quarta-feira, 6 de julho de 2011

Arte de amar (Thiago de Mello - 1926)

Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.

Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sua mão (Onestaldo de Pennafort - 1902-1987)

A mão do meu suave amor é leve
como uma asa de pássaro a voar...
Tem todas essas curvas que descreve,
pelas areias úmidas, o mar...

De longe, às vezes, num adejo breve,
a alma me afaga, me afagando o olhar...
Mão que se cobre de um alvor de neve
se acaso tento os dedos beijar!

Ninguém diria que essa mão serena,
que tanta força tem, sendo pequena,
pode, num gesto de emoções febris,

mudar o curso das eternidades,
desmoronar impérios e cidades,
erguer montanhas... me fazer feliz!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Andorinha (Hermes Fontes - 1888-1930)


À esfera, cujo azul glorioso abril desvenda
para a festa da luz, prodigamente esparsa,
a emigrante voltou. A sua alma é uma lenda,
do éter bordada na alta e invisível talagarça.

Alvinegra, pelo ar, ei-la que o voo emenda,
brinca, ziguezagueia, já a descer - disfarça,
alteia... e, assim, até voltar à humilde tenda,
onde tem glórias de águia e vaidades de garça.

E, quando, entre outras, chega enchendo o espaço de asas,
o coração lhe fica onde a prole se aninha,
no beiral de uma torre, erguida às coisas rasas...

A vida humana é tão diversa, é tão mesquinha!...
- Pudéssemos nós ter, no recesso das casas,
a alegria feliz do lar dessa andorinha!...

domingo, 3 de julho de 2011

Acorda amor (Mario Benedetti - 1920-2009)

Bonjour buon giorno guten morgen
acorda amor e presta atenção
só no terceiro mundo
morrem quarenta mil crianças por dia
no plácido céu aberto
pairam os bombardeios e os abutres
quatro milhões têm aids
a cobiça depena a amazônia

buenos días good morning acorda
nos computadores da vovó onu
não cabem mais cadáveres de ruanda
os fundamentalistas degolam estrangeiros
prega o papa contra a camisinha
havelange estrangula maradona

bonjour monsieur le maire
forza italia buon giorno
guten morgen ernst jünger
opus dei buenos días
good morning hiroshima

acorda amor
que o horror amanhece.

Desiludido (Alceu Wamosy - 1895-1923)


Por que te hás de aquecer ao sol dessa esperança
nova, que despontou na tua alma ingênua e crente?
Se ela é como sorriso em lábio de criança,
que se há de transformar em pranto, de repente...

A ventura completa, é céu que não se alcança,
mas que a gente vislumbra, além, perpetuamente:
esse céu mentiroso, é um céu que foge e avança,
se é maior ou menor a aspiração da gente.

Sê simples e sê bom, mas não julgues que um dia,
hás de o teu coração, repleto de alegria,
para sempre fechar, como quem fecha um cofre!

Crê que a desilusão é o sonho pelo avesso,
e que só se é feliz, dando-se o mesmo apreço
ao gozo que se goza, e à mágoa que se sofre!

sábado, 2 de julho de 2011

Último degrau (Adelino Veiga - 1848-1887)

Ao transpor os umbrais do teu prostíbulo,
busquei a embriaguez do esquecimento;
deixei lá fora a dor e o sentimento,
pisando este degrau como patíbulo.

Dá-me a cruz de teus braços, oh!... perdida!...
O amor te enlameou e envileceu...
Não és, não és, mulher, mais vil do que eu,
Naná!... Perdi a vida, dá-me a vida!...

E quando um dia alguém te perguntar
como é que pudeste ainda amar,
mulher, que sempre o amor vendido tens,

dize-lhe: - Era um perdido, um desgraçado;
dei-lhe o meu coração no vil mercado...
Pobre imundície que se atira aos cães!...

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Acrobacias (Ana Paula Inácio - 1966)

sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o nosso inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos seus membros
- superiores ou inferiores -
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
tornava-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ias
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.