Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.
Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?
Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.
Quem leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?
De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?
Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?
domingo, 5 de maio de 2013
Retrato (Manoel de Barros - 1916)
O homem possuía:
Um ocaso
E duas mãos.
Lembrava
Uma rosa seca
Num porto.
Lembrava também
Pássaro adunco
Na ponte de uma península.
Uma tarde pousou
(como um pardal)
No banco
De uma praça.
Lembrava:
Um corgo atrás de um sobrado
Um lápis numa ilha.
Um ocaso
E duas mãos.
Lembrava
Uma rosa seca
Num porto.
Lembrava também
Pássaro adunco
Na ponte de uma península.
Uma tarde pousou
(como um pardal)
No banco
De uma praça.
Lembrava:
Um corgo atrás de um sobrado
Um lápis numa ilha.
sábado, 4 de maio de 2013
Eu não lastimo o próximo perigo (Alvarenga Peixoto - 1744 - 1793)
Eu não lastimo o próximo perigo,
uma escura prisão, estreita e forte,
lastimo os caros filhos, a consorte,
a perda irreparável de um amigo.
A prisão não lastimo, outra vez digo,
nem o ver iminente o duro corte,
que é ventura também achar a morte
quando a vida só serve de castigo.
Ah, quão depressa então acabar vira
este enredo, este sonho, esta quimera,
que passa por verdade e é mentira!
Se filhos, se consorte não tivera,
e do amigo as virtudes possuíra,
um momento de vida eu não quisera.
uma escura prisão, estreita e forte,
lastimo os caros filhos, a consorte,
a perda irreparável de um amigo.
A prisão não lastimo, outra vez digo,
nem o ver iminente o duro corte,
que é ventura também achar a morte
quando a vida só serve de castigo.
Ah, quão depressa então acabar vira
este enredo, este sonho, esta quimera,
que passa por verdade e é mentira!
Se filhos, se consorte não tivera,
e do amigo as virtudes possuíra,
um momento de vida eu não quisera.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Distância (Cecília Meireles - 1901 - 1964)
Quando o sol ia acabando
e as águas mal se moviam,
tudo que era meu chorava
da mesma melancolia.
Outras lágrimas nasceram
com o nascimento do dia:
só de noite esteve seco
meu rosto sem alegria.
(Talvez o sol que acabara
e as águas que se perdiam
transportassem minha sombra
para a sua companhia...)
Oh!
mas nem no sol nem nas águas
os teus olhos a veriam...
— que andam longe, irmãos da lua,
muito clara e muito fria...
e as águas mal se moviam,
tudo que era meu chorava
da mesma melancolia.
Outras lágrimas nasceram
com o nascimento do dia:
só de noite esteve seco
meu rosto sem alegria.
(Talvez o sol que acabara
e as águas que se perdiam
transportassem minha sombra
para a sua companhia...)
Oh!
mas nem no sol nem nas águas
os teus olhos a veriam...
— que andam longe, irmãos da lua,
muito clara e muito fria...
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Eu quero ouvir o coração falar (Fausto Guedes Teixeira - 1871 - 1930)
Eu quero ouvir o coração falar
e não os homens a falar por ele!
Enquanto a gente fala, há de parar
no peito a vida estranha que o impele.
Independente à forma de o expressar,
o sentimento existe, e ai daquele
coração triste que se julgue dar
na cerração em que a palavra o vele.
Astro no peito, é sobre a língua chaga.
Dizer uma alegria ou um tormento
é um mar em que sempre se naufraga.
Era a essência de Deus vista e atingida!
Se é a força da vida o sentimento,
fez-se a palavra pra mentir a vida.
e não os homens a falar por ele!
Enquanto a gente fala, há de parar
no peito a vida estranha que o impele.
Independente à forma de o expressar,
o sentimento existe, e ai daquele
coração triste que se julgue dar
na cerração em que a palavra o vele.
Astro no peito, é sobre a língua chaga.
Dizer uma alegria ou um tormento
é um mar em que sempre se naufraga.
Era a essência de Deus vista e atingida!
Se é a força da vida o sentimento,
fez-se a palavra pra mentir a vida.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Taquari (César Pereira - 1934)
Nos lábios da paixão,
o rio Taquari
banha os passeios da infância
Olho quem sai do escuro
- luz nos umbrais da memória.
O amor crescendo maduro,
entre dois favos
- mel do aconchego
Tia Lourdes faz café
Vó Amália entre o crochê
e o chimarrão.
Lembranças coladas à pele
andam comigo
pelas veredas do destino
o rio Taquari
banha os passeios da infância
Olho quem sai do escuro
- luz nos umbrais da memória.
O amor crescendo maduro,
entre dois favos
- mel do aconchego
Tia Lourdes faz café
Vó Amália entre o crochê
e o chimarrão.
Lembranças coladas à pele
andam comigo
pelas veredas do destino
Caramujo (Orides Fontela - 1940 - 1998)
A superfície
suave convexa
não revela seu dentro:
apenas brilha.
A entrada
estreita abóboda
é sóbria sombria
gruta.
A seqüência
rampa enovelada
se estreita num pasmo
labiríntico.
O fim
limite íntimo
nada é além de si mesmo
ponto último.
A saída
é a volta.
suave convexa
não revela seu dentro:
apenas brilha.
A entrada
estreita abóboda
é sóbria sombria
gruta.
A seqüência
rampa enovelada
se estreita num pasmo
labiríntico.
O fim
limite íntimo
nada é além de si mesmo
ponto último.
A saída
é a volta.
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