A vida que não tive
morre em mim até hoje.
Chega, límpida, pura,
sorri, pálida, foge.
A vida que não tive
salta, viva, de tudo.
Se me sorri nos olhos,
com que ilusão me iludo.
A vida que não tive
é o que há de mim em mim,
chama, orvalho, segredo
do nunca de onde vim.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Nostalgia (Elizabeth Caldeira Brito)
Saudade,
já não cabe em si.
Evola nos poros.
No sombrio olhar
se deixa ficar.
No soluço da alma
plangia ausência.
Não disfarça a efígie:
fantasma de um
que o outro não tem.
Saudade,
camufla alegria,
contagia tristeza,
suprime euforia.
De quem outrora,
por não ser assim
era tão infeliz!
já não cabe em si.
Evola nos poros.
No sombrio olhar
se deixa ficar.
No soluço da alma
plangia ausência.
Não disfarça a efígie:
fantasma de um
que o outro não tem.
Saudade,
camufla alegria,
contagia tristeza,
suprime euforia.
De quem outrora,
por não ser assim
era tão infeliz!
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Experiência (Elizabeth Caldeira Brito)
O canto de um ser plural,
guardará indelével,
os amanhãs que chegam,
à sombra daqueles
estagnados,
no avesso das horas.
Cravada na geografia dos rios
da correnteza do sangue,
nos fios de memória
que guardam o lume
das claras manhãs.
A vida celebra.
E ao inexistir
a cal desses dias,
haverá de estar
para além do fim,
a experiência.
guardará indelével,
os amanhãs que chegam,
à sombra daqueles
estagnados,
no avesso das horas.
Cravada na geografia dos rios
da correnteza do sangue,
nos fios de memória
que guardam o lume
das claras manhãs.
A vida celebra.
E ao inexistir
a cal desses dias,
haverá de estar
para além do fim,
a experiência.
Presente (Antonio Cícero - 1945)
Por que não me deitar sobre este
gramado, se o consente o tempo,
e há um cheiro de flores e verde
e um céu azul por firmamento
e a brisa displicentemente
acaricia-me os cabelos?
E por que não, por um momento,
nem me lembrar que há sofrimento
de um lado e de outro e atrás e à frente
e, ouvindo os pássaros ao vento
sem mais nem menos, de repente,
antes que a idade breve leve
cabelos sonhos devaneios,
dar a mim mesmo este presente?
gramado, se o consente o tempo,
e há um cheiro de flores e verde
e um céu azul por firmamento
e a brisa displicentemente
acaricia-me os cabelos?
E por que não, por um momento,
nem me lembrar que há sofrimento
de um lado e de outro e atrás e à frente
e, ouvindo os pássaros ao vento
sem mais nem menos, de repente,
antes que a idade breve leve
cabelos sonhos devaneios,
dar a mim mesmo este presente?
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
A canção da felicidade (Onestaldo de Pennafort - 1902 - 1987)
Não foste para mim, Felicidade!
O sorriso que levas a outras bocas
e que as enche das ilusões mais loucas,
vem a mim sob a forma de saudade.
Saudade do que nunca tive, da ventura
que todos conseguiram, menos eu.
Saudade de uma estranha criatura
que devia ser minha e já morreu.
Nunca pensei que a vida fosse assim,
Tão vazia, tão áspera e tão triste!
Será verdade que o prazer existe?
Felicidade, não tens nada para mim?
Será possível que na tua taça
nem ao menos reste um pouco desse vinho
que dás aos outros a beber, pelo caminho
onde minh’alma, quase morta, passa?
Ai, vinho que embriagas mais que tudo!
Ai, lábios de mulher que eu não beije!
Mãos amorosas, mãos macias de veludo
que me espancaram quando desejei!
Felicidade! Sonho azul da mocidade!
Ânfora cheia do perfume de mil bocas,
perfume cheio de carícias loucas,
eu só conheço a tua irmã Saudade.
Não foste feita para mim, Felicidade!
O sorriso que levas a outras bocas
e que as enche das ilusões mais loucas,
vem a mim sob a forma de saudade.
Saudade do que nunca tive, da ventura
que todos conseguiram, menos eu.
Saudade de uma estranha criatura
que devia ser minha e já morreu.
Nunca pensei que a vida fosse assim,
Tão vazia, tão áspera e tão triste!
Será verdade que o prazer existe?
Felicidade, não tens nada para mim?
Será possível que na tua taça
nem ao menos reste um pouco desse vinho
que dás aos outros a beber, pelo caminho
onde minh’alma, quase morta, passa?
Ai, vinho que embriagas mais que tudo!
Ai, lábios de mulher que eu não beije!
Mãos amorosas, mãos macias de veludo
que me espancaram quando desejei!
Felicidade! Sonho azul da mocidade!
Ânfora cheia do perfume de mil bocas,
perfume cheio de carícias loucas,
eu só conheço a tua irmã Saudade.
Não foste feita para mim, Felicidade!
domingo, 2 de setembro de 2012
cortejo noturno (Josely Vianna Baptista - 1957)
trouxe na lua crescente
uma canastra de peixes
(as guelras membranas baças
de romãs despedaçadas)
nos lampejos da minguante
um puçá de caranguejos:
tanino do mangue-bravo
fez o azul das carapaças
das fasquias de taquara
fisgou argolas de palha;
as plumas de maguari
transbordando das cabaças
no cesto da lua nova
frutos roxos de figueira,
gavelas, paveias, feixes
para o leito sobre a areia
uma canastra de peixes
(as guelras membranas baças
de romãs despedaçadas)
nos lampejos da minguante
um puçá de caranguejos:
tanino do mangue-bravo
fez o azul das carapaças
das fasquias de taquara
fisgou argolas de palha;
as plumas de maguari
transbordando das cabaças
no cesto da lua nova
frutos roxos de figueira,
gavelas, paveias, feixes
para o leito sobre a areia
sábado, 1 de setembro de 2012
Termo de responsabilidade (José Paulo Paes - 1926 - 1998)
mais nada
a dizer: só o vício
de roer os ossos
do ofício
já nenhum estandarte
à mão
enfim a tripa feita
coração
silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!
a dizer: só o vício
de roer os ossos
do ofício
já nenhum estandarte
à mão
enfim a tripa feita
coração
silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!
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