Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.
Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.
Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
Rostos (Jules Supervielle - 1884-1960)
Baralho a contragosto
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito.
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo.
Baralho as outras cartas.
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais.
* Poema traduzido por Carlos Drummond de Andrade e constante do livro "Poesia Traduzida", editado pela Cosac Naify
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito.
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo.
Baralho as outras cartas.
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais.
* Poema traduzido por Carlos Drummond de Andrade e constante do livro "Poesia Traduzida", editado pela Cosac Naify
Livre arbítrio (Jairo Cézar - 1977)
Glória a Deus pelo mundo e suas mazelas,
Glória a Deus pelas desigualdades dos povos,
Glória a Deus pelo desfazer das quimeras,
Glória a Deus pela fartura dos porcos.
Glória a Deus pela fome que usurpa,
Glória a Deus pela escassez da esperança,
Glória a Deus pela doença sem cura,
Glória a Deus pelo mal que amansa.
Glória a Deus pelos amores infames,
Glória a Deus pelo sorriso da injustiça,
Glória a Deus pelos estupros infantes,
Glória a Deus pelo ódio que atiça.
Glória a Deus pelas misérias sem nome,
Glória a Deus pela ausência de Deus,
Que não habita a igreja dos homens.
Glória a Deus pelas desigualdades dos povos,
Glória a Deus pelo desfazer das quimeras,
Glória a Deus pela fartura dos porcos.
Glória a Deus pela fome que usurpa,
Glória a Deus pela escassez da esperança,
Glória a Deus pela doença sem cura,
Glória a Deus pelo mal que amansa.
Glória a Deus pelos amores infames,
Glória a Deus pelo sorriso da injustiça,
Glória a Deus pelos estupros infantes,
Glória a Deus pelo ódio que atiça.
Glória a Deus pelas misérias sem nome,
Glória a Deus pela ausência de Deus,
Que não habita a igreja dos homens.
sábado, 29 de outubro de 2011
Eu não escrevo versinhos para o papai (Maira Parula)
eu não escrevo versinhos para o papai
embora ele tenha me ensinado que a
boa poesia deve ser como as azeitonas de Taggia,
não pode ter caroço,
e que todo poeta só é bom se ficar assando
devo confessar que nisso eu concordo com papai
a poesia sempre teve um pé na cozinha
uma cadeira que range
uma couve-flor que se rompe
a xícara lascada de uma avó morta
o que papai não sabe ou nunca reparou
é que foi com mamãe que aprendi a cozinhar
no caminho entre a pia e a beira do fogão
eu aprendi tudo da vida
enquanto ele olhava melancólico para a janela
e a faca sobre a mesa
em vez de ajudar com as panelas
eu não escrevo versinhos para o papai
porque hoje sei o que devo queimar
o que devo congelar
o que devo servir frio
embora ele tenha me ensinado que a
boa poesia deve ser como as azeitonas de Taggia,
não pode ter caroço,
e que todo poeta só é bom se ficar assando
devo confessar que nisso eu concordo com papai
a poesia sempre teve um pé na cozinha
uma cadeira que range
uma couve-flor que se rompe
a xícara lascada de uma avó morta
o que papai não sabe ou nunca reparou
é que foi com mamãe que aprendi a cozinhar
no caminho entre a pia e a beira do fogão
eu aprendi tudo da vida
enquanto ele olhava melancólico para a janela
e a faca sobre a mesa
em vez de ajudar com as panelas
eu não escrevo versinhos para o papai
porque hoje sei o que devo queimar
o que devo congelar
o que devo servir frio
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Carta a meu filho (Erich Kästner - 1899 - 1974)
Afinal, eu quisera ter um filho
Forte e inteligente como essas crianças de hoje.
Só uma coisa me falta para esse menino.
Falta-lhe apenas a mãe.
Não é qualquer moça que serve para esse fim.
Há longos anos eu a estou procurando.
A felicidade é mais rara que os feriados,
E tua mãe nada sabe ainda de nós, meu filho.
Mas um belo dia começas a existir,
E já me alegro por isso.
Aprendes a correr, aprendes a viver,
E o que daí resulta chama-se: uma existência.
A princípio, apenas gritas e gesticulas,
Até passares a outros atos,
Até que teu corpo e teus olhos cresçam
E compreendas o que é preciso compreender.
Quem começa a compreender já não entende mais nada
E olha estarrecido para o teatro do mundo.
No começo, criança necessita muito de mãe.
Mas quando ficares maior, precisarás de teu pai.
Quero levar-te às minas de carvão.
Quero mostrar-te os parques com palácios de mármore.
Tu me fitarás, sem compreender.
Mas eu vou te esclarecer, criança, e me calarei.
Quero ir contigo a Vaux e Ypres
E lá olhar o mar de cruzes brancas.
Ficarei quieto, nada insinuando.
Mas quando chorares, meu filho, eu estarei de acordo.
Não quero te dizer como vão as coisas,
Quero te mostrar como a coisa é.
