segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Chegando em casa (Affonso Romano de Sant'Anna - 1937)

Chegando em casa
com a alma amarfanhada
e escura
das refregas burocráticas
leio sobre a mesa
um bilhete que dizia:

- hoje 22 de agosto de 1994
meu marido perdeu, deste terraço:

mais um pôr de sol no Dois Irmãos
o canto de um bem-te-vi
e uma orquídea que entardecia
sobre o mar.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Nada foi feito que revivesse a coisa morta (Mariana Ianelli - 1979)


Nada foi feito que revivesse a coisa morta,
Mas no rosto do amante solitário
Uma tarde despontou dentre milhares
E quis do homem o seu prazer intenso
De sonhar o mesmo vulto sobre a cama,
O mesmo vínculo que se estabeleceu
Para ser rompido como os que o antecederam
E os que viriam raramente depois dele.
Cindiu a indiferença dos anos e voltou
Com sua fome, seu poder ambíguo de encantar
Pela eternidade do instante que floresce
Apenas quando a melancolia de tê-lo perdido
Também volta, agora com toda a sua beleza visionária.
Uma tarde cuja manhã já se esqueceu
No traço de tantas iguais que vêm e passam
Como para só cumprir o ato necessário;
Uma tarde cuja noite se tornou algum resíduo amortalhado.
Estava ilhada, suspensa no fluxo do tempo,
Era a relíquia do amante, e era o seu trauma.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

As três parcas (Sophia de Mello Breyner Andresen - 1919 - 2004)

As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Nirvana (Antero de Quental - 1842 - 1891)

Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,

À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Domingo (Olavo Bilac - 1865 - 1918)

Domingo... Os sinos repicam
Na igreja, constantemente,
E todas as ruas ficam
Alegres, cheias de gente.

Todo um dia de ventura...
Como o domingo seduz!
O homem, cansado, procura
Ter paz, ter ar, e ter luz.

Paradas e sem trabalho,
Dormem na roça as enxadas;
Dormem a bigorna e o malho
Nas oficinas fechadas.

Também, meninos cansados,
Os vossos livros deixai!
Deixai lições e ditados!
Dormi! Sorri! Cantai!

Fechem-se as aulas! e o bando
Ruidoso das criancinhas
Livre se espalhe, voando,
Como um bando de andorinhas!

Deus, quando o mundo fazia,
Sete dias trabalhou,
E ao fim do sétimo dia
Do trabalho descansou...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A madrugada (Olavo Bilac - 1865 - 1918)

Os pássaros, que dormiam
Nas árvores orvalhadas,
Já a alvorada anunciam
No silêncio das estradas.

As estrelas, apagando
A luz com que resplandecem,
Vão tímidas vacilando
Até que desaparecem.

Deste lado do horizonte,
Numa névoa luminosa,
O céu, por cima do monte,
Fica todo cor-de-rosa;

Daí a pouco, inflamado
Numa claridade intensa,
Se desdobra avermelhado,
Como uma fogueira imensa.

Os galos, batendo as asas,
Madrugadores, já cantam;
Já há barulho nas casas,
Já os homens se levantam,

O lavrador pega a enxada,
Mugem os bois à porfia;
— É a hora da madrugada
Saudai o nascer do dia!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A boneca (Olavo Bilac - 1865 - 1918)

Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
- "É minha!", a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A mesa (João Cabral de Melo Neto - 1920 - 1999)

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresca como o pão.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O doce (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1987)

A boca aberta para o doce
já prelibando a gostosura,
e o doce cai no chão de areia, droga!

Olha em redor. Os outros viram.
Logo aquele doce cobiçado
a semana inteira, e pago do seu bolso!
Irá deixá-lo ali, só porque os outros
estão presentes, vigilantes?

