segunda-feira, 10 de março de 2014

Para ti (Mia Couto - 1955)

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

domingo, 9 de março de 2014

Poema de despedida (Mia Couto - 1955)

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

sábado, 8 de março de 2014

Penetração do Poema das Sete Faces (Elisa Lucinda - 1958)

A Carlos Drumond de Andrade

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Eu escrevi um poema triste (Mario Quintana - 1906 - 1994)

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

terça-feira, 4 de março de 2014

Canção (Cecília Meireles - 1901 - 1964)

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

domingo, 2 de março de 2014

De sonhos dados: neurônios (Thiago de Mello - 1926)

Não convém que a mente acesa
interfira além da conta
nem morda o sol da emoção.
O sentimento se encolhe
quando a inteligência alteia
a voz fria da ciência
cantando o poder da treva
em que se esconde a galáxia
de estrelas que vão nascer.

Na construção da poesia
o cérebro e o coração
trabalham de sonhos dados.
Quem foi que teve a coragem
de afirmar que a inteligência
não sente e que coração
não pensa?
Não é segredo:
no cerebelo residem
os instintos da razão.

O cérebro e o coração
se vigiam e se ajudam
quando o homem ama com arte.
Quem me conhece já sabe,
basta que eu mude de tom.
Convém contudo lembrar
o que faz tempo aprendi:
a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

sábado, 1 de março de 2014

Arde a flâmula (Thiago de Mello - 1926)

Entrei no tempo (as Escrituras dizem)
no qual somente enfados e canseiras
marcam a vida desde o amanhecer.

A Palavra me perdoe.
Chega aos setenta e ao poder
de infância que faz viver,

no milagre do meu dia,
a alegria de servir
a quem de amor carecia.

Levo, flâmula, a confiança
de que amor há de erguer
no chão do mundo: a utopia.