Pois a razão só pode vencer por si mesma.
Quero ser teu pai, e não um profeta.
Se entretanto fores um homem como a maioria,
Apesar de tudo que te fiz ver,
Um homem como qualquer outro, fabricado em série,
Então jamais serás o que deve ser: meu filho.
* Poema traduzido por Carlos Drummond de Andrade, cuja tradução consta da obra "Poesia Traduzida", editada em 2011 pela Cosac Naify
Forte e inteligente como essas crianças de hoje.
Só uma coisa me falta para esse menino.
Falta-lhe apenas a mãe.
Não é qualquer moça que serve para esse fim.
Há longos anos eu a estou procurando.
A felicidade é mais rara que os feriados,
E tua mãe nada sabe ainda de nós, meu filho.
Mas um belo dia começas a existir,
E já me alegro por isso.
Aprendes a correr, aprendes a viver,
E o que daí resulta chama-se: uma existência.
A princípio, apenas gritas e gesticulas,
Até passares a outros atos,
Até que teu corpo e teus olhos cresçam
E compreendas o que é preciso compreender.
Quem começa a compreender já não entende mais nada
E olha estarrecido para o teatro do mundo.
No começo, criança necessita muito de mãe.
Mas quando ficares maior, precisarás de teu pai.
Quero levar-te às minas de carvão.
Quero mostrar-te os parques com palácios de mármore.
Tu me fitarás, sem compreender.
Mas eu vou te esclarecer, criança, e me calarei.
Quero ir contigo a Vaux e Ypres
E lá olhar o mar de cruzes brancas.
Ficarei quieto, nada insinuando.
Mas quando chorares, meu filho, eu estarei de acordo.
Não quero te dizer como vão as coisas,
Quero te mostrar como a coisa é.
Pois a razão só pode vencer por si mesma.
Quero ser teu pai, e não um profeta.
Se entretanto fores um homem como a maioria,
Apesar de tudo que te fiz ver,
Um homem como qualquer outro, fabricado em série,
Então jamais serás o que deve ser: meu filho.
* Poema traduzido por Carlos Drummond de Andrade, cuja tradução consta da obra "Poesia Traduzida", editada em 2011 pela Cosac Naify
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Oração do gato (Carmen Bernos de Gasztold - 1919)
Senhor,
eu sou o Gato.
Não, precisamente,
que tenha alguma coisa a lhe pedir.
Não peço nada a ninguém.
Mas se por acaso o Senhor tivesse
aí nos celeiros do Paraíso
um ratinho branco
ou um pires de leite...
Sei de alguém que aprecia essas coisas.
O senhor vai amaldiçoar, um dia,
a raça canina?
Ah, nesse caso, eu diria:
Amém.
* Poema traduzido por Carlos Drummond de Andrade, cuja tradução consta da obra "Poesia Traduzida", editada em 2011 pela Cosac Naify
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
O gato e o passarinho (Jacques Prévert - 1900-1977)
A aldeia escuta desolada
o canto da ave maltratada.
É o único pássaro da aldeia
e foi o único gato da aldeia
que o devorou pela metade.
A ave deixa de cantar,
o gato deixa de roncar
e de lamber o próprio focinho.
A aldeia faz ao passarinho
maravilhosos funerais,
e o gato, que foi convidado,
segue o caixãozinho de palha
onde o pássaro se amortalha,
conduzido por uma menina
que não para nunca de chorar.
- Se soubesse que isso te faria sofrer tanto,
diz-lhe o bichano,
eu o teria comido todo
e te contaria, depois,
que ele havia batido asas,
batido asas para o fim do mundo,
para um mundo tão longe
que ninguém nunca voltou de lá.
Tu sofrerias muito menos,
só um pouquinho de tristeza
e outro pouquinho de saudade.
Nunca devemos fazer
as coisas pela metade.
* Tradução do poema por Carlos Drummond de Andrade, constante do livro "Poesia Traduzida", editora Cosac Naify, ano de publicação 2011
o canto da ave maltratada.
É o único pássaro da aldeia
e foi o único gato da aldeia
que o devorou pela metade.
A ave deixa de cantar,
o gato deixa de roncar
e de lamber o próprio focinho.
A aldeia faz ao passarinho
maravilhosos funerais,
e o gato, que foi convidado,
segue o caixãozinho de palha
onde o pássaro se amortalha,
conduzido por uma menina
que não para nunca de chorar.
- Se soubesse que isso te faria sofrer tanto,
diz-lhe o bichano,
eu o teria comido todo
e te contaria, depois,
que ele havia batido asas,
batido asas para o fim do mundo,
para um mundo tão longe
que ninguém nunca voltou de lá.
Tu sofrerias muito menos,
só um pouquinho de tristeza
e outro pouquinho de saudade.
Nunca devemos fazer
as coisas pela metade.
* Tradução do poema por Carlos Drummond de Andrade, constante do livro "Poesia Traduzida", editora Cosac Naify, ano de publicação 2011
Assinar:
Postagens (Atom)
