terça-feira, 15 de abril de 2014

Anoitecer (Florbela Espanca - 1894 - 1930)

A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui...outr'ora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bençãos