Conosco se parecem os desertos.
Quando seres gentis vão viver juntos,
é como acalentar sonhos defuntos,
quando melhor será vê-los despertos.
Se para mim são sempre bons assuntos
(os sonhos), seguem eles, sempre abertos
às batalhas da vida nos desertos,
se de vãs esperanças, devoto, unto-os.
Não se deve elidir a quem se ausenta
de oferecer um ombro, à mínima hora,
em que a lua socorre e cumprimenta.
Não há como fugir. Estrada afora,
muito, como de sábio, o corpo atenta:
amar, se precipício, nos melhora.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Sutilíssimo eterno (César Leal - 1924)
Sutilíssimo eterno que habita
minhas saletas interiores
onde trago o tempo guardado
noturno e resignado
sutilíssimo eterno interior
que como um tálamo é
em minha alma limpa e sofrida
como água dormida em pedra
que eterna seiva alimenta
este tempo em mim retido
plumagem livre de flor
forma exata imperecível
sinto-te assim como um trunfo
branda coroa do eterno
além das nuvens, das águas
ouço o teu metal desperto
se existes no ser completo
na cinza móvel das sombras
por que retiras de mim
tudo o que em mim não é pântano?
minhas saletas interiores
onde trago o tempo guardado
noturno e resignado
sutilíssimo eterno interior
que como um tálamo é
em minha alma limpa e sofrida
como água dormida em pedra
que eterna seiva alimenta
este tempo em mim retido
plumagem livre de flor
forma exata imperecível
sinto-te assim como um trunfo
branda coroa do eterno
além das nuvens, das águas
ouço o teu metal desperto
se existes no ser completo
na cinza móvel das sombras
por que retiras de mim
tudo o que em mim não é pântano?
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Análise da sombra (César Leal - 1924)
Analisa-se da sombra
seu caráter permanente:
pela manhã retraindo
a imagem, à tarde crescente.
E aquele instante em que a sombra
adelgaça o corpo fino
como se no chão entrasse
quando o sol se encontra a pino.
Quem a esse instante mira
em oposição ao lado
onde o sol era luz antes
logo vê o passo vago
da sombra que agora cresce
o corpo de onde se filtra
até fundir-se no limbo
que em torno dela gravita.
Forma esse limbo a coroa
que as sombras traz federadas:
soma de todas as sombras
num só nó à noite atadas.
seu caráter permanente:
pela manhã retraindo
a imagem, à tarde crescente.
E aquele instante em que a sombra
adelgaça o corpo fino
como se no chão entrasse
quando o sol se encontra a pino.
Quem a esse instante mira
em oposição ao lado
onde o sol era luz antes
logo vê o passo vago
da sombra que agora cresce
o corpo de onde se filtra
até fundir-se no limbo
que em torno dela gravita.
Forma esse limbo a coroa
que as sombras traz federadas:
soma de todas as sombras
num só nó à noite atadas.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Mas eu quero morrer... (Mauro Cappelletti - 1927 - 2004)
Mas eu quero morrer...
Oh não me olheis feio,
morrer somente com o pensamento,
isso, figurar-me morrer...
Sou fraco e este pensamento
me dá força: enxuga as lágrimas
mesmo aquelas que não querem sair
é um pensamento que profundamente
penetra o espírito
e é tão doce sereno tranquilo
que parece - devo repeti-lo - parece
como um trago de morte.
Quando dele tiver bebido toda a taça
dormirei, como se dorme bêbado,
suavemente.
* Traduzido pelo poeta Alexei Bueno
Oh não me olheis feio,
morrer somente com o pensamento,
isso, figurar-me morrer...
Sou fraco e este pensamento
me dá força: enxuga as lágrimas
mesmo aquelas que não querem sair
é um pensamento que profundamente
penetra o espírito
e é tão doce sereno tranquilo
que parece - devo repeti-lo - parece
como um trago de morte.
Quando dele tiver bebido toda a taça
dormirei, como se dorme bêbado,
suavemente.
* Traduzido pelo poeta Alexei Bueno
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Commiato (Mauro Cappelletti - 1927 - 2004)
A coisa maior,
diz a filosofia,
é a morte: o tudo e o nada.
Mas a coisa mais bela,
diz o poeta,
é esta centelha:
a existência.
* Este poema foi traduzido por Alexei Bueno
diz a filosofia,
é a morte: o tudo e o nada.
Mas a coisa mais bela,
diz o poeta,
é esta centelha:
a existência.
* Este poema foi traduzido por Alexei Bueno
domingo, 2 de junho de 2013
São filhas do sol as estrelas (Mauro Cappelletti - 1927 - 2004)
São filhas do sol as estrelas,
bem sei, disse aquele velhinho
que tratava das flores, que a elas
regava, a tremer, de mansinho,
recordas? e em meio das flores
narrava, narrava aos meninos
a história de sonhos, de amores,
a história de encantos divinos,
com sua voz solene narrando,
descrevendo com a mão tremente.
Vejo-o agora: vem se chegando
até mim, no amieiro virente.
Vem a mim trazer o louvor,
a homenagem do uso aldeão
que é devida ao novo doutor;
novas crianças traz pela mão.
- Avozinho, conta-me a história,
a mais verdadeira que há?
- Mas tu a sabes bem de memória
e além disso... és um homem já!
Oh, acreditas? Mas na alma temos
uma voz dizendo - meninos,
vovô, se nascemos, meninos
vivemos, meninos morremos.
* Poema traduzido por Alexei Bueno
bem sei, disse aquele velhinho
que tratava das flores, que a elas
regava, a tremer, de mansinho,
recordas? e em meio das flores
narrava, narrava aos meninos
a história de sonhos, de amores,
a história de encantos divinos,
com sua voz solene narrando,
descrevendo com a mão tremente.
Vejo-o agora: vem se chegando
até mim, no amieiro virente.
Vem a mim trazer o louvor,
a homenagem do uso aldeão
que é devida ao novo doutor;
novas crianças traz pela mão.
- Avozinho, conta-me a história,
a mais verdadeira que há?
- Mas tu a sabes bem de memória
e além disso... és um homem já!
Oh, acreditas? Mas na alma temos
uma voz dizendo - meninos,
vovô, se nascemos, meninos
vivemos, meninos morremos.
* Poema traduzido por Alexei Bueno
sábado, 1 de junho de 2013
Marinha (Emílio Moura - 1902 - 1971)
Grito teu nome aos ventos.
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
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