sábado, 7 de dezembro de 2013

As dádivas do amante (Carlos Pena Filho - 1929 - 1960)

Deu-lhe a mais limpa manhã
que o tempo ousara inventar.
Deu-lhe até a palavra lã,
e mais não podia dar.

Deu-lhe o azul que o céu possuía
deu-lhe o verde da ramagem,
deu-lhe o sol do meio dia
e uma colina selvagem.

Deu-lhe a lembrança passada
e a que ainda estava por vir,
deu-lhe a bruma dissipada
que conseguira reunir.

Deu-lhe o exato momento
em que uma rosa floriu
nascida do próprio vento;
ela ainda mais exigiu.

Deu-lhe uns restos de luar
e um amanhecer violento
que ardia dentro do mar.

Deu-lhe o frio esquecimento
e mais não podia dar.

Restos (Rubem Fonseca - 1925)

O garçom era um velho
habituado a ouvir as queixas dos fregueses
enquanto esperava
a aposentadoria e a morte.
Tinha um rosto branco
enrugado e triste.
Enquanto isso,
a freguesa da mesa da frente,
com ávida sensibilidade de radar,
corria o olhar de um lado para o outro,
procurando machos ainda curiosos
de sua beleza evanescente.
Quando saímos,
éramos os últimos,
uma fila disciplinada de fodidos
esperava os restos finais do dia.
Os restos dos restos
iriam depois para os cães
ainda mais famintos.
Era uma mulher magra
de lábios finos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

À garrafa (José Paulo Paes - 1926 - 1998)

Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.

Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.

Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,

numa explosão
de diamantes.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Culpado (Chacal - 1951)

foi mal lhe mal
tratei
como um tratante

mal educado
muito infeliz
pouco elegante

espero que
você me dê
mais uma chance

serei atento
a seu desejo
daqui em diante

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sócio do ócio (Chacal - 1951)

doce ociosidade
sacia minha sede de ser assim
largado no mundo caído na vida
terra mãe luz da manhã

doce sociedade ociosa sempre no cio
já aboliram a escravatura
pendure sua rede mate sua sede
de se espreguiçar

de volta ao princípio
onde o que come é comido
cru ou cozido
vou te devorar

viva nossa carne mortal
de partículas imortais
para pulsar
filhos do sol

até que se cumpra
nosso destino cósmico
sou sócio do ócio
eu sou

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Poemas portugueses 5 (Ferreira Gullar - 1930)

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo – deuses frágeis -
eu colho a ausência que me queima as mãos.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Téquinico (Glauco Mattoso - 1951)

Reflete a inflexão do X no verso,
contada como sílaba. Assim quis.
Portanto, o som dum ‘ex’ vale ‘equis’
no ritmo brasileiro em que converso.

Da mesma forma, é ‘ritimo adiverso’,
mas nunca ‘rimo averso’ que se diz.
Se for no meio termo, como fiz,
às vezes um ‘submerso’ é ‘subimerso’.

A decisão é minha, soberano
que sou do meu soneto, como um rei.
Aqui não dita o crítico Fulano.

Aqui nunca confesso quando errei;
apenas justifico meu engano,
pois quanto mais pratico, menos sei.