Entre a palavra e a coisa
o salto sobre o nada.
Em torno da palavra
muitas camadas de sonho.
Uma cebola. Um átomo.
Uma cebola ávida.
Entre uma e outra camada
nada.
Saltam sobre o abismo
tomam o vazio de assalto.
De píncaro a píncaro
projetam-se, impávidas,
epifânicas, esdrúxulas,
teimosas e dançarinas.
O salto é uma dança,
a teima é uma doença.
Em torno da cebola
o ar é tenso de lágrimas.
sábado, 6 de outubro de 2012
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Devoração da paisagem (Duda Machado - 1944)
À esquerda, o morro. Logo
adiante casas, o arvoredo
vário. Um pouco abaixo.
a estrada, o riacho.
Cores que ultrapassam distâncias,
sugestões de textura
entre vegetação e vento;
o olhar que erra e se prolonga
em busca de sua moradia.
De algum lugar,
distante das retinas,
a fera irrompe
e de pronto,
a paisagem se contrai.
Já é presa,
repasto de significados,
com que a fera
realimenta a sua fome.
adiante casas, o arvoredo
vário. Um pouco abaixo.
a estrada, o riacho.
Cores que ultrapassam distâncias,
sugestões de textura
entre vegetação e vento;
o olhar que erra e se prolonga
em busca de sua moradia.
De algum lugar,
distante das retinas,
a fera irrompe
e de pronto,
a paisagem se contrai.
Já é presa,
repasto de significados,
com que a fera
realimenta a sua fome.
Sempre (Guimarães Passos - 1867 - 1909)
Se eu não te disse nunca que te amava,
Perdoa-me, mulher, sou inocente
Eu vivia de amar-te unicamente,
Unicamente em teu amor pensava.
Se os meus lábios calavam-se, falava
O meu olhar apaixonadamente,
Porque, se o lábio oculta o que a alma sente,
Conta o olhar o que o lábio não contava.
Meu rosto triste, meu cismar constante,
Meu gesto, meu sorrir, tudo exalava,
Tudo exprimia um coração amante.
Em tudo o meu amor se denunciava,
Via-me em toda a parte e a todo o instante,
Se estavas longe, se comigo estava.
Perdoa-me, mulher, sou inocente
Eu vivia de amar-te unicamente,
Unicamente em teu amor pensava.
Se os meus lábios calavam-se, falava
O meu olhar apaixonadamente,
Porque, se o lábio oculta o que a alma sente,
Conta o olhar o que o lábio não contava.
Meu rosto triste, meu cismar constante,
Meu gesto, meu sorrir, tudo exalava,
Tudo exprimia um coração amante.
Em tudo o meu amor se denunciava,
Via-me em toda a parte e a todo o instante,
Se estavas longe, se comigo estava.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Meu cinema (Dora Ribeiro - 1960)
o plano está bastante
inclinado
e nós estamos lá
simples e
molhados
(há ovelhas à volta
e as árvores são
esculturas feitas de
ventania)
o chão
olha debaixo
da minha saia
e você vê ali
o céu descoberto
eu finjo distração
e morro por segundos
nos seus braços
inclinado
e nós estamos lá
simples e
molhados
(há ovelhas à volta
e as árvores são
esculturas feitas de
ventania)
o chão
olha debaixo
da minha saia
e você vê ali
o céu descoberto
eu finjo distração
e morro por segundos
nos seus braços
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Soneto 426 Torresmista (Glauco Mattoso - 1951)
Não basta a ditadura que já dura
e vem a ditadura antigordura!
Saímos do regime militar,
caímos no regime do regime.
Censuram-nos até no paladar!
Trabalho, horário, imposto, compromisso.
Orgasmo não se tem como se quer.
Só sobra o bom do garfo e da colher,
e os nazis nariz metem até nisso.
Maldita seja a mídia, sempre a dar
Espaço à medicina que reprime!
Gestapo da "saúde" e "bem-estar"!
Resista! Coma! Abaixo a ditadura!
A luta tem um símbolo: FRITURA!
e vem a ditadura antigordura!
Saímos do regime militar,
caímos no regime do regime.
Censuram-nos até no paladar!
Trabalho, horário, imposto, compromisso.
Orgasmo não se tem como se quer.
Só sobra o bom do garfo e da colher,
e os nazis nariz metem até nisso.
Maldita seja a mídia, sempre a dar
Espaço à medicina que reprime!
Gestapo da "saúde" e "bem-estar"!
Resista! Coma! Abaixo a ditadura!
A luta tem um símbolo: FRITURA!
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Amor por encomenda (Claufe Rodrigues - 1956)
Eu não sei como escrever
Poema de amor por encomenda
É como levar merenda para o recreio
Tendo na cantina da escola
Toda sorte de iguaria
Ou viver de renda
Enquanto o verdadeiro vagabundo vadia
Ou virar lenda
À custa da miséria alheia.
Por encomenda se faz comício
Propaganda, missa.
Por encomenda, você troca um dia de bravura
Por um mês de preguiça.
Mas eu sou servo do verso
Uma espécie de almocreve
Sem destino ou senhor.
Deste modo serei breve
Não se ofenda:
Este poema não se fará por encomenda
Mas por amor.
Poema de amor por encomenda
É como levar merenda para o recreio
Tendo na cantina da escola
Toda sorte de iguaria
Ou viver de renda
Enquanto o verdadeiro vagabundo vadia
Ou virar lenda
À custa da miséria alheia.
Por encomenda se faz comício
Propaganda, missa.
Por encomenda, você troca um dia de bravura
Por um mês de preguiça.
Mas eu sou servo do verso
Uma espécie de almocreve
Sem destino ou senhor.
Deste modo serei breve
Não se ofenda:
Este poema não se fará por encomenda
Mas por amor.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
O crime perfeito (Jacinto Fabio Corrêa - 1960)
Partiu sem deixar
sinal ou vestígio
como o ladrão que para roubar
não precisa acender as luzes.
A casa era toda sua
o resto de coração também
mas morava tão dentro do silêncio
que pouco ou nada consentia.
A única peça esquecida
- uma camisa xadrez -
hoje é toalha de mesa
para a refeição diária.
Ainda ouço a porta se abrir.
Mas é apenas o ladrão.
sinal ou vestígio
como o ladrão que para roubar
não precisa acender as luzes.
A casa era toda sua
o resto de coração também
mas morava tão dentro do silêncio
que pouco ou nada consentia.
A única peça esquecida
- uma camisa xadrez -
hoje é toalha de mesa
para a refeição diária.
Ainda ouço a porta se abrir.
Mas é apenas o ladrão.
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