terça-feira, 6 de setembro de 2011

A poesia (Francisco Alvim - 1938)

Houve um tempo
em que Schmidt e Vinícius
dividiam as preferências
como maior poeta do Brasil.
Quando, por unanimidade ou quase,
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo,
Drummond foi o escolhido,
ele comentou:
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato
sou o maior poeta?

Estava certo.
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro -
nem o mais
nem o menos
- só que de um metro nenhum
um metro de nadas

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Rotas (Mariano Marovatto - 1982)

A Fonte
     água sem praia
plana no eterno
     indivisível

a sabedoria suprema

     Hóstia das almas
     contempla e sublima

Per
     ante
a exaustão de rotas asas
à deriva
     no vórtice
     redemoníaco

domingo, 4 de setembro de 2011

porta-joias (Alice Sant'Anna - 1988)


nessa noite, digo, em quase todas
tenho um sonho horrível
como se acordasse
fosse até a pia do banheiro
lavasse o rosto
e ao enfrentar-me ali
de cabelos revoltos
os dentes cairiam um por um
dominós em série
tentaria em vão segurar as pequenas
peças com as mãos
malabaristas, desastradas
que não conseguiriam deter
a porcelana
sugada com força total pelo ralo
meus dentes pelo ralo, os brincos
de marfim que vovó separou
pra mim

sábado, 3 de setembro de 2011

Caminhada (Manoel de Barros - 1916)


Eu vinha aquela tarde pela terra
fria de sapos...
O azul das pedras tinha cauda e canto.

De um sarã espreitava meu rosto um passarinho.
Caracóis passeavam com róseos casacos ao sol.
As mãos cresciam crespas para a água da ilha.

Começaram de mim a abrir roseiras bravas.
Com as crinas a fugir rodavam cavalos
investindo os orvalhos ainda em carne.

De meu rosto viam ribeiros...

Limpando da casa-do-vento os limos
no ar minha voz pisava...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Abismos (Suzana Vargas - 1955)

Tudo o que já dissemos
sobre o amor,
não supre a expectativa
da paixão.

A paixão é adaga afiada
que se crava fundo, fundo
Nela o amor dança
e dorme, sonha tudo.

Não tem meias medidas
a paixão.

Ou voamos, viramos pelo
avesso
Ou o que nos espera é o
precipício

E isso - é apenas o início.

Sortilégio (Ferreira Gullar - 1930)

Eu estava ali
no escuro e
     de repente
     o silêncio se move

     enruga-se, melhor
     dizendo, e me
     roça as virilhas
     (onde dormiam fúrias)

É quando uma
quase voz me toca
o lado esquerdo
do corpo para onde
me volto
e estás ali
nua

     emergias da treva
as coxas o ventre
os seios
          eram luas encantadas
          e do centro
          do teu corpo
          a macia estrela negra
me chamava
para dentro de si
enquanto o teu rosto menino
espantosamente familiar
sorria a me dizer: jamais
          jamais jamais
          escaparás

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Infância (Wilson Pereira - 1949)

Eu fui meu
como o espaço
era do pássaro.

Eu me soltava
em cantos e plumas
pelos campos da manhã.

Eu brincava comigo:
eu era eu
e o meu amigo.

Eu me falava baixo
para não espantar
o meu silêncio.

Eu era pequeno
e imenso.