada
Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas...
Sei que na infância nunca tive auroras,
E afora disto, eu já nem sei mais nada!
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Nada vêem (Jorge Wanderley - 1938-1999)
Pois se entre todos vou desconhecido,
No além de minha condição negado,
Eis que por duas vezes vou servido
De recusa e cegueira, e acostumado.
Melhor: a quem recusa, recusado
Faço que fique no seu mal vencido,
E a quem não vê, pobre desentendido,
Engano, enquanto vim assinalado.
Tudo o que dizem, tenho conhecido,
Sei quando calam tudo que hão calado.
Vá lá que ceguem, já que entorpecido
Têm seu sentido, em si tão limitado:
Mas que neguem quem seja, tem nutrido
Minha vingança e meu poder chamado.
No além de minha condição negado,
Eis que por duas vezes vou servido
De recusa e cegueira, e acostumado.
Melhor: a quem recusa, recusado
Faço que fique no seu mal vencido,
E a quem não vê, pobre desentendido,
Engano, enquanto vim assinalado.
Tudo o que dizem, tenho conhecido,
Sei quando calam tudo que hão calado.
Vá lá que ceguem, já que entorpecido
Têm seu sentido, em si tão limitado:
Mas que neguem quem seja, tem nutrido
Minha vingança e meu poder chamado.
Um sonho pardo (Jorge Wanderley - 1938-1999)
Passeio nesta esquina - onde a verdade
Ou todo o mal, talvez, talvez o fim
Das coisas - das palavras! - de um jardim
De encantos e tormentos, tempestade
Em ondas silenciosas, chega a mim.
Em sonhos não toquei nesta cidade
Senão pelos subúrbios, uma grade
Melancólica, envolta no jasmim,
Por uma tarde longe onde foi ontem.
Nada há por perto, senão ruas e casas
E um sol se pondo e passos meus, incertos.
Nada que na incerteza me descontem
Os lances da memória que se atrasa
E leva a mim, de mim tão longe e perto.
Ou todo o mal, talvez, talvez o fim
Das coisas - das palavras! - de um jardim
De encantos e tormentos, tempestade
Em ondas silenciosas, chega a mim.
Em sonhos não toquei nesta cidade
Senão pelos subúrbios, uma grade
Melancólica, envolta no jasmim,
Por uma tarde longe onde foi ontem.
Nada há por perto, senão ruas e casas
E um sol se pondo e passos meus, incertos.
Nada que na incerteza me descontem
Os lances da memória que se atrasa
E leva a mim, de mim tão longe e perto.
domingo, 29 de maio de 2011
Transforma-se o amador na cousa amada (Camões 1524-1580)
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semidéia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim com a minha alma se conforma,
está no pensamento como idéia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semidéia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim com a minha alma se conforma,
está no pensamento como idéia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Eu cantarei de amor tão docemente (Camões 1524-1580)
Eu cantarei de amor tão docemente,
por uns termos em si tão concertados,
que dous mil acidentes namorados
faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
pintando mil segredos delicados,
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
de vossa vista branda e rigorosa,
contentar-me hei dizendo a menor parte.
Porém, para cantar de vosso gesto
a composição alta e milagrosa,
aqui falta saber, engenho e arte.
por uns termos em si tão concertados,
que dous mil acidentes namorados
faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
pintando mil segredos delicados,
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
de vossa vista branda e rigorosa,
contentar-me hei dizendo a menor parte.
Porém, para cantar de vosso gesto
a composição alta e milagrosa,
aqui falta saber, engenho e arte.
sábado, 28 de maio de 2011
Epitáfio (Ivan Junqueira - 1934)
De tua história, nada;
ou tudo, se quiseres;
entre uma e outra data,
a fábula de seres,
nunca o tangível, mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
- e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.
ou tudo, se quiseres;
entre uma e outra data,
a fábula de seres,
nunca o tangível, mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
- e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.
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