quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Beijos do céu (Alberto de Oliveira - 1859 - 1937)

Sonhei-te assim, ó minha amante, um dia:
- Vi-te no céu; e, enamoradamente,
de beijos, a falange resplendente
dos serafins, teu corpo inteiro ungia...

Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via,
beijavam todos o teu lábio ardente;
e, beijando-te, o próprio Onipotente,
o próprio Deus nos braços te cingia!

Nisto, o ciúme - fera que eu não domo -
despertou-me do sonho; repentino
vi-te a dormir tão plácida a meu lado...

E beijei-te também, beijei-te..., e, ai! como
achei doce o teu lábio purpurino,
tantas vezes assim no céu beijado!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Essa estranha (Diego Grando - 1981)

A voz dela quando acordo
é acorde num piano só de teclas pretas.
Seu rosto, pelo meio-dia
faz algo enviesado e novo
como se os olhos enxergando
daltônicos por lentes de cubismo.
À tarde as mãos
se estou prostrado porque a vida é desperdício
repousam nos meus ombros e são outras
mãos - são duas mãos esquerdas?
E seu humor durante o pôr do sol
é réplica da linha do horizonte.
Também se noite alta ou madrugada
ao revolver-se em sonho entre lençóis
o inédito me vem pelas narinas
e mesmo enquanto não está por perto
por certo algum indício há que a torna
indescritivelmente a mesma.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mulher - 1 (Yone Giannetti Fonseca - 1929)

E agora, mulher,
Que soltou seus freios,
Que saiu dos eixos.

E agora, camélia,
Sua carne manchada,
Transada, se salva?

E agora, o pecado
Tão moderno e quente
Vai ter Happy-end?

E agora, mulher,
Você vai poder
Pisar firme e reta?

Borboleta bêbada
De vinho e desejo,
Depois desta entrega.

Depois deste incêndio,
Cadê seu sossego,
Cadê seu roteiro?

E agora, mulher,
Que você aborta,
Que você desbunda.

E que arromba portas
Erguendo um revólver,
E que faz negócios.

E que puxa fumo,
Você desconfia
Que tudo é um gemido?

E agora, mulher,
Nordestina, escória,
Que virou carioca?

Que virou miragem,
Robô, operária,
Puta e favelada?

Tão trivial e exposta
Ao consumo e à sorte
De uma coisa morta?

domingo, 4 de novembro de 2012

As palavras e os nomes da infância (Ângelo Monteiro - 1942)

As palavras da infância tinham mágicas
Que os mágicos somente saberão.
E um ardor que os pomares e os jardins
Nunca imaginam para o seu verão.

Palavras que - provindas de bem longe -
Viram nascer na luz de infantes olhos
O tamanho das coisas e dos homens
Medido por sua vara de condão.

O viço das palavras encantadas
Que os meninos trocavam sobre o mundo
Entre luas perdidas nas calçadas
Emanavam de um tempo mais profundo.

De um tempo em que os meninos não procuram
Outros nomes além dos nomes seus.
E nas conversas - cheias de futuro -
Nenhum fim vislumbravam num adeus.

Como os nomes que dávamos às coisas
Da malícia eram livres do legado
Saí de uma cidade para outra
Quando menino procurando Arnaldo.

Arnaldo. Não um nome de família.
Arnaldo apenas. Nada mais que Arnaldo.
Na infância os nossos nomes são o altar
De todas as estrelas em vigília.

sábado, 3 de novembro de 2012

O que fizeram do Natal (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1997)

Natal.
O sino longe toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Alma nua (Vander Lee - 1966)

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima

Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Papel tesoura e cola (Eucanaã Ferraz - 1961)

Dia de verão na Vista Chinesa. Eu, sozinho,
era um mandarim frio; mas vendo tudo

do alto, tomado pela beleza, achei que
em meu coração a tristeza era mesquinha;

pensar em mim e em você me pareceu avareza,
tendo em vista que nós somos bem menores

vistos do Alto da Boa Vista. Janeiro bicicletas
bem-te-vis entraram pelos meus olhos

abrindo em cheio meu peito; que sombra
demoraria à luz de tantas lanternas?

Mesmo a noite mais profunda logo se incendiara
e, decerto, morreríamos só depois da madrugada.

Era uma tarde chinesa, tarde de mim sem você,
quando vi que nós dois juntos não valíamos

a cena.