cada vez mais distante
de si próprio
e suprimir-se até
a idéia da distância
de que se deduz
sim
detalhes ciclópicos
obstruem
a figuração
das imagens e
a saída para o silêncio
assim
esta disposição
dos extremos
conforma-se
com o empenho
do seu desenredo
domingo, 30 de setembro de 2012
sábado, 29 de setembro de 2012
Ausência (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1987)
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Happy-hour (Heitor Ferraz Mello - 1964)
É daqui que eu falo
de nenhum outro lugar
- da luz de mercúrio,
do vidro fumê, do abajur
aceso no prédio em frente
e que se torna tão nítido
que quase se isola
dentro da janela
É daqui
apesar de eu mesmo
sentir que me falto
e me falto tanto
que nem sei se sou eu
ou a saudade que não consola
É daqui,
onde pertenço,
entre um bloqueio e outro
de fora e de dentro
É deste lugar,
quando a tarde baixa
entre as coisas
replicadas
de nenhum outro lugar
- da luz de mercúrio,
do vidro fumê, do abajur
aceso no prédio em frente
e que se torna tão nítido
que quase se isola
dentro da janela
É daqui
apesar de eu mesmo
sentir que me falto
e me falto tanto
que nem sei se sou eu
ou a saudade que não consola
É daqui,
onde pertenço,
entre um bloqueio e outro
de fora e de dentro
É deste lugar,
quando a tarde baixa
entre as coisas
replicadas
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Resignação (Alberto Bresciani - 1961)
Aqui te vejo passar
e te chamo
Daqui (apesar do ridículo)
te jogo esses ramos
e por vezes aceito
algum que devolva
É o país onde espero
as palavras
a remissão do tempo
(já tentei sair)
Se eu rio
durante o naufrágio?
Era só por dizer
Desculpe
Hoje não ia chorar.
e te chamo
Daqui (apesar do ridículo)
te jogo esses ramos
e por vezes aceito
algum que devolva
É o país onde espero
as palavras
a remissão do tempo
(já tentei sair)
Se eu rio
durante o naufrágio?
Era só por dizer
Desculpe
Hoje não ia chorar.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Cantiga de embalo (Thiago de Mello - 1926)
Estás vendo aquela estrela
como está te olhando tanto?
Ela quer falar contigo,
Estrela sabe o que diz,
só fala quando é preciso
dar um recado, um aviso.
Te lembras? Foi uma estrela
que aos reis magos ensinou
o lugar onde o Menino
dormia na manjedoura.
Olha o jeito da luz dela.
Talvez queira te chamar
para a graça da ternura,
desperdiçada fundura
perdida da tua vida.
como está te olhando tanto?
Ela quer falar contigo,
Estrela sabe o que diz,
só fala quando é preciso
dar um recado, um aviso.
Te lembras? Foi uma estrela
que aos reis magos ensinou
o lugar onde o Menino
dormia na manjedoura.
Olha o jeito da luz dela.
Talvez queira te chamar
para a graça da ternura,
desperdiçada fundura
perdida da tua vida.
Acreditariam se eu dissesse (Hilda Hilst - 1930 - 2004)
Acreditariam
se eu dissesse aos homens
que nascemos
tristemente humanos
e morremos flor?
Acreditariam
que a presença é ausente
quando o olhar se perde
nas alturas?
Acreditariam
ser a nossa vida
vontade consciente
de não ser?
E ser luz e estrela
água, flor
se eu dissesse aos homens
que nascemos
tristemente humanos
e morremos flor?
Acreditariam
que a presença é ausente
quando o olhar se perde
nas alturas?
Acreditariam
ser a nossa vida
vontade consciente
de não ser?
E ser luz e estrela
água, flor
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
O prego (Adriano Espínola - 1952)
O que mais dói não
é o retrato na parede,
mas o prego ali
cravado, persistente,
no centro da mancha
do quadro ausente.
Assinar:
Postagens (Atom)

