Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
Da Messalina, e de Sardanapalo?!
Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
- Alavanca desviada do seu fulcro -
E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!
sábado, 6 de agosto de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
A lucidez perigosa (Clarice Lispector - 1920-1977)
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode tornar-se o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Lugares comuns (Ana Luísa Amaral - 1956)
Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também,
e eles tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas
ilhotazinhas, mais adiante)
Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.
Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos
e por aí fora...
E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu
Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I'm not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má, e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber
E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia a levantar, a mulher sorriu
Como quem diz: That's it.
e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda parte
as mesmas coisas são
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também,
e eles tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas
ilhotazinhas, mais adiante)
Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.
Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos
e por aí fora...
E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu
Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I'm not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má, e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber
E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia a levantar, a mulher sorriu
Como quem diz: That's it.
e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda parte
as mesmas coisas são
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Ana Luísa (Murilo Mendes - 1901-1975)
Ana Luísa
Tuberculosa incomparável
Tens um farrapo de vida
Mas um corpo forte sensual
Uma cabeça vitoriosa
Plantada num tronco largo.
Está sendo lentamente devorada
Por seres microscópicos
Ana Luísa.
No sanatório usava lentes escuras
Para esconder teus célebres olhos azul-cinza
E tinhas medo do definitivo e monumental:
Estendida continuamente na espreguiçadeira,
Da força das montanhas te ocultavas.
De nada te valeu minha ternura,
De nada tua beleza te valeu.
Talvez te tornes para sempre invisível
Agora que eu te arranquei da penumbra dos tempos
Ana Luísa.
Tuberculosa incomparável
Tens um farrapo de vida
Mas um corpo forte sensual
Uma cabeça vitoriosa
Plantada num tronco largo.
Está sendo lentamente devorada
Por seres microscópicos
Ana Luísa.
No sanatório usava lentes escuras
Para esconder teus célebres olhos azul-cinza
E tinhas medo do definitivo e monumental:
Estendida continuamente na espreguiçadeira,
Da força das montanhas te ocultavas.
De nada te valeu minha ternura,
De nada tua beleza te valeu.
Talvez te tornes para sempre invisível
Agora que eu te arranquei da penumbra dos tempos
Ana Luísa.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Flores do mais (Ana Cristina Cesar - 1952-1983)
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Falando com Deus (Jerônimo Bahia - 1628-1688)
Só vos conhece, amor, quem se conhece,
só vos entende bem quem bem se entende,
só quem se ofende assim não vos ofende,
e só vos pode amar quem se aborrece.
Só quem se mortifica em vós floresce,
só é senhor de si quem se vos rende,
só sabe pretender quem vos pretende,
e só sobe por vós quem por vós desce.
Quem tudo por vós perde tudo ganha,
pois tudo quanto há tudo em vós cabe;
ditoso quem no vosso amor se inflama,
pois faz troca tão alta e tão estranha,
mas só vos pode amar o que vos sabe,
só vos pode saber o que vos ama.
só vos entende bem quem bem se entende,
só quem se ofende assim não vos ofende,
e só vos pode amar quem se aborrece.
Só quem se mortifica em vós floresce,
só é senhor de si quem se vos rende,
só sabe pretender quem vos pretende,
e só sobe por vós quem por vós desce.
Quem tudo por vós perde tudo ganha,
pois tudo quanto há tudo em vós cabe;
ditoso quem no vosso amor se inflama,
pois faz troca tão alta e tão estranha,
mas só vos pode amar o que vos sabe,
só vos pode saber o que vos ama.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Balada para um amigo (Felipe Fortuna - 1963)
Essa aurora é a minha vez.
É a voz que me faltava e me traduzia
um homem que nasceu.
Se penso em ti, logo me vejo sozinho,
e outro dia amei que nem pensava.
Abri flores - agora estarão mortas.
Abri fendas - ainda estarão nas rochas.
Bebi meu último copo com o amigo.
Disse-me tantas verdades, o amigo,
que preferi partir sozinho à casa sóbria.
Lembro-me só, do pouco que falei,
que choramos juntos a música besta
e o assassinato de um chofer de táxi.
E pela manhã, quando as estudantes
desfilam seios e saias plissadas,
parei perto das estátuas, olhei pombos atônitos,
e não trazia uma frase
de improviso ou ensaiada
que dissolvesse a névoa, que revelasse ao amigo
por que naquele dia fui tão triste,
recitei tanta ventania,
e dei-lhe um abraço de monstro
e não lhe disse: - Acordei.
Meu amigo, se estiveres
lendo-me agora
ou escutando rádio,
se estiveres bem em tua cama e almofada,
me diga se o que houve
entre minha e tua palavra
foi vida, que tanto escorria,
ou foi a morte que nos encontrava.
É a voz que me faltava e me traduzia
um homem que nasceu.
Se penso em ti, logo me vejo sozinho,
e outro dia amei que nem pensava.
Abri flores - agora estarão mortas.
Abri fendas - ainda estarão nas rochas.
Bebi meu último copo com o amigo.
Disse-me tantas verdades, o amigo,
que preferi partir sozinho à casa sóbria.
Lembro-me só, do pouco que falei,
que choramos juntos a música besta
e o assassinato de um chofer de táxi.
E pela manhã, quando as estudantes
desfilam seios e saias plissadas,
parei perto das estátuas, olhei pombos atônitos,
e não trazia uma frase
de improviso ou ensaiada
que dissolvesse a névoa, que revelasse ao amigo
por que naquele dia fui tão triste,
recitei tanta ventania,
e dei-lhe um abraço de monstro
e não lhe disse: - Acordei.
Meu amigo, se estiveres
lendo-me agora
ou escutando rádio,
se estiveres bem em tua cama e almofada,
me diga se o que houve
entre minha e tua palavra
foi vida, que tanto escorria,
ou foi a morte que nos encontrava.
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