sábado, 6 de abril de 2013

Olhar de amor (Regina Lyra - 1958)

Aquele olhar matreiro e ofegante
Trazia por trás das dunas o regaço.
Com o sorriso e o sonhar dos amantes,
Acolheram-se efusivos num abraço.

Sem precisar da palavra falada
O olhar, emudecido de carinho,
Vinha, feito passarinho,
Beijar o olhar lânguido, amado.

Naquele entardecer mágico,
Nada se via de mais grandioso
Do que aquele encontro vestal.

Todavia, o olhar de desejo e assédio
Suspirou nos sentidos desnudados:
E se amaram em uma noite profana.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Você (Ivan Junqueira - 1934)

Você tem todas as cores
- azul, lilás, carmesim -
E dorme sempre ao meu lado,
Entre um bruxo e um querubim.

Você não muda; é assim:
ora se queixa, ora ri,
às vezes não diz palavra
e olha de banda pra mim.

Eu ganhei você um dia,
cheio de laços e fitas;
até guizos você tinha
na gola e nos borzeguins.

Eu pus você entre os livros,
junto às garrafas de vinho,
sob as urzes e as glicínias
que cresciam no jardim.

Mas aos poucos suas cores
foram ficando sem viço,
e a bruma, como um feitiço,
vestiu você de velhice.

Sob o verde pinheirinho,
onde mil luzes cintilam,
vez por outra você brilha
mais até que o sol a pino.

Um dia (claro, é a vida)
você se irá de mansinho,
mas deixará, eu sei disso,
em minha carne um espinho.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Ária marinha (Ivan Junqueira - 1934)

Tecla de sal
clave de sol
acorde oculto
num caracol

Será o espectro
da infância morta
que desabrocha
como um farol?

Serão ginetes
já sem memória
fincando esporas
no azul lençol?

Será meu pai
debaixo d'água
com sua flauta
e seu punhal?

Ou não será
em mim disperso
o som submerso
de outro coral?

Resposta alguma
à tona sobe
mas eu indago
e lanço o anzol

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Artistas (Medeiros e Albuquerque - 1867 - 1934)

Senhora, eu não conheço a frase almiscarada
dos formosos galãs que vão aos teus salões
nem conheço também a trama complicada
que envolve, que seduz e prende os corações...

Sei que Talma dizia aos juvenis atores
que o Sentimento é mau, se é verdadeiro e são...
e quem menos sentir os ódios e os rancores
mais pode simular das almas a paixão.

E, por isto talvez, eu, que não sou artista,
nem nestes versos meus posso infundir calor,
desvio-me de ti, fujo de tua vista,
porque não sei dizer-te o meu imenso amor.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Quando ela fala (Machado de Assis - 1839 - 1908)

Quando ela fala, parece
que a voz da brisa se cala;
talvez um anjo emudece
quando ela fala.

Meu coração dolorido
as suas mágoas exala.
E volta ao gozo perdido
quando ela fala.

Pudesse eu eternamente,
ao lado dela, escutai-a,
ouvir sua alma inocente
quando ela fala.

Minh'alma, já semimorta,
conseguira ao céu alçá-la,
porque o céu abre uma porta
quando ela fala.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Os astros íntimos (Thiago de Mello - 1926)

Consulto a luz dos meus astros,
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.
A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.

Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.

A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.

A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.

Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.

A véspera (Thiago de Mello - 1926)

A véspera já é certeza
que se antecipa chegando
no gosto do que vai ser.

A véspera já aconchega
a tua ausência no riso
com que sabes receber.

Tudo é véspera no amor.
No instante em que se inaugura
minha carícia em teu peito,

ela se sonha descendo,
no dorso da madrugada
pelo côncavo perfeito

dos quadris que se iluminam
quando a luz da minha língua
trabalha a felicidade

misteriosa que se abriga
numa floresta de pêlos,
cidadela da verdade

que tem de clave o meu nome,
e só por isso se entreabre,
desmurada por meu sonho,

para me entregar o sol
que vai acender a vida
toda que vivi de véspera.