quarta-feira, 6 de março de 2013

O doido (Eucanaã Ferraz - 1961)

Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra

acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça

reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua

em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.

Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação

de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos

encardidos a água das praias,
como se província sua,

como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,

até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.

Mosaico (Ronaldo Cagiano - 1961)

Não me importa o que sou.
De nada vale a pena
deslumbrar-se
na vã tentativa de admirar
o que fez, o que foi, o que tem.
Orgulho-me, sim,
daquilo que não fui.

Só assim consigo estar mais leve
e ver além do sol,
porque das decepções que não sofri
e das frustrações que não tive
a mim e aos demais poupei.

Entre tantas despedidas,
amizades desfeitas ou amores inconclusos,
ficou-me a estrada
e a estranha, iniludível sensação
de estar inacabado.

terça-feira, 5 de março de 2013

O tempo (Ronaldo Costa Fernandes - 1952)

O tempo e sua matéria
a máquina dos meus humores
tão rica e mineral
enquanto lá for
a sonata dos desatinos
orquestra o boi que se estende no varal.

O tempo e sua miséria,
deus negro que não encontra o sono.

O tempo e sua morfologia
feita de nada e de tudo
como alguém que anda
com os calcanhares para a frente.

O tempo e sua bílis negra,
atrabiliário e perverso,
monstro do Loch Ness,
ó profundeza feita de vazio.

O tempo e sua caixa de música
o lugar dos sons prisioneiro,
o que se escuta é o silêncio das horas
lambendo o ar rarefeito.

O tempo — animal que não envelhece,
nós é que passamos por ele
como alguém que acena de um ônibus
para a imobilidade saudosa
de um bar à beira da estrada.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Lições (Ronaldo Costa Fernandes - 1952)

Existir é a prova dos nove.
Um dia me cansarei de ser
a nota dissonante
e abandonarei a lição de casa,
a lição da rua, a lição da vida,
oh, Deus,
todas as lições que nunca aprendi.
Lição se aprende com o corpo.
O corpo tem sua matéria,
sua disciplina, seu passar de ano.
A natureza ensina com galhos,
cada folha que cai é um ponto.
Por toda parte há as esquinas das vírgulas.
Tenho medo do abc das torrentes,
da aritmética das montanhas,
da História das minhas dores.
Minha dor é um fruto
que, amadurecido, não cai
e vai apodrecendo o galho,
o caule e a raiz tormentosa.

domingo, 3 de março de 2013

Jogos florais (Cacaso - 1944 - 1987)

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre
a água já não vira vinha
vira direto vinagre

Minha terra tem palmares
memória cala-te já
Peço licença poética
Belém capital Pará

Bem, meus prezados senhores
dado o avanço da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com esses dois esses
que se escreve paçarinho?)

sábado, 2 de março de 2013

Cometa poesia (Nicolas Behr - 1958)

era noite de julho de 1967

mamãe nos acordou de madrugada
para vermos o cometa ikeia-seki
(ela sabia que nós
nunca o esqueceríamos)

o cometa seguiu seu curso
nós voltamos para a cama

caixeiro-viajante do céu,
o cometa aparece e desaparece

o cometa volta
a infância não

sexta-feira, 1 de março de 2013

Brasília enigmática (Nicolas Behr - 1958)

brasília, faltam exatos 3.232 dias
para o nosso acerto de contas

me deves um poema
te dou um olhar terno

na beira do paranoá
pego um pedaço de pau
entre um pneu velho
e um peixe morto
(uma garça
por testemunha)

não me reconheces
não te reconheço