domingo, 7 de julho de 2013

Tenho andado fraco (Paulo Leminski - 1944 - 1989)

tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tenho andado sem pai

yo no creo en caminos
pero que los hay
hay

sábado, 6 de julho de 2013

Um deus também é o vento (Paulo Leminski - 1944 - 1989)

um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Revoada (Salgado Maranhão - 1953)

os pássaros quando voam
não deixam sequer rastro ao vento
porque não voam com as asas
apenas com o sentimento.

os pássaros em revoada
não buscam tão simplesmente
o ninho de algum lugar
porque já estão pousados
no próprio ninho do ar.

quando pássaros em pleno voo
não há nem asas nem vento
tudo fica como o tempo
apenas paz e firmamento.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Estado de ânimo (Salgado Maranhão - 1953)

meu coração é uma grande cidade
com seus engarrafamentos de concreto.

não há portas de emergência
para o que poderia ter sido.

falharam todos os despachos
falharam todos os medicamentos.

como um soldado no front
morro de assombração
diante do perigo.

e estou grávido de palavras.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Está o lascivo e doce passarinho (Camões - 1524 - 1580)

Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso, sem medida, alegre e brando,
espedindo no rústico raminho;

o cruel caçador (que do caminho
se vem calado e manso desviando)
na pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

Destarte o coração, que livre andava,
(posto que já de longe destinado)
onde menos temia, foi ferido.

Porque o Frecheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.

terça-feira, 2 de julho de 2013

No mundo quis um tempo que se achasse (Camões - 1524 - 1580)

No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.

Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O ouro do mais fundo está em ti (Hilda Hilst - 1930 - 2004)

O ouro do mais fundo está em ti.
Em mim, as coisas breves tomam corpo
E uma saga de bronze no meu ombro
A cada dia se transforma em chaga.
Um sol que se contrai sobre o meu rosto.
Aves de que não sei a sombra, vi-as
Na manhã quando o amor era chama
Mas num sopro perdi-as
E é grande agonia o que era gozo.
Guia-me em complacência. Que o instante
Não se afaste de mim, antes padeça
Desse meu existir e eu não me perca.