De pena em pena o amor atravessa as suas ilhas
e cria raízes que o pranto logo rega,
e ninguém pode, ninguém pode evitar os movimentos
do coração que passa silencioso e cruel.
Assim tu e eu procuramos um espaço, outro planeta
onde o sal não tocasse a tua cabeleira,
onde por minha culpa não houvesse dores,
onde sem agonia viva o pão.
Um planeta enredado de distância e de folhas,
um deserto, uma pedra cruel e desabitada,
com nossas próprias mãos queríamos construir
um ninho duro, sem danos, sem feridas, sem palavras,
e o amor não foi assim, mas uma cidade louca
onde as pessoas empalidecem nas varandas.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Oh que todo o amor propague em mim a sua boca (Pablo Neruda - 1904-1973)
Oh que todo o amor propague em mim a sua boca,
que não sofra um instante mais sem primavera,
à dor eu só vendi as minhas mãos,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre com teu perfume a luz do mês aberto,
fecha as portas com a tua cabeleira,
e em relação a mim não te esqueças que se acordo e choro
é porque em sonhos sou apenas uma criança perdida
que entre as folhas da noite procura as tuas mãos,
o contacto do trigo que tu me comunicas,
um arroubo cintilante de sombra e de energia.
Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
que não sofra um instante mais sem primavera,
à dor eu só vendi as minhas mãos,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre com teu perfume a luz do mês aberto,
fecha as portas com a tua cabeleira,
e em relação a mim não te esqueças que se acordo e choro
é porque em sonhos sou apenas uma criança perdida
que entre as folhas da noite procura as tuas mãos,
o contacto do trigo que tu me comunicas,
um arroubo cintilante de sombra e de energia.
Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
O teu olhar (Florbela Espanca - 1894-1930)
Quando fito o teu olhar,
duma tristeza fatal,
dum tão íntimo sonhar,
penso logo no luar
bendito de Portugal!
O mesmo tom de tristeza
o mesmo vago sonhar,
que me traz a alma presa
às festas da natureza
e à doce luz desse olhar!
Se algum dia, por meu mal,
a doce luz me faltar
desse teu olhar ideal,
não se esqueça Portugal
de dizer ao seu luar
que à noite, me vá depor
na campa em que eu dormitar,
essa tristeza, essa dor,
essa amargura, esse amor,
que eu lia no teu olhar!
duma tristeza fatal,
dum tão íntimo sonhar,
penso logo no luar
bendito de Portugal!
O mesmo tom de tristeza
o mesmo vago sonhar,
que me traz a alma presa
às festas da natureza
e à doce luz desse olhar!
Se algum dia, por meu mal,
a doce luz me faltar
desse teu olhar ideal,
não se esqueça Portugal
de dizer ao seu luar
que à noite, me vá depor
na campa em que eu dormitar,
essa tristeza, essa dor,
essa amargura, esse amor,
que eu lia no teu olhar!
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Laura (Guilherme de Santa Rita - 1859-1905)
Que estranho rir no lábio nacarado!
Que pérolas de luz no olhar lascivo!
Ressoa um beijo no teu colo altivo
por ti vendido bem e bem comprado!
E idealizei-te um ser imaculado!
O pedaço do céu, azul, estivo,
onde eu outrora quis estar cativo,
neste sonho de vida, atribulado!
Mas por que foi que assim no devaneio
banhei a fantasia adormecida,
se eu sei que vendes, a quem compra, um seio?
Talvez... lembrei-me, que uma vez na vida,
quando hauriste da afronta o cálix cheio,
tu choraste uma lágrima sentida!
* Quarto soneto do quarteto intitulado Laura.
Que pérolas de luz no olhar lascivo!
Ressoa um beijo no teu colo altivo
por ti vendido bem e bem comprado!
E idealizei-te um ser imaculado!
O pedaço do céu, azul, estivo,
onde eu outrora quis estar cativo,
neste sonho de vida, atribulado!
Mas por que foi que assim no devaneio
banhei a fantasia adormecida,
se eu sei que vendes, a quem compra, um seio?
Talvez... lembrei-me, que uma vez na vida,
quando hauriste da afronta o cálix cheio,
tu choraste uma lágrima sentida!
* Quarto soneto do quarteto intitulado Laura.
Meus olhos que por alguém (Antonio Boto - 1902-1959)
Meus olhos que por alguém
deram lágrimas sem fim
já não choram por ninguém
- basta que chorem por mim.
Arrependidos e olhando
a vida como ela é,
meus olhos vão conquistando
mais fadiga e menos fé.
Sempre cheios de amargura!
Mas se as coisas são assim,
chorar alguém - que loucura!
- Basta que eu chore por mim.
deram lágrimas sem fim
já não choram por ninguém
- basta que chorem por mim.
Arrependidos e olhando
a vida como ela é,
meus olhos vão conquistando
mais fadiga e menos fé.
Sempre cheios de amargura!
Mas se as coisas são assim,
chorar alguém - que loucura!
- Basta que eu chore por mim.
domingo, 2 de outubro de 2011
Formoso Tejo meu (Rodrigues Lobo - 1580-1622)
Formoso Tejo meu, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste:
turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu já, tu a mim contente.
A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste;
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente.
Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!
Mas lá virá a fresca primavera:
tu tornarás a ser quem era de antes,
eu não sei se serei quem de antes era.
* Soneto que também se atribui a Camões
te vejo e vi, me vês agora e viste:
turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu já, tu a mim contente.
A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste;
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente.
Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!
Mas lá virá a fresca primavera:
tu tornarás a ser quem era de antes,
eu não sei se serei quem de antes era.
* Soneto que também se atribui a Camões
sábado, 1 de outubro de 2011
Fosse eu apenas... (Fernando Pessoa - 1888-1935)
Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
uma coisa existente sem viver,
noite de vida sem amanhecer
entre as sirtes do meu dourado assomo...
Fada maliciosa ou incerto gnomo
fadado se houvesse de não pertencer
meu intuito gloríola com ter
a árvore do meu uso o único pomo...
Fosse eu uma metáfora somente
escrita nalgum livro insubsistente
de um poeta antigo, de alma em outras gamas,
mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
morrendo entre bandeiras desfraldadas
na última tarde de um império em chamas...
uma coisa existente sem viver,
noite de vida sem amanhecer
entre as sirtes do meu dourado assomo...
Fada maliciosa ou incerto gnomo
fadado se houvesse de não pertencer
meu intuito gloríola com ter
a árvore do meu uso o único pomo...
Fosse eu uma metáfora somente
escrita nalgum livro insubsistente
de um poeta antigo, de alma em outras gamas,
mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
morrendo entre bandeiras desfraldadas
na última tarde de um império em chamas...
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