domingo, 5 de maio de 2013

Quem me leva os meus fantasmas (Pedro Abrunhosa - 1960)

Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.

Quem leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

Retrato (Manoel de Barros - 1916)

O homem possuía:
Um ocaso
E duas mãos.

Lembrava
Uma rosa seca
Num porto.

Lembrava também
Pássaro adunco
Na ponte de uma península.

Uma tarde pousou
(como um pardal)
No banco
De uma praça.

Lembrava:
Um corgo atrás de um sobrado
Um lápis numa ilha.

sábado, 4 de maio de 2013

Eu não lastimo o próximo perigo (Alvarenga Peixoto - 1744 - 1793)

Eu não lastimo o próximo perigo,
uma escura prisão, estreita e forte,
lastimo os caros filhos, a consorte,
a perda irreparável de um amigo.

A prisão não lastimo, outra vez digo,
nem o ver iminente o duro corte,
que é ventura também achar a morte
quando a vida só serve de castigo.

Ah, quão depressa então acabar vira
este enredo, este sonho, esta quimera,
que passa por verdade e é mentira!

Se filhos, se consorte não tivera,
e do amigo as virtudes possuíra,
um momento de vida eu não quisera.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Distância (Cecília Meireles - 1901 - 1964)

Quando o sol ia acabando
e as águas mal se moviam,
tudo que era meu chorava
da mesma melancolia.
Outras lágrimas nasceram
com o nascimento do dia:
só de noite esteve seco
meu rosto sem alegria.
(Talvez o sol que acabara
e as águas que se perdiam
transportassem minha sombra
para a sua companhia...)
Oh!
mas nem no sol nem nas águas
os teus olhos a veriam...
— que andam longe, irmãos da lua,
muito clara e muito fria...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Eu quero ouvir o coração falar (Fausto Guedes Teixeira - 1871 - 1930)

Eu quero ouvir o coração falar
e não os homens a falar por ele!
Enquanto a gente fala, há de parar
no peito a vida estranha que o impele.

Independente à forma de o expressar,
o sentimento existe, e ai daquele
coração triste que se julgue dar
na cerração em que a palavra o vele.

Astro no peito, é sobre a língua chaga.
Dizer uma alegria ou um tormento
é um mar em que sempre se naufraga.

Era a essência de Deus vista e atingida!
Se é a força da vida o sentimento,
fez-se a palavra pra mentir a vida.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Taquari (César Pereira - 1934)

Nos lábios da paixão,
o rio Taquari
banha os passeios da infância

Olho quem sai do escuro
- luz nos umbrais da memória.

O amor crescendo maduro,
entre dois favos
- mel do aconchego

Tia Lourdes faz café
Vó Amália entre o crochê
e o chimarrão.

Lembranças coladas à pele
andam comigo
pelas veredas do destino

Caramujo (Orides Fontela - 1940 - 1998)

A superfície
suave convexa
não revela seu dentro:
apenas brilha.

A entrada
estreita abóboda
é sóbria sombria
gruta.

A seqüência
rampa enovelada
se estreita num pasmo
labiríntico.

O fim
limite íntimo
nada é além de si mesmo
ponto último.

A saída
é a volta.