segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tu que me deste o teu cuidado... (Manuel Bandeira - 1886-1968)

Tu que me deste o teu carinho
E que me deste o teu cuidado,
Acolhe ao peito, como o ninho
Acolhe o pássaro cansado,
O meu desejo incontentado.

Há longos anos ele arqueja
Em aflita escuridão.
Sê compassiva e benfazeja.
Dá-lhe o melhor que ele deseja:
- Teu grave e meigo coração.

Sê compassiva. Se algum dia
Te vier do pobre agravo e mágoa,
Atende à sua dor sombria:
Perdoa o mau que desvaria
E traz os olhos rasos de água.

Não te retires ofendida.
Pensa que nesse grito vem
O mal de toda a minha vida:
Ternura inquieta e malferida
Que, antes, não dei nunca a ninguém.

E foi melhor nunca ter dado:
Em ti pungindo algum espinho,
Cinge-se ao teu seio angustiado.
E sentirás o meu carinho.
E sentirás o meu cuidado.

domingo, 6 de novembro de 2011

A máquina de escrever (Maíra Ramos)

        
          Pois eu inventei de querer uma máquina de escrever... E qual não foi minha surpresa ao saber que esse tipo de equipamento não mais existe à venda no mercado de consumo. Fui a uma loja de artigos para escritório e a vendedora, assustada, disse não saber o que era uma máquina de escrever. Perguntou-me se servia máquina de calcular de mesa, pois essa eles tinham, aos montes, para vender.
          Tive que me socorrer, então, de um site da internet, onde se acha de quase tudo para comprar, desde mini-garrafinhas antigas de coca-cola a calotas de opala dos anos 85 a 86.
          E lá estavam elas: máquinas de escrever de todas as cores, tipos e preços. Algumas impossibilitadas ao uso, com teclas emperradas, fita muito gasta, muitas que serviriam apenas como objeto de decoração, o que fazia com que o preço fosse bem baixo.
          Selecionei algumas, dentre as opções disponíveis, dando mais atenção àquelas cujo anúncio dizia estarem em perfeito estado e em funcionamento. Eis que achei uma que muito me agradou: verdinha, pequena, portátil, com peso de quase três quilos... Uma beleza! Fechei negócio!
         A máquina não demorou muito para chegar em minha casa, vinda através de encomenda pelos correios. Lembro-me da minha alegria ao me deparar com o embrulho. Já sabia que era a minha máquina que tinha chegado e estava ali, em minhas mãos. Fui, então, feliz da vida, abrir o pacote...
          A máquina estava ali, em minha frente, perfeitinha mesmo, como não havia mentido o anúncio. A fita é que estava um pouco gasta, mas nada que uma fita nova não resolvesse. 
        Então, voltei a minha peregrinação às papelarias e lojas do tipo e qual não foi a minha surpresa ao perceber que era muito mais difícil encontrar a fita para a máquina de escrever do que a própria máquina de escrever.  Hoje, tenho a máquina e realizei um antigo sonho de criança, no entanto não consigo usá-la. A vida tem dessas coisas, vá entender!

sábado, 5 de novembro de 2011

Anatomia (Felipe Fortuna - 1963)

Um poema é uma guerra: nele e nela
se desintegram a palavra e a vida
e o que resta é perda que ressuscita:

ler um poema de certo modo o mata,
pois morre o que não se pensou ao ler,
embora a leitura aos poucos esclareça

o que se pensou jamais se fosse ler.
Poema é duelo plural e infinito:
é, acrobática, sobre o papel a escrita

ao mesmo tempo enigma, estigma, ígnea.
Ler o poema, mas não resolvê-lo:
isso acontece há muito tempo,

e somos nós que estamos lá dentro.
O poema nos faz e desfaz, a guerra também,
e é com palavra e arma que sabemos

o quanto nos resta de sonho e de renascimento.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A invenção do dia (Valberto Cardoso)

Desconheço aquela paisagem
Que cobria os meus olhos, os meus pés, os meus dedos,
Sirenes do dia

Desconheço o brejo e suas fábricas
As crianças que brincavam comigo,
Que atravessavam a história do beijo

Não desejei perseguir as ruas por onde construí estes descaminhos
Onde ficou o nosso hóspede no momento em que o porão se desfazia
Emparedado à sombra da renúncia?

Assim foi a casa, a cozinha, o quintal
E a fração do almoço,
Como proclamar o diário da boca
E assim a obrigação de dobrar lençóis...
O sol - maior que os quartos - e a terra nos vestiam de intervalos

Entre os inventários, a ruína
O rito das traças, a melodia devorada
Fora da sala o incompleto palácio

E a oração da tarde
A percorrer a ingênua cidade

O anúncio da hora prévia
E exata da verdade

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O ator (Eucanaã Ferraz - 1961)

Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Com os mortos (Antero de Quental - 1842-1891)


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Consolo na praia (Carlos Drummond de Andrade - 1902-1987)

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
 
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
 
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.