Houve um tempo
em que Schmidt e Vinícius
dividiam as preferências
como maior poeta do Brasil.
Quando, por unanimidade ou quase,
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo,
Drummond foi o escolhido,
ele comentou:
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato
sou o maior poeta?
Estava certo.
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro -
nem o mais
nem o menos
- só que de um metro nenhum
um metro de nadas
terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Rotas (Mariano Marovatto - 1982)
A Fonte
água sem praia
plana no eterno
indivisível
a sabedoria suprema
Hóstia das almas
contempla e sublima
Per
ante
a exaustão de rotas asas
à deriva
no vórtice
redemoníaco
água sem praia
plana no eterno
indivisível
a sabedoria suprema
Hóstia das almas
contempla e sublima
Per
ante
a exaustão de rotas asas
à deriva
no vórtice
redemoníaco
domingo, 4 de setembro de 2011
porta-joias (Alice Sant'Anna - 1988)
nessa noite, digo, em quase todas
tenho um sonho horrível
como se acordasse
fosse até a pia do banheiro
lavasse o rosto
e ao enfrentar-me ali
de cabelos revoltos
os dentes cairiam um por um
dominós em série
tentaria em vão segurar as pequenas
peças com as mãos
malabaristas, desastradas
que não conseguiriam deter
a porcelana
sugada com força total pelo ralo
meus dentes pelo ralo, os brincos
de marfim que vovó separou
pra mim
sábado, 3 de setembro de 2011
Caminhada (Manoel de Barros - 1916)
Eu vinha aquela tarde pela terra
fria de sapos...
O azul das pedras tinha cauda e canto.
De um sarã espreitava meu rosto um passarinho.
Caracóis passeavam com róseos casacos ao sol.
As mãos cresciam crespas para a água da ilha.
Começaram de mim a abrir roseiras bravas.
Com as crinas a fugir rodavam cavalos
investindo os orvalhos ainda em carne.
De meu rosto viam ribeiros...
Limpando da casa-do-vento os limos
no ar minha voz pisava...
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Abismos (Suzana Vargas - 1955)
Tudo o que já dissemos
sobre o amor,
não supre a expectativa
da paixão.
A paixão é adaga afiada
que se crava fundo, fundo
Nela o amor dança
e dorme, sonha tudo.
Não tem meias medidas
a paixão.
Ou voamos, viramos pelo
avesso
Ou o que nos espera é o
precipício
E isso - é apenas o início.
sobre o amor,
não supre a expectativa
da paixão.
A paixão é adaga afiada
que se crava fundo, fundo
Nela o amor dança
e dorme, sonha tudo.
Não tem meias medidas
a paixão.
Ou voamos, viramos pelo
avesso
Ou o que nos espera é o
precipício
E isso - é apenas o início.
Sortilégio (Ferreira Gullar - 1930)
Eu estava ali
no escuro e
de repente
o silêncio se move
enruga-se, melhor
dizendo, e me
roça as virilhas
(onde dormiam fúrias)
É quando uma
quase voz me toca
o lado esquerdo
do corpo para onde
me volto
e estás ali
nua
emergias da treva
as coxas o ventre
os seios
eram luas encantadas
e do centro
do teu corpo
a macia estrela negra
me chamava
para dentro de si
enquanto o teu rosto menino
espantosamente familiar
sorria a me dizer: jamais
jamais jamais
escaparás
no escuro e
de repente
o silêncio se move
enruga-se, melhor
dizendo, e me
roça as virilhas
(onde dormiam fúrias)
É quando uma
quase voz me toca
o lado esquerdo
do corpo para onde
me volto
e estás ali
nua
emergias da treva
as coxas o ventre
os seios
eram luas encantadas
e do centro
do teu corpo
a macia estrela negra
me chamava
para dentro de si
enquanto o teu rosto menino
espantosamente familiar
sorria a me dizer: jamais
jamais jamais
escaparás
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Infância (Wilson Pereira - 1949)
Eu fui meu
como o espaço
era do pássaro.
Eu me soltava
em cantos e plumas
pelos campos da manhã.
Eu brincava comigo:
eu era eu
e o meu amigo.
Eu me falava baixo
para não espantar
o meu silêncio.
Eu era pequeno
e imenso.
como o espaço
era do pássaro.
Eu me soltava
em cantos e plumas
pelos campos da manhã.
Eu brincava comigo:
eu era eu
e o meu amigo.
Eu me falava baixo
para não espantar
o meu silêncio.
Eu era pequeno
e imenso.
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