Para José Paulo Paes
A roda de amigos
sacudida por uma
rajada de risos.
Me concentro num
homem tímido que
sorri por dentro.
Deslocado na roda
rapidamente corta
o riso pela raiz.
Mas o riso retorna.
Coceira furiosa nos
orifícios do nariz.
Bebe graça no gargalo
rola rala racha o bico
ri até ficar sem graça.
A rodada de amigos
explode às gargalhadas:
o tímido é sua cachaça.
domingo, 5 de agosto de 2012
A Florbela Espanca (Alexei Bueno - 1963)
Amada, por que eu tive a tua voz
Depois que o Nada teve a tua boca?
A lua, em sua palidez de louca,
Brilha igual sobre mim, e sobre nós!...
Porém como estás longe, como o algoz
De um só golpe sem fim — a Morte — apouca
Os gritos dos que esperam, a ânsia rouca
Dos que atrás têm seu sonho, os grandes sós!
Aqui não brilha o mundo que engendraste
Como o manto de um deus, e astros sangrentos
Não nos rolam nas mãos da imensa haste.
E só estes olhos meus, que nunca viste,
Se incendeiam, vitrais na noite atentos,
Voltados para o chão aonde fugiste!
Depois que o Nada teve a tua boca?
A lua, em sua palidez de louca,
Brilha igual sobre mim, e sobre nós!...
Porém como estás longe, como o algoz
De um só golpe sem fim — a Morte — apouca
Os gritos dos que esperam, a ânsia rouca
Dos que atrás têm seu sonho, os grandes sós!
Aqui não brilha o mundo que engendraste
Como o manto de um deus, e astros sangrentos
Não nos rolam nas mãos da imensa haste.
E só estes olhos meus, que nunca viste,
Se incendeiam, vitrais na noite atentos,
Voltados para o chão aonde fugiste!
sábado, 4 de agosto de 2012
O sol não me espera (José Geraldo Neres - 1966)
um cão ilumina a si mesmo
dentro da pele da morte
sua boca um rio de lençóis
o mistério desliza pela noite
um cego vigia a porta
a quem ele estende a mão?
como ajudá-lo a atravessar a porta?
nasce com um naufrágio atrás das orelhas
e seus olhos não possuem memória
não há claridade no caminho
apenas o cão com seus olhos de barro
dentro da pele da morte
sua boca um rio de lençóis
o mistério desliza pela noite
um cego vigia a porta
a quem ele estende a mão?
como ajudá-lo a atravessar a porta?
nasce com um naufrágio atrás das orelhas
e seus olhos não possuem memória
não há claridade no caminho
apenas o cão com seus olhos de barro
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Um jeito (Adélia Prado - 1935)
Meu amor é assim, sem nenhum pudor.
Quando aperta eu grito da janela
- ouve quem estiver passando -
ô fulano, vem depressa.
Tem urgência, medo de encanto quebrado,
é duro como osso duro.
Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:
quero é dormir com você, alisar seu cabelo,
espremer de suas costas as montanhas pequenininhas
de matéria branca. Por hora dou é grito e susto.
Pouca gente gosta
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Enquanto descansa, dorme... (Eucanaã Ferraz - 1961)
Enquanto descansa, dorme,
a mulher que amo, que me ama,
sigo neste exercício da ternura exata
e comum:
cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,
e, assim, em volta da mulher que amo,
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum.
a mulher que amo, que me ama,
sigo neste exercício da ternura exata
e comum:
cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,
e, assim, em volta da mulher que amo,
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum.
Os irmãos (Eucanaã Ferraz - 1961)
Felicidade, era o que era.
Após uns poucos dias fora
de casa, retornar e correr
em direção ao ipê, abraçá-lo
como se abraça um amigo
alto e áspero, um avô.
E era como se ramos e flores
os reconhecessem, eu imagino,
e sabe-se lá o que pensavam
àquele instante os dois meninos,
ou se não pensavam nada
e sentissem apenas a pele rude
daquele carinho imóvel. Montanhas
moviam-se lentamente na luz,
lagartos iam e vinham rápidos
como raios. Era mais certo
que os dois meninos não pensavam
coisa alguma, embora àquela hora
fechassem os olhos como quem pensa.
Ou por isso mesmo não pensavam,
porque fechavam os olhos como quem
apenas descansa. Além disso,
eram crianças, e ainda mais inconscientes
quando abriam os olhos para o alto
e viam
a copa derramar-se convexa
em milhões de júbilos, vozerio
de lâminas, estrelas e dragões.
A árvore enlaçada, nem percebiam
que seus pés
esmagavam os morangos selvagens
que se estendiam rasteiros, miúdos
em torno do imperador amarelo.
E gritavam, e riam, selvagens
eles também, selvagens o cheiro,
a sombra, a alegria,
o sol
muito azul de Friburgo.
Após uns poucos dias fora
de casa, retornar e correr
em direção ao ipê, abraçá-lo
como se abraça um amigo
alto e áspero, um avô.
E era como se ramos e flores
os reconhecessem, eu imagino,
e sabe-se lá o que pensavam
àquele instante os dois meninos,
ou se não pensavam nada
e sentissem apenas a pele rude
daquele carinho imóvel. Montanhas
moviam-se lentamente na luz,
lagartos iam e vinham rápidos
como raios. Era mais certo
que os dois meninos não pensavam
coisa alguma, embora àquela hora
fechassem os olhos como quem pensa.
Ou por isso mesmo não pensavam,
porque fechavam os olhos como quem
apenas descansa. Além disso,
eram crianças, e ainda mais inconscientes
quando abriam os olhos para o alto
e viam
a copa derramar-se convexa
em milhões de júbilos, vozerio
de lâminas, estrelas e dragões.
A árvore enlaçada, nem percebiam
que seus pés
esmagavam os morangos selvagens
que se estendiam rasteiros, miúdos
em torno do imperador amarelo.
E gritavam, e riam, selvagens
eles também, selvagens o cheiro,
a sombra, a alegria,
o sol
muito azul de Friburgo.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Perguntas (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1987)
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que à navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
desse repensamento:
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No vôo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar depois de perder.
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que à navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
desse repensamento:
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No vôo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar depois de perder.
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