Separada da tua sorte, desde muito,
trago junto da manhã
teus olhos estrangeiros e assustados.
Todo retrato que defendo para mim.
Num segundo meio deslocado
da nossa espera sem-razão, adiante,
te verei mulher de uma clareza expandida
que me confundirá.
Vejo estes silvestres para que eu não te duvide
quando surgires entre eles e eu te redescobrir.
Tua boca não é essa, não é como nenhuma,
a tua boca é só a tua
e os olhos que eu lembro,
não os mais belos, não os mais quentes,
são o teu brilho triste de ser, tua síntese azul.
E quando vieres, eu te pergunto,
serás quem eu lembro?
Luto, emboscada, revolta italiana,
ou terás merecido os outros
que me põem muito medo
por seus caminhos hesitantes, suas armadilhas?...
Organizo aquela mesma menina
jogando o cabelo louro para trás
e peço repetidamente
que sejas ela quando vieres,
que eu sorria, quando vieres,
como outra criança que te fizesse festa.
Alguma saudação calada entre a gente
de improviso vai lembrar e esquecer
o peso obrigatório dos dias.
Adiante, surgiremos desvelando nosso próprio susto.
Agora vem, que está feita a minha prece.
domingo, 30 de novembro de 2014
sábado, 29 de novembro de 2014
Pântano (Mariana Ianelli - 1979)
Haverá uma noite
No fundo desta lama
Para tudo o que foi teu:
O caminho de partida,
O horizonte das bandeiras,
O extraordinário ano de 1980.
Entre guelras e barbatanas,
No ventre de uma água sonolenta,
O castelo de tua memória se acende.
Ressurge um alto portão de madeira,
De longe brilha a pesada maçaneta,
Cresce para baixo o tronco do velho castanheiro.
No escuro passeia o teu amigo inexistente,
Deitam-se juntas as tuas amantes insatisfeitas,
Do topo de uma escada o teu filho te acena.
Os muros contornados e logo desconhecidos,
As alamedas visitadas e já desaparecidas
Formarão ali tua cidade secreta e sem fronteiras.
O retorno para casa como se para um cativeiro,
Toda vacuidade do suplício e do desejo,
Um gemido de orgasmo reboando no silêncio:
Tudo o que foi teu renascerá
No pântano de uma noite derradeira
Para além do tempo do esquecimento.
No fundo desta lama
Para tudo o que foi teu:
O caminho de partida,
O horizonte das bandeiras,
O extraordinário ano de 1980.
Entre guelras e barbatanas,
No ventre de uma água sonolenta,
O castelo de tua memória se acende.
Ressurge um alto portão de madeira,
De longe brilha a pesada maçaneta,
Cresce para baixo o tronco do velho castanheiro.
No escuro passeia o teu amigo inexistente,
Deitam-se juntas as tuas amantes insatisfeitas,
Do topo de uma escada o teu filho te acena.
Os muros contornados e logo desconhecidos,
As alamedas visitadas e já desaparecidas
Formarão ali tua cidade secreta e sem fronteiras.
O retorno para casa como se para um cativeiro,
Toda vacuidade do suplício e do desejo,
Um gemido de orgasmo reboando no silêncio:
Tudo o que foi teu renascerá
No pântano de uma noite derradeira
Para além do tempo do esquecimento.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Minha vida foi isso o tempo todo (Mário Lago)
Recomeçar ainda que partido;
Refazer o horizonte a cada passo;
Buscar razões no que perdeu sentido;
Mover-me sempre, embora o pouco espaço;
Compreender todas as vozes mudas,
Perdido entre o não dito e o não pensado;
Procurar no vazio alguma ajuda;
Repisar mil caminhos já pisados;
Falar sem nunca ter ouvido um grito
De aplauso, de protesto ou xingamento;
Pensar que era de céu o chão de lodo;
Os pés na terra, os olhos no infinito.
Sonhando estar lá longe o meu momento...
Minha vida foi isso o tempo todo.
Refazer o horizonte a cada passo;
Buscar razões no que perdeu sentido;
Mover-me sempre, embora o pouco espaço;
Compreender todas as vozes mudas,
Perdido entre o não dito e o não pensado;
Procurar no vazio alguma ajuda;
Repisar mil caminhos já pisados;
Falar sem nunca ter ouvido um grito
De aplauso, de protesto ou xingamento;
Pensar que era de céu o chão de lodo;
Os pés na terra, os olhos no infinito.
Sonhando estar lá longe o meu momento...
