Acende a cor mediterrânea,
música para o latim.
Depois, rabisca um seio
de Medusa, inchado
na ponta da teta.
Lições de esgrima, para o jovem
nobre; e o calor da sela,
em dorso de cavalo escuro.
Seigneur, de afilado
traço (hebreu) de Ibéria,
bateu lâmina em lâmina
vencida, amou o jogo,
as damas e o amigo morto.
Foi diplomata, leitor
de Sêneca e Plutarco;
soube que o Esclesiastes
era um códice grego,
algo mais que escritura.
Estóico, serenou paixões,
recusou trovão e tumulto:
viu que a história
da miséria humana
é uma parcela do possível.
E soube em sua pele,
em seu sangue, filosofar
é aprendizado da morte.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
Acordar (Murilo Mendes - 1901 - 1975)
Passo a mão pela cabeça
A tempo de ver sumir a última estrela:
A manhã veste a camisa.
Levanto-me vacilando do leito-navio,
Primeiros pássaros oboés.
O monumento do Tempo
Avança feroz para mim.
Sou meu irmão, um homem
Que ainda não foi fuzilado.
Apalpo-me
Sou eu mesmo
Quase acordei.
A tempo de ver sumir a última estrela:
A manhã veste a camisa.
Levanto-me vacilando do leito-navio,
Primeiros pássaros oboés.
O monumento do Tempo
Avança feroz para mim.
Sou meu irmão, um homem
Que ainda não foi fuzilado.
Apalpo-me
Sou eu mesmo
Quase acordei.
O Monge Faz o Hábito (Mário Chamie - 1933)
O tecido entrecortado
do hábito
faz do monge
o avesso do ditado.
Não é o monge
que faz o hábito.
O monge
não é o hálito
que recria o incriado.
Mas se o monge
faz o hábito,
o hábito faz do monge
o hálito
de seu pecado.
Tudo raro e sempre claro:
na rima dessa esgrima
entre o monge
e o seu ditado,
seja aqui, seja lá ou seja longe,
sopra o hálito do diabo:
- ou o hábito é o tecido
que tece o monge;
ou o monge é o vestido
que veste hábito.
do hábito
faz do monge
o avesso do ditado.
Não é o monge
que faz o hábito.
O monge
não é o hálito
que recria o incriado.
Mas se o monge
faz o hábito,
o hábito faz do monge
o hálito
de seu pecado.
Tudo raro e sempre claro:
na rima dessa esgrima
entre o monge
e o seu ditado,
seja aqui, seja lá ou seja longe,
sopra o hálito do diabo:
- ou o hábito é o tecido
que tece o monge;
ou o monge é o vestido
que veste hábito.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Solidão de Rei e de Súdito (Mário Chamie - 1933)
A solidão de um rei
é o usufruto
de tudo.
Não é como
a perda e o luto
na solidão de um súdito.
Se só, o rei sopra
o ouro em pó
do luxo
e faz da solidão
o ouro
de seu refúgio.
Não há razão
para um rei recluso
perder-se amargo
entre o favo
e o travo
de suas flores e frutos.
A solidão de um rei
não é como
a solidão de um súdito.
O súdito, se só,
perde o usufruto de tudo
e, escuso,
rói o próprio osso
no poço
do próprio túmulo.
é o usufruto
de tudo.
Não é como
a perda e o luto
na solidão de um súdito.
Se só, o rei sopra
o ouro em pó
do luxo
e faz da solidão
o ouro
de seu refúgio.
Não há razão
para um rei recluso
perder-se amargo
entre o favo
e o travo
de suas flores e frutos.
A solidão de um rei
não é como
a solidão de um súdito.
O súdito, se só,
perde o usufruto de tudo
e, escuso,
rói o próprio osso
no poço
do próprio túmulo.
sábado, 26 de abril de 2014
Metade pássaro (Murilo Mendes - 1901 - 1975)
A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
O assinalado (Cruz e Sousa - 1861 - 1898)
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tua alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas pouco a pouco.
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tua alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas pouco a pouco.
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Sertânica 2 (Salgado Maranhão - 1953)
meu boi está vivo
em mim,
na ciência de esperar,
no mugir sob os mourões;
meu boi já virou folia,
fugiu para o pasto
misturado aos aboios
e ao ganir dos cachorros.
deixou-me apenas o nome
nas marcas do ferrador:
esta fúria sem revanche
feita de canga e "sim senhor".
em mim,
na ciência de esperar,
no mugir sob os mourões;
meu boi já virou folia,
fugiu para o pasto
misturado aos aboios
e ao ganir dos cachorros.
deixou-me apenas o nome
nas marcas do ferrador:
esta fúria sem revanche
feita de canga e "sim senhor".
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