quinta-feira, 31 de maio de 2012

Lição (Ivan Junqueira - 1934)

A Marco Aurélio Mello Reis

À beira do claustro
o monge se inclina
e na pedra aprende
o que a pedra ensina:
que a vida é nada
com a morte por cima,
que o tempo apenas
este fim lhe adia
e que o ser carece
de não ser ainda,
pois à luz se esquiva
do que o purifica:
a doce pedra,
sem musgo ou limo,
o pátio só,
conquanto o sino,
o ermo das coisas
simples e humildes.

O soldador de palavras (Majela Colares - 1964)

fazer poemas é soldar palavras
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama
aceso verso, pesado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema
fuga do verbo não mais definido

criado o texto, com idéia e tinta
forma e figura em linguagem extinta
quebrando regras de comuns fonemas

a idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece
a tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas... por fim, poemas

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Cemitério do Araçá (Augusto Massi - 1959)


Quando ainda era menino,
voltava calado para casa,
interrogava teu muro alto.
Eras o melhor vizinho.

Habituado a jogar futebol
na sinuosa rua dos fundos,
estranhava que as bolas
não voltassem do teu mundo.

Você resistiu ao cerco
da cidade que cresceu
(eu também cresci)
sempre à tua volta.

Repisando nosso passado,
hoje, finalmente, te visito.
Busco meu pai enterrado
dentro do teu labirinto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Estados de ânimo (Mario Benedetti - 1920 - 2009)

Uma vez me sinto
como pobre colina
e outras como montanha
de cumes repetidos

umas vezes me sinto
como um precipício
e em outras como um céu
azul mas distante

Às vezes a gente é
manancial entre rochas
e outras vezes árvore
com as últimas folhas

mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações

uma lagoa verde
imóvel e paciente
de bem com suas algas
seus musgos e seus peixes

sereno em minha confiança
confiante em que uma tarde
te aproximes e te olhes
te olhes ao olhar-me.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Medo (Elisa Lucinda - 1958)

Um finíssimo fio esticado sobre um abismo
Onde haveremos de bailar
Enquanto isso fui pegando seus olhos de antigo varão
E espalhando pelo meu corpo
Como se fosse o sol
Como quem acha um não
Os dias se repetem luxuosos
Reverberados no vídeo de nós dois:
Pernas, gosto, dedos e calor.
A turbulência do mundo e dos compromissos
Pensa que não vai deixar a gente se querer direito
Eu rio.
Depois choro por dentro
Como quem precisa de antemão
arranjar um senão
descolar um lugar
no saguão do meu espaço
no palácio do meu coração
Para você ficar, quando precisar ser
só memória, ausência, obsessão.

A morta viva (Murilo Mendes - 1901 - 1975)

Maria do Rosário estendida no caixão
Toda vestida de branco aos vinte anos
Está cercada de angélicas e de moscas.
Seu rosto é inviolavelmente puro e simples.
Telefonam telefonam telefonam.

Inclino-me sem chorar sobre seu corpo.
Só agora lhe digo a palavra de ternura
Que ela nunca pode conseguir de mim,
A palavra que talvez justificasse uma vida,
A palavra que eu nunca tive a força de dizer.

Só agora sei que a amo, de um amor definitivo.
Só agora me descobri seu companheiro para sempre.
A eternidade irrompeu no tempo, violentíssima.

domingo, 27 de maio de 2012

Perde e ganha (Ferreira Gullar - 1930)

Vida tenho uma só
          que se gasta com a sola de meu sapato
          a cada passo pelas ruas
          e não dá meia-sola.

Perdi-a já
em parte
num pôquer solitário,
mas a ganhei de novo
para um jogo comum.

E neste jogo a jogo
inteira, a cada lance,
que a vida ou se perde ou se ganha com os demais
e assim se vive
que o mais é pura perda