Minha vida foi isso o tempo todo.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
O amor é a vida (Mário Lago)
Mais de um amor numa vida
É muito fácil de ter
A dor de amor é esquecida
Talvez nem chegue a doer
Mesmo se o fim é tristeza
Vazio no coração
No fim só fica a beleza
De uma bonita paixão
E embora o amor destruído
E o tanto que se sofreu
O tempo não foi perdido
A gente é que se perdeu
É muito fácil de ter
A dor de amor é esquecida
Talvez nem chegue a doer
Mesmo se o fim é tristeza
Vazio no coração
No fim só fica a beleza
De uma bonita paixão
E embora o amor destruído
E o tanto que se sofreu
O tempo não foi perdido
A gente é que se perdeu
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Três coisas (Mário Lago)
Pra mim três coisas no mundo
Valem bem mais do que o resto.
Pra defender qualquer delas
Eu mostro o quanto que presto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o grito, é o passo, é o gesto.
O gesto é a voz do proibido
Escritasem deixar traço.
Chama, ordena, empurra, assusta.
Vai longe com pouco espaço.
É o passo, é o gesto, é o grito,
É o gesto, é o grito, é o passo.
O passo começa o vôo
Que vai do chão pro infinito.
Pra mim, que amo estrada aberta,
Quem prende o passo é maldito.
É o grito, é o passo, é o gesto,
É o passo, é o gesto, é o grito.
O grito explode o protesto
Se a boca não tem espaço
Que guarde o que há pra ser dito
No grito, no passo e gesto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o passo, é o gesto, é o grito.
Valem bem mais do que o resto.
Pra defender qualquer delas
Eu mostro o quanto que presto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o grito, é o passo, é o gesto.
O gesto é a voz do proibido
Escritasem deixar traço.
Chama, ordena, empurra, assusta.
Vai longe com pouco espaço.
É o passo, é o gesto, é o grito,
É o gesto, é o grito, é o passo.
O passo começa o vôo
Que vai do chão pro infinito.
Pra mim, que amo estrada aberta,
Quem prende o passo é maldito.
É o grito, é o passo, é o gesto,
É o passo, é o gesto, é o grito.
O grito explode o protesto
Se a boca não tem espaço
Que guarde o que há pra ser dito
No grito, no passo e gesto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o passo, é o gesto, é o grito.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Bilhete em caráter de urgência (Mário Lago)
Homem, eu não te peço
Que leves a vida inteira
Me olhando, me admirando,
Me chamando de alegria,
Me tratando de rainha,
Dizendo pra toda gente
Que eu enfeito a tua casa,
Que te sirvo de paisagem,
Que sou teu sal e teu sol.
Homem, eu só te peço
Algum cuidado e respeito,
Não porque seja rainha
Ou melhor que qualquer outra.
Apenas porque sou vida.
Vida pra ser defendida
Como a tua e mais de vidas
Homem
Não me sangres nem permita
Que me sangrem
Homem
Apenas porque sou vida como a tua
Homem
Vida pra ser defendida como a tua
Que leves a vida inteira
Me olhando, me admirando,
Me chamando de alegria,
Me tratando de rainha,
Dizendo pra toda gente
Que eu enfeito a tua casa,
Que te sirvo de paisagem,
Que sou teu sal e teu sol.
Homem, eu só te peço
Algum cuidado e respeito,
Não porque seja rainha
Ou melhor que qualquer outra.
Apenas porque sou vida.
Vida pra ser defendida
Como a tua e mais de vidas
Homem
Não me sangres nem permita
Que me sangrem
Homem
Apenas porque sou vida como a tua
Homem
Vida pra ser defendida como a tua
domingo, 23 de novembro de 2014
Embora você não creia (Mário Lago)
Embora você não creia
Não custa nada espiar
O amor que escrevi na areia
Nem o mar pode apagar
Veio quieto... Veio mudo
Me enredou em sua teia
Amo você mais que tudo
Embora você não creia
O meu peito é livro aberto
Sem folhas pra se rasgar
Você não crê?... Chegue perto
Não custa nada espiar
Mas chegue sem muita pressa
Se não você se incendeia
Pois no fogo é que começa
O amor que escrevi na areia
Paixão e sangue nas veias
Fizeram do meu cantar
Rimas que são das sereias...
Nem o mar pode apagar
Não custa nada espiar
O amor que escrevi na areia
Nem o mar pode apagar
Veio quieto... Veio mudo
Me enredou em sua teia
Amo você mais que tudo
Embora você não creia
O meu peito é livro aberto
Sem folhas pra se rasgar
Você não crê?... Chegue perto
Não custa nada espiar
Mas chegue sem muita pressa
Se não você se incendeia
Pois no fogo é que começa
O amor que escrevi na areia
Paixão e sangue nas veias
Fizeram do meu cantar
Rimas que são das sereias...
Nem o mar pode apagar
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