O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
domingo, 14 de dezembro de 2014
A turma (Manoel de Barros - 1916 - 2014)
A gente foi criado no ermo igual ser pedra.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens.
Bernardo conversava pedrinhas com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
infantis gerava mais poesia do que obedecer as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços
beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens.
Bernardo conversava pedrinhas com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
infantis gerava mais poesia do que obedecer as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços
beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Prova (Adriano Nunes)
Suponho que saberia
Apenas isso: que isso
Ser pode aquilo e
Que aquilo pode ser isso
Quando convir
Ou for preciso.
Logo te digo:
O que sei é que é possível
Tudo no infindo
Espaço da poesia.
Não vês os dragões azuis saindo
Do decassílabo,
Enfeitado de resquícios
De versos de Horácio e Ovídio,
Porque amas os seus ritmos,
Não vês grãs tigres
Saltando, já, sobre as rimas
Toantes que construí
Só para ti?
Não vês libélulas lindas
Levando-te, com capricho
E amor, num rito,
Sóis, crisântemos e lírios,
Nas maiores redondilhas?
Sim, acredita,
Na quadra finda
Em quatro sílabas
Bem cabe a vida.
Apenas isso: que isso
Ser pode aquilo e
Que aquilo pode ser isso
Quando convir
Ou for preciso.
Logo te digo:
O que sei é que é possível
Tudo no infindo
Espaço da poesia.
Não vês os dragões azuis saindo
Do decassílabo,
Enfeitado de resquícios
De versos de Horácio e Ovídio,
Porque amas os seus ritmos,
Não vês grãs tigres
Saltando, já, sobre as rimas
Toantes que construí
Só para ti?
Não vês libélulas lindas
Levando-te, com capricho
E amor, num rito,
Sóis, crisântemos e lírios,
Nas maiores redondilhas?
Sim, acredita,
Na quadra finda
Em quatro sílabas
Bem cabe a vida.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
O martelo (Manuel Bandeira - 1886 - 1968)
As rodas rangem na curva
dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu
naufrágio
Os elementos mais
cotidianos.
O meu quarto resume o
passado em todas as casas
que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de
pomba.
Sei que amanhã quando
acordar
Ouvirei o martelo do
ferreiro
Bater corajoso o seu
cântico de certezas.
dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu
naufrágio
Os elementos mais
cotidianos.
O meu quarto resume o
passado em todas as casas
que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de
pomba.
Sei que amanhã quando
acordar
Ouvirei o martelo do
ferreiro
Bater corajoso o seu
cântico de certezas.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Pai (Eucanaã Ferraz - 1961)
No chão tenro do Rio,
misto de areia e restos de alagadiços,
pus teu corpo
triturado,
limalha da velha Minas, ímã
que já não prendia nenhuma alma.
Pus ao pé de uma árvore,
perto do mar,
teu corpo moído, pesado, que
parecia um punhado de conchas
que se macerou insistente,
violentamente.
O chão do Rio ganhou mais peso,
outra geologia.
misto de areia e restos de alagadiços,
pus teu corpo
triturado,
limalha da velha Minas, ímã
que já não prendia nenhuma alma.
Pus ao pé de uma árvore,
perto do mar,
teu corpo moído, pesado, que
parecia um punhado de conchas
que se macerou insistente,
violentamente.
O chão do Rio ganhou mais peso,
outra geologia.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Figura III (Eucanaã Ferraz)
Ainda sobre a cômoda,
colhidas há pouco,
esperam.
Que nome o delas?
Goivos, cravos, narcisos,
gardênias, junquilhos?
Venham a água
e o vaso – esperam.
Serenamente. A urgência
pode ser assim, macia.
O amarelo tem sede.
colhidas há pouco,
esperam.
Que nome o delas?
Goivos, cravos, narcisos,
gardênias, junquilhos?
Venham a água
e o vaso – esperam.
Serenamente. A urgência
pode ser assim, macia.
O amarelo tem sede.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Estrela da Terra (Mariana Ianelli - 1979)
Jóia do absurdo
Esta flor imaginada
Dentro do teu sonho de menino.
Uma ilusão querer guardá-la para sempre:
Quando chegar o sol das almas deste inverno,
Será o fim do tempo de raízes.
Pétala o que em ti germina,
Resplandece e perde o viço.
Pétala para tudo que é finito.
Pela futura celebração da memória,
Pelo que, um dia, sem explicação, termina.
Pétala para que tu sejas grato ao que há de vir.
O amor se apressa, se desespera,
Trágico de tanta alegria.
Por ele surge o escarlate
E o lastro de estandarte sob a terra.
Por ele se abre e se desfolha a tua rosa
No vento arauto das despedidas.
Esta flor imaginada
Dentro do teu sonho de menino.
Uma ilusão querer guardá-la para sempre:
Quando chegar o sol das almas deste inverno,
Será o fim do tempo de raízes.
Pétala o que em ti germina,
Resplandece e perde o viço.
Pétala para tudo que é finito.
Pela futura celebração da memória,
Pelo que, um dia, sem explicação, termina.
Pétala para que tu sejas grato ao que há de vir.
O amor se apressa, se desespera,
Trágico de tanta alegria.
Por ele surge o escarlate
E o lastro de estandarte sob a terra.
Por ele se abre e se desfolha a tua rosa
No vento arauto das despedidas.
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