estes vasos, canos
de fundo e
vértebra, flor em
flauta, náusea
e terror. estes
vasos de lama
e seda, estas
veias estúpidas
estrumes de
sangue. vazar
por dentro e de fora
vasa barris
largos de favela
percorrem canudos.
estes laços de garganta
promessas de língua
sem pesos de luz
negociar, negociar
mundos
e fundos de terra
parida e ausência
sob as tripas
de mais um homem.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
O baú (Mario Quintana - 1906 -1994)
Como estranhas lembranças de outras vidas,
que outros viveram, num estranho mundo,
quantas coisas perdidas e esquecidas
no teu baú de espantos... Bem no fundo,
uma boneca toda estraçalhada!
(isto não são brinquedos de menino...
alguma coisa deve estar errada)
mas o teu coração em desatino
te traz de súbito uma ideia louca:
é ela, sim! Só pode ser aquela,
a jamais esquecida Bem-Amada.
E em vão tentas lembrar o nome dela...
e em vão ela te fita... e a sua boca
tenta sorrir-te mas está quebrada!
que outros viveram, num estranho mundo,
quantas coisas perdidas e esquecidas
no teu baú de espantos... Bem no fundo,
uma boneca toda estraçalhada!
(isto não são brinquedos de menino...
alguma coisa deve estar errada)
mas o teu coração em desatino
te traz de súbito uma ideia louca:
é ela, sim! Só pode ser aquela,
a jamais esquecida Bem-Amada.
E em vão tentas lembrar o nome dela...
e em vão ela te fita... e a sua boca
tenta sorrir-te mas está quebrada!
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Poema (Mario Quintana - 1906 - 1994)
Oh! aquele menino que dizia
"Fessora, eu posso ir lá fora?"
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul...
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo...
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.
"Fessora, eu posso ir lá fora?"
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul...
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo...
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Intimidade (Mario Benedetti - 1920 - 2009)
Sonhamos juntos
juntos despertamos
o tempo faz ou desfaz
enquanto isso
não lhe importa teu sonho
nem meu sonho
somos torpes
ou cuidadosos demais
pensamos que não cai
essa gaivota
acreditamos que é eterno
esse feitiço
que a batalha é nossa
ou de ninguém
juntos vivemos
sucumbimos juntos
mas essa destruição
é uma piada
um detalhe um sopro
um vestígio
um abrir e fechar
o paraíso
já nossa intimidade
é tão imensa
que a morte esconde
em seu vazio
quero que me contes
o luto que te cala
da minha parte te ofereço
minha ultima confidência
estás só
estou só
mas às vezes
pode a solidão
ser
uma chama.
juntos despertamos
o tempo faz ou desfaz
enquanto isso
não lhe importa teu sonho
nem meu sonho
somos torpes
ou cuidadosos demais
pensamos que não cai
essa gaivota
acreditamos que é eterno
esse feitiço
que a batalha é nossa
ou de ninguém
juntos vivemos
sucumbimos juntos
mas essa destruição
é uma piada
um detalhe um sopro
um vestígio
um abrir e fechar
o paraíso
já nossa intimidade
é tão imensa
que a morte esconde
em seu vazio
quero que me contes
o luto que te cala
da minha parte te ofereço
minha ultima confidência
estás só
estou só
mas às vezes
pode a solidão
ser
uma chama.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Não te salves (Mario Benedetti - 1920 - 2009)
Não fiques imóvel
na beira do caminho
não congeles o júbilo
não queiras com apatia
não te salves agora
nem nunca
não te salves
não te enchas de calma
não reserves do mundo
só um recanto tranquilo
não deixes cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
não fiques sem lábios
não durmas sem sono
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo
porém se
apesar de tudo
não podes evitar
e congelas o júbilo
e queres com apatia
e te salvas agora
e te enches de calma
e reservas do mundo
só um recanto tranquilo
e deixas cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
e te secas sem lábios
e adormeces sem sono
e te pensas sem sangue
e te julgas sem tempo
e ficas imóvel
na beira do caminho
e te salvas
então
não fiques comigo.
na beira do caminho
não congeles o júbilo
não queiras com apatia
não te salves agora
nem nunca
não te salves
não te enchas de calma
não reserves do mundo
só um recanto tranquilo
não deixes cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
não fiques sem lábios
não durmas sem sono
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo
porém se
apesar de tudo
não podes evitar
e congelas o júbilo
e queres com apatia
e te salvas agora
e te enches de calma
e reservas do mundo
só um recanto tranquilo
e deixas cair as pálpebras
pesadas como julgamentos
e te secas sem lábios
e adormeces sem sono
e te pensas sem sangue
e te julgas sem tempo
e ficas imóvel
na beira do caminho
e te salvas
então
não fiques comigo.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Juro dizer a meia-verdade (Ricardo Silvestrin - 1963)
Juro dizer a meia-verdade
a meia-mentira
o centauro por inteiro
nada mais que a sedução da sereia
o passo em falso, verdadeiro
na beira de um desfiladeiro
juro com a mão direita
sobre a bíblia
e a mão esquerda abanando
em nome de Deus, de Zeus
de Oxalá ou da besta
juro que os que quiserem
somente a verdade
vão perder o melhor da festa
a meia-mentira
o centauro por inteiro
nada mais que a sedução da sereia
o passo em falso, verdadeiro
na beira de um desfiladeiro
juro com a mão direita
sobre a bíblia
e a mão esquerda abanando
em nome de Deus, de Zeus
de Oxalá ou da besta
juro que os que quiserem
somente a verdade
vão perder o melhor da festa
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
A um poeta (Olavo Bilac - 1865 - 1918)
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima , e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima , e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Assinar:
Postagens (Atom)