domingo, 8 de janeiro de 2012

Papel (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1987)


E tudo que eu pensei
e tudo que eu falei
e tudo que me contaram
era papel.

E tudo que descobri
amei
detestei:
papel.

Papel quanto havia em mim
e nos outros, papel
de jornal
de parede
de embrulho
papel de papel
papelão.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Questões III (Alice Ruiz - 1946)

Se a preguiça é pecado,
o que Deus estará fazendo agora?
 Em que se ocupa aquele que tudo pode?
Terá restado algo por fazer
depois que o mundo foi criado?

Se o desejo é fraqueza,
Deus nunca deseja?
Mas se é verdade que nos criou,
algo nele desejou.

Se a vaidade é um erro,
por que nos fez
À sua imagem e semelhança?
Ou terá sido o contrário?

Por que criar alguém
capaz de duvidar da criação?
Por que nós e ele não?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O telefone e a metafísica (Eucanaã Ferraz - 1961)

 
Acontece que
vais à caderneta de telefones e ela
que antes (sabias) estava cheia
de números e nomes
repentinamente está vazia

De A a Z
vazia.

Onde tudo e todos?
Roubaram os ossos do telefone,
que não te pode levar a lugar nenhum.

Perplexo, descobres que existir
é deserto.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Não sabes (Castro Alves - 1847 - 1871)

Quando alta noite n'amplidão flutua
Pálida a lua com fatal palor,
Não sabes, virgem, que eu por ti suspiro
E que deliro a suspirar de amor.

Quando no leito entre sutis cortinas
Tu te reclinas indolente aí,
Ai! Tu não sabes que sozinho e triste
Um ser existe que só pensa em ti.

Lírio, dest'alma, sensitiva bela,
És minha estrela, meu viver, meu Deus.
Se olhas - me rio, se sorris - me inspiro,
Choras - deliro por martírios teus.

E tu não sabes deste meu segredo
Ah! tenho medo do teu rir cruel!...
Pois se o desprezo fosse a minha sorte
Bebera a morte neste amargo fel.

Mas dá-me a esp'rança num olhar quebrado,
Num ai magoado, num sorrir do céu,
Ver-me-ás dizer-te na febril vertigem
"Não sabes, virgem? Meu futuro é teu"!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

4º motivo da rosa (Cecília Meireles - 1901 - 1964)


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Obsessão de Diana (Cecília Meireles - 1901 - 1964)

A Raquel Bastos

Diana, teu passo esteve
em onda, em nuvem, na água
- e foi lúcido e leve.

Tão rápido e tão belo
que era espanto senti-lo
e impossível prendê-lo.

Memória e sonho, agora,
- a existência visível
da veloz caçadora!

Bastaria querer-te
pelas estrelas nadas
de teu vestígio inerte.

Mas ah! quem descrevera
tuas mãos e teus olhos!
E teu rumo qual era!...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Dolências (Augusto dos Anjos)

Eu fui cadáver, antes de viver!
Meu corpo, assim como o de Jesus Cristo,
Sofreu o que olhos de homem não têm visto
E olhos de fera não puderam ver!

Acostumei-me, assim, pois, a sofrer
E acostumado a assim sofrer existo…
Existo! – E apesar disto, apesar disto
Inda cadáver hei também de ser!

Quando eu morrer de novo, amigos, quando
Eu, de saudades me despedaçando
De novo, triste e sem cantar, morrer,

Nada se altere em sua marcha infinda
- O tamarindo reverdeça ainda,
A lua continue sempre a nascer!