A mão se inclina, pega o doce, limpa-o
de toda areia e mácula do chão.
"Se fosse em casa eu não pegava, não,
mas aqui no colégio, que mal faz?"

domingo, 11 de janeiro de 2015

Poema que aconteceu (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1987)

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Linhas paralelas (Murilo Mendes - 1901 - 1975)

Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada para lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Meu epitáfio (Cora Coralina - 1889 - 1995)

Morta... serei árvore
Serei tronco, serei/ronde
E minhas raízes
Enlaçadas às pedras de meu berço
São as cordas que brotam de uma lira

Enfeitei de
Olhos verdes
Apedra de meu túmulo
Num simbolismo
De vida vegetal

Não morre aquele
Que deixou na terra
A melodia de seu canto
Na música de seu verso.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Rumos errados (Cora Coralina - 1889 - 1985)

A caminhada ...
Amassando a terra.
Carreando pedras.
Construindo com as mãos
sangrando
a minha vida.

Deserta a longa estrada.
Mortas as mãos viris
que se estendiam às minhas.
Dentro da mata bruta
leiteando imensos vegetais,
cavalgando o negro corcel da febre,
desmontado para sempre.

Passa a falange dos mortos ...
Silêncio! Os namorados dormem.
Os poetas cobriram as liras.
Flutuam véus roxos
no espaço.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Toda palavra (Viviane Mosé)

Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.  
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Vidência (Alexei Bueno - 1963)

Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!

Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa

Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro

Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Intimidade (Alexei Bueno - 1963)

Caros mortos do Rio de Janeiro,
Quando eu ando nas ruas em que andastes
Não são meus olhos tão somente engastes
Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?

Estar vivo, este fato, não é um só
E mesmo, se se exclui cenário e nome?
Não é a mesma uma boca quando come
E dois pés na calçada erguendo o pó?

Não será isso enfim a vida eterna,
Livrar-se da memória e andar nas ruas?
Ser só olhos com pés, as íris nuas
De tudo o que das horas nos governa?

Não morremos? Talvez nunca tenhamos
Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.
O que é o agora? O que é? Como está cheio
Este jardim deserto onde uivam ramos.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Moto perpetuo (Alexei Bueno - 1963)

      Todo poema
É o último do mundo.
A tentativa extrema,
O crucial segundo.

Por fim, escrito,
Pétreo, coagulado,
As larvas do não dito
Postam-se a cada lado.

E tudo é falta.
A fonte exige a bilha
Sem fundo, e eis nos assalta
A horrenda maravilha.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ao menos (Alexei Bueno - 1963)

As vidas passadas
Talvez tenham tido
Grandes madrugadas
Com maior sentido
Do que os nossos nadas.

Mas em nós saltita
Seco, o coração,
Esponja maldita
A se inflar num vão
Onde ninguém fita.

A pular vermelha,
A encolher-se langue,
Suja bomba velha
Bêbada de sangue
Que só o nada espelha.

Que se estique e encolha
Até a hora em que estoure,
Ridícula bolha
Sem um só que a chore,
Sem quem a recolha.

E então tombe gorda
Dentro de si mesma,
Brinquedo sem corda,
Ressecada lesma
Que já nada acorda.

E ali, sem mais ânsia,
Imprestável odre,
Suma na distância,
Sem a dança podre
Que fez desde a infância.

Mas de ao menos nós
Que o sofremos tanto,
Que ele deixe após
Tanto pranto e espanto
Viva a nossa voz.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Trajetória (Alexei Bueno - 1963)

Onipresente
Melancolia
Que entre a alegria
Sorris prudente.
 
Sombra latente
À luz do dia,
Mudez sombria
Que o som pressente.
 
Por te vencermos
Percorreremos
Longínquos ermos,
 
Lá dançaremos
E expiraremos
Sem te esquecermos.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Arco (Vera Pedrosa - 1936)

há uma direção
agora
árvores se reúnem
sons de água
configuram-se

de onde voltamos
o rio desce
entre rochas
pousa em bacias
escapa entre falhas
detém-se em lajes
desce entre lírios
o basalto o escurece
poeira de ouro
em suas areias
cipoais
perturbam-lhe o contorno

quanto ao moço
nele se amava
o desejo de tudo
quando parado na pedra
o mergulho e
quando nadava
lentamente

de onde voltávamos
flores se interpunham
nos caminhos
mas era como se um arco ardesse
ante o olhar entre os ânimos

o rio desce
e quem se descobre
nas águas velozes
distantes

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