como se o vento trouxesse
recados
que pudesse abandonar
ao serviço do mensageiro
como se o vento te pudesse
levar e as palavras transformar
no milagre da cerejeira
não descuides o vento
que quem uiva
é lobo faminto
rodeia-te antes do essencial
faz-te cozinheira, semeia o teu quintal
o que por natureza rola
há-de rolar
e tu sozinha
o que podes contra o vento?
sexta-feira, 6 de julho de 2012
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Adiós (Antonio Gamoneda - 1931)
Ésta es la tierra, donde el sufrimiento
es la medida de los hombres. Dan
pena los condes con su fiel faisán
y los cobardes con su fiel lamento.
La belleza nos sierve de tormento
y la injusticia nos concede el pan.
Un día brindaréis por los que habrán
convertido el dolor en fundamento.
Los que vivimos para dar alcance
a tan imensa luz que hoy no podría
un dios mirarla sin quedarse ciego,
aún tendremos que agotar el lance:
arojar al silencio la agonía
como quien tira el corazón al fuego.
es la medida de los hombres. Dan
pena los condes con su fiel faisán
y los cobardes con su fiel lamento.
La belleza nos sierve de tormento
y la injusticia nos concede el pan.
Un día brindaréis por los que habrán
convertido el dolor en fundamento.
Los que vivimos para dar alcance
a tan imensa luz que hoy no podría
un dios mirarla sin quedarse ciego,
aún tendremos que agotar el lance:
arojar al silencio la agonía
como quien tira el corazón al fuego.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Não te rendas jamais (Eduardo Alves da Costa - 1936)
Procura acrescentar um côvado
à tua altura. Que o mundo está
à míngua de valores
e um homem de estatura justifica
a existência de um milhão de pigmeus
a navegar na rota previsível
entre a impostura e a mesquinhez
dos filisteus. Ergue-te desse oceano
que dócil se derrama sobre a areia
e busca as profundezas, o tumulto
do sangue a irromper na veia
contra os diques do cinismo
e os rochedos de torpezas
que as nações se antepõem a seus rebeldes.
Não te rendas jamais, nunca te entregues,
foge das redes, expande teu destino.
E caso fiques tão só que nem mesmo um cão
venha te lamber a mão,
atira-te contra as escarpas
de tua angústia e explode
em grito, em raiva, em pranto.
Porque desse teu gesto
há de nascer o Espanto.
à tua altura. Que o mundo está
à míngua de valores
e um homem de estatura justifica
a existência de um milhão de pigmeus
a navegar na rota previsível
entre a impostura e a mesquinhez
dos filisteus. Ergue-te desse oceano
que dócil se derrama sobre a areia
e busca as profundezas, o tumulto
do sangue a irromper na veia
contra os diques do cinismo
e os rochedos de torpezas
que as nações se antepõem a seus rebeldes.
Não te rendas jamais, nunca te entregues,
foge das redes, expande teu destino.
E caso fiques tão só que nem mesmo um cão
venha te lamber a mão,
atira-te contra as escarpas
de tua angústia e explode
em grito, em raiva, em pranto.
Porque desse teu gesto
há de nascer o Espanto.
terça-feira, 3 de julho de 2012
Algo maior do que tu mesmo (Eduardo Alves da Costa - 1936)
Em teu coração aferrolhado
fervem mil desejos;
são eles que te levam
a cada novo dia, sempre adiante,
sempre, embora não saibas para onde
te arrasta o teu destino.
Enlouquecido, corres, avassalado por teus anseios,
sem que a pressão diminua
em teu coração prestes a explodir.
Mas dentro de ti algo te diz
que é preciso serenar o espírito,
antes que o homem-máquina se precipite
no abismo. Só então, quando mais nada desejares,
e teu coração, vazio, for abandonado
ao seu próprio ritmo,
entrarás no Reino dos Céus.
Não pelo que um dia sonhaste possuir
mas por algo maior do que tu mesmo
e que ainda desconheces.
fervem mil desejos;
são eles que te levam
a cada novo dia, sempre adiante,
sempre, embora não saibas para onde
te arrasta o teu destino.
Enlouquecido, corres, avassalado por teus anseios,
sem que a pressão diminua
em teu coração prestes a explodir.
Mas dentro de ti algo te diz
que é preciso serenar o espírito,
antes que o homem-máquina se precipite
no abismo. Só então, quando mais nada desejares,
e teu coração, vazio, for abandonado
ao seu próprio ritmo,
entrarás no Reino dos Céus.
Não pelo que um dia sonhaste possuir
mas por algo maior do que tu mesmo
e que ainda desconheces.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Canção do exílio (José Paulo Paes - 1926 - 1998)
Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.
Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.
Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.
Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.
Fechei a porta da rua
a chave joguei ao mar.
Andei tanto nesta rua
que já não sei mais voltar.
sem olhar sobre o meu ombro.
Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.
Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.
Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.
Fechei a porta da rua
a chave joguei ao mar.
Andei tanto nesta rua
que já não sei mais voltar.
Poética (José Paulo Paes - 1926 - 1998)
Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.
domingo, 1 de julho de 2012
Quem de meus versos a lição procura (Correia Garção - 1724 - 1772)
Quem de meus versos a lição procura,
os farpões nunca viu de amor insano,
nem sabe quanto custa um vil engano
traçado pela mão da formosura.
Se o peito não tiver de rocha dura,
fuja de ouvir contra tamanho dano,
que a desabrida voz do desengano,
o mais firme semblante desfigura.
Olhe, que há de chorar, vendo patente
em tão funesta, e lagrimosa cena
o cadafalso infame, e sanguinoso.
Verá levado à morte um inocente:
e condenado à vergonhosa pena
o mais fiel amor, mais generoso.
os farpões nunca viu de amor insano,
nem sabe quanto custa um vil engano
traçado pela mão da formosura.
Se o peito não tiver de rocha dura,
fuja de ouvir contra tamanho dano,
que a desabrida voz do desengano,
o mais firme semblante desfigura.
Olhe, que há de chorar, vendo patente
em tão funesta, e lagrimosa cena
o cadafalso infame, e sanguinoso.
Verá levado à morte um inocente:
e condenado à vergonhosa pena
o mais fiel amor, mais generoso.
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