domingo, 8 de setembro de 2013

Costura (Ana Maria Lopes)

As palavras estão aí
estão soltas
à espera
de que alguém as emende
como uma colcha de retalhos
Elas precisam de costura
sem linha sem agulha
apenas agudez
esperteza de juntar
clareza de enxergar

Escrever é colchear.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sentimento do mundo (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1987)

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados

ao amanhecer esse amanhecer
mais noite que a noite.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tambores (Salgado Maranhão - 1953)

sou da terra
dos tambores que falam.
E guardo no corpo a memória
que acorda o silêncio.

eu vi a lua descer
para assistir minha mãe
dançar:

a camponesa que amava
latim.

eu vi a mão preta açoitar
o tambor; eu ouvi
roncar a madeira sagrada:

o rito da voz ancestral
antes do cogito e da parabólica.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Grão (Salgado Maranhão - 1953)

todas essas fábulas
que brincam em minha fala
passam pela boca do dragão.
levam-me ao rés do cais:
dentadas de sol na cara
pontos de cicatrizes.

todos esses séculos de não
que tento enfeitar com pérolas
com gemidos e tambores.

quem me conhece
sabe o meu labor
pra tirar do chão da dor
o simples grão que sou.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

À cidade da Bahia (Gregório de Matos - 1623 - 1696)

Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus, que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fôra de algodão o teu capote!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

o tal total (Geraldo Carneiro - 1952)

o amor é o tal total que move o mundo
a tal totalidade tautológica,
o como somos: nossos cromossomos
nos quais nunca se pertenceu ao nada:
só pertencemos ao tudo total
que nos absorve e sorve as nossas águas
e as nossas mágoas ficam revoando
como se revoltadas ao princípio,
àquele princípio originário
onde era Orfeu, onde era Prometeu,
e continua sendo sempre lá
o cais, o never more, o nunca mais,
o tal do és pó e ao pó retornarás

domingo, 1 de setembro de 2013

ilíada (Geraldo Carneiro - 1952)

nunca andei diante dos muros
de Troia
a não ser como parte do pensamento
de Zeus, que jamais dorme.
amei no entanto uma mulher que foi
morar do outro lado do Oceano
por quem chorei uns dois mediterrâneos
embora fosse um choro sem lágrimas.

não conheço a alegria do regresso.
meu coração perdeu todas as guerras.
meus navios partiram para nunca.
mas confio que os deuses são benignos
e os meus adeuses formam a cidade
em que ancorei meu barco:
e fico aqui na minha ilha-Ílion
enquanto eles desfilam em triunfo.