Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Linhas paralelas (Murilo Mendes - 1901 - 1975)
Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada para lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada para lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Meu epitáfio (Cora Coralina - 1889 - 1995)
Morta... serei árvore
Serei tronco, serei/ronde
E minhas raízes
Enlaçadas às pedras de meu berço
São as cordas que brotam de uma lira
Enfeitei de
Olhos verdes
Apedra de meu túmulo
Num simbolismo
De vida vegetal
Não morre aquele
Que deixou na terra
A melodia de seu canto
Na música de seu verso.
Serei tronco, serei/ronde
E minhas raízes
Enlaçadas às pedras de meu berço
São as cordas que brotam de uma lira
Enfeitei de
Olhos verdes
Apedra de meu túmulo
Num simbolismo
De vida vegetal
Não morre aquele
Que deixou na terra
A melodia de seu canto
Na música de seu verso.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Rumos errados (Cora Coralina - 1889 - 1985)
A caminhada ...
Amassando a terra.
Carreando pedras.
Construindo com as mãos
sangrando
a minha vida.
Deserta a longa estrada.
Mortas as mãos viris
que se estendiam às minhas.
Dentro da mata bruta
leiteando imensos vegetais,
cavalgando o negro corcel da febre,
desmontado para sempre.
Passa a falange dos mortos ...
Silêncio! Os namorados dormem.
Os poetas cobriram as liras.
Flutuam véus roxos
no espaço.
Amassando a terra.
Carreando pedras.
Construindo com as mãos
sangrando
a minha vida.
Deserta a longa estrada.
Mortas as mãos viris
que se estendiam às minhas.
Dentro da mata bruta
leiteando imensos vegetais,
cavalgando o negro corcel da febre,
desmontado para sempre.
Passa a falange dos mortos ...
Silêncio! Os namorados dormem.
Os poetas cobriram as liras.
Flutuam véus roxos
no espaço.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Toda palavra (Viviane Mosé)
Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Vidência (Alexei Bueno - 1963)
Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!
Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa
Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro
Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!
Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa
Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro
Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Intimidade (Alexei Bueno - 1963)
Caros mortos do Rio de Janeiro,
Quando eu ando nas ruas em que andastes
Não são meus olhos tão somente engastes
Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?
Estar vivo, este fato, não é um só
E mesmo, se se exclui cenário e nome?
Não é a mesma uma boca quando come
E dois pés na calçada erguendo o pó?
Não será isso enfim a vida eterna,
Livrar-se da memória e andar nas ruas?
Ser só olhos com pés, as íris nuas
De tudo o que das horas nos governa?
Não morremos? Talvez nunca tenhamos
Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.
O que é o agora? O que é? Como está cheio
Este jardim deserto onde uivam ramos.
Quando eu ando nas ruas em que andastes
Não são meus olhos tão somente engastes
Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?
Estar vivo, este fato, não é um só
E mesmo, se se exclui cenário e nome?
Não é a mesma uma boca quando come
E dois pés na calçada erguendo o pó?
Não será isso enfim a vida eterna,
Livrar-se da memória e andar nas ruas?
Ser só olhos com pés, as íris nuas
De tudo o que das horas nos governa?
Não morremos? Talvez nunca tenhamos
Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.
O que é o agora? O que é? Como está cheio
Este jardim deserto onde uivam ramos.
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