quarta-feira, 31 de julho de 2013

Coautoria (Millôr Fernandes - 1923 - 2012)

Há o escritor que acredita
que, bem, só ele é que leu
e repete a toda hora:
"O grifo é meu."

Não resiste à tentação
de tornar um pouco seu
o pensamento dos outros:
"O grifo é meu".

Achando-se bem mais profundo
do que o autor e do que eu,
ele diz, sempre que pode:
"O grifo é meu".

Seguro da descoberta
qual um novo Galileu
não contém o seu eureka:
"O grifo é meu".

terça-feira, 30 de julho de 2013

Poeminha incomparável (Millôr Fernandes - 1923 - 2012)

Ele é rico
Tem um dinheiro infinito
Tem conforto e paparico
Mora bonito
Não tem pressa
Nem é aflito
Vive à beça
Come do bom e do melhor
Faz tudo que pensa e quer
Conhece o mundo de cor
E pode escolher mulher.
Eu sou pobre,
Triste e feio,
Empate na vida
Coluna do meio
Perdi a corrida
Vivo com receio
Pois ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
De Baudelaire.
Mas se alguém acha
Que estou a fim
De trocar com ele:
Estou sim!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Meio assim (Chacal - 1951)

tava atrasado.
o metrô ia sair.
corri.
a porta se fechou.
metade de mim foi.
outra ficou.

uma que já era,
ficou mais ensimesmada.
olhando o relógio
falando no celular.

a outra, tagarela,
levantava leviana
a saia das moças,
uivando intempestiva.

se alguém
encontrar uma delas,
avise a outra.
eu vou ver
se estou na esquina.

domingo, 28 de julho de 2013

O poema digital (Chacal - 1951)

primeiro o poema nasce
como esse está nascendo agora.
não.
primeiro o poeta nasce.
e com ele a linguagem.
então, o poema nasce.
aqui nessa tela agora.
o poeta o articula
sai um barulho
ele harmoniza
abre uma janela:
entra um colibri
aí o músico, ai,
refaz o barulho
enfia uns bemóis
então vem a musa
num clic faz um clip.
onde tudo se funde
o ritmo no barulho
a cor na imagem
primeiro nasce o poema.

sábado, 27 de julho de 2013

Hoje (Solano Trindade - 1908 - 1974)

Hoje estou exuberante
estou poroso de poesia
como o liberto
recém saído da cadeia
eu canto
valorizo o sol
valorizo a chuva
valorizo o homem que passa
há uma graça em tudo
em tudo há uma graça
no colorido dos vestidos das mulheres
no andar das crianças
nas frutas das barracas
em tudo há uma graça
no jardim da praça
nas flores do jardim
Hoje estou exuberante
estou poroso de poesia...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Para que vim (Solano Trindade - 1908 - 1974)

Eu vim para cuidar de jardins
plantar coloridas flores
regá-las ao sair do sol
fazer lindos buquês
e ofertá-los
aos deuses
e às mulheres

Mas há ameaça de guerra
e os jardins não sobreviverão
ao fogo
então não cuidarei de jardins
não levarei flores aos deuses
nem às mulheres
pregarei a paz.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A primeira vez (Saulo Ramos - 1929)

Afinal deu-se comigo:
nasceu a orquídea no velho tronco,
floriu a hera no muro antigo.
Nem o pavor de ser ridículo
impede-me de amar,
pois é a primeira vez que amo
porque sinto o mesmo desassossegado susto
da primeira vez que amei.

Amar pela primeira vez agora
é igual a qualquer primeira vez antiga,
mas esta primeira vez, no fim da vida,
é a primeira vez mais querida,
parece mais do que as outras
e, pela primeira vez,
tenho a certeza, que me faltou antes,
a de ser esta a última primeira vez.