sábado, 24 de janeiro de 2015

Nada foi feito que revivesse a coisa morta (Mariana Ianelli - 1979)


Nada foi feito que revivesse a coisa morta,
Mas no rosto do amante solitário
Uma tarde despontou dentre milhares
E quis do homem o seu prazer intenso
De sonhar o mesmo vulto sobre a cama,
O mesmo vínculo que se estabeleceu
Para ser rompido como os que o antecederam
E os que viriam raramente depois dele.
Cindiu a indiferença dos anos e voltou
Com sua fome, seu poder ambíguo de encantar
Pela eternidade do instante que floresce
Apenas quando a melancolia de tê-lo perdido
Também volta, agora com toda a sua beleza visionária.
Uma tarde cuja manhã já se esqueceu
No traço de tantas iguais que vêm e passam
Como para só cumprir o ato necessário;
Uma tarde cuja noite se tornou algum resíduo amortalhado.
Estava ilhada, suspensa no fluxo do tempo,
Era a relíquia do amante, e era o seu trauma.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

As três parcas (Sophia de Mello Breyner Andresen - 1919 - 2004)

As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Nirvana (Antero de Quental - 1842 - 1891)

Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,

À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Domingo (Olavo Bilac - 1865 - 1918)

Domingo... Os sinos repicam
Na igreja, constantemente,
E todas as ruas ficam
Alegres, cheias de gente.

Todo um dia de ventura...
Como o domingo seduz!
O homem, cansado, procura
Ter paz, ter ar, e ter luz.

Paradas e sem trabalho,
Dormem na roça as enxadas;
Dormem a bigorna e o malho
Nas oficinas fechadas.

Também, meninos cansados,
Os vossos livros deixai!
Deixai lições e ditados!
Dormi! Sorri! Cantai!

Fechem-se as aulas! e o bando
Ruidoso das criancinhas
Livre se espalhe, voando,
Como um bando de andorinhas!

Deus, quando o mundo fazia,
Sete dias trabalhou,
E ao fim do sétimo dia
Do trabalho descansou...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A madrugada (Olavo Bilac - 1865 - 1918)

Os pássaros, que dormiam
Nas árvores orvalhadas,
Já a alvorada anunciam
No silêncio das estradas.

As estrelas, apagando
A luz com que resplandecem,
Vão tímidas vacilando
Até que desaparecem.

Deste lado do horizonte,
Numa névoa luminosa,
O céu, por cima do monte,
Fica todo cor-de-rosa;

Daí a pouco, inflamado
Numa claridade intensa,
Se desdobra avermelhado,
Como uma fogueira imensa.

Os galos, batendo as asas,
Madrugadores, já cantam;
Já há barulho nas casas,
Já os homens se levantam,

O lavrador pega a enxada,
Mugem os bois à porfia;
— É a hora da madrugada
Saudai o nascer do dia!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A boneca (Olavo Bilac - 1865 - 1918)

Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
- "É minha!", a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A mesa (João Cabral de Melo Neto - 1920 - 1999)

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresca como o pão.