É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar.
domingo, 12 de outubro de 2014
sábado, 11 de outubro de 2014
Brasil (Miguel Torga - 1907 - 1995)
Brasil onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!
Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.
Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Ente o chão encontrado e o chão perdido.
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!
Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.
Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Ente o chão encontrado e o chão perdido.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Frustração (Miguel Torga - 1907 - 1995)
Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
A ela outra vez (Abgar Renault - 1901 - 1995)
Como é duro esperar-te, sem querer-te,
na solidão de seitas e esperanças!
Pensar em ti assola a minha vida,
destrói raízes, folhas, flores, frutos
e fecha os mais próximos horizontes,
lembrando a cada passo e a cada gesto
a gruta de ursos e de surdos-mudos.
Eu temo os teus anúncios sem palavras,
teus passos de silêncio, sombra ou treva,
teu relógio tranquilo e a foice mágica
por ele comandada noite e dia;
temo, nulo, o desfecho do teu golpe
que dilacerará meu mapa triste,
no qual não vejo como caminhar,
mas procuro, com os olhos e com as unhas,
um buraco de nada que me oculte
do poderio do teu faro e mão.
Como, quando e em que rápido motor
viajará e certeira me acharás
não sei: somente sei que o teu olhar
me ferirá de súbito e infalível
e não tenho nem forças, nem enganos
para esperar-te aqui, aquém, além,
entre estes livros ou naquela cama,
assentado ou de pé, fazendo a barba
ou bêbado e escondido como um rato.
na solidão de seitas e esperanças!
Pensar em ti assola a minha vida,
destrói raízes, folhas, flores, frutos
e fecha os mais próximos horizontes,
lembrando a cada passo e a cada gesto
a gruta de ursos e de surdos-mudos.
Eu temo os teus anúncios sem palavras,
teus passos de silêncio, sombra ou treva,
teu relógio tranquilo e a foice mágica
por ele comandada noite e dia;
temo, nulo, o desfecho do teu golpe
que dilacerará meu mapa triste,
no qual não vejo como caminhar,
mas procuro, com os olhos e com as unhas,
um buraco de nada que me oculte
do poderio do teu faro e mão.
Como, quando e em que rápido motor
viajará e certeira me acharás
não sei: somente sei que o teu olhar
me ferirá de súbito e infalível
e não tenho nem forças, nem enganos
para esperar-te aqui, aquém, além,
entre estes livros ou naquela cama,
assentado ou de pé, fazendo a barba
ou bêbado e escondido como um rato.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Desintegração (Abgar Renault - 1901 - 1995)
Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer...
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação.
Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.
Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sub-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo...
Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.
Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita! Tenho o coração cheio de coisas para dizer...
Eu estou vivo, Senhor! mas, em verdade, é como se estivesse morto.
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação.
Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.
Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sub-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo...
Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.
Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita! Tenho o coração cheio de coisas para dizer...
Eu estou vivo, Senhor! mas, em verdade, é como se estivesse morto.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Fim (Abgar Renault - 1901 - 1995)
O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.
O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.
E dói - não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora,
- flor de momento numa bela aurora -
hora longínqua, esquiva e para sempre morte,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olham cegamente vagam.
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.
O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.
E dói - não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora,
- flor de momento numa bela aurora -
hora longínqua, esquiva e para sempre morte,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olham cegamente vagam.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Antecipação (Murilo Mendes - 1901 - 1975)
Os outros que lutem para possuir o mundo.
Quanto a mim, quero te ver face a face.
Aguardo tua última vinda,
Minha forma definitiva e perfeita,
Minha justificação na tua unidade.
Estás em mim, mas ainda não te vejo:
Só vejo com os olhos do sangue.
Cai, mundo que herdei segundo a carne!
No fim de tudo abraçarei o Verbo
Que contém minhas formosas ascendentes,
Que me contém, contém a musa
E todas as gerações da musa, desde o princípio.
Quanto a mim, quero te ver face a face.
Aguardo tua última vinda,
Minha forma definitiva e perfeita,
Minha justificação na tua unidade.
Estás em mim, mas ainda não te vejo:
Só vejo com os olhos do sangue.
Cai, mundo que herdei segundo a carne!
No fim de tudo abraçarei o Verbo
Que contém minhas formosas ascendentes,
Que me contém, contém a musa
E todas as gerações da musa, desde o princípio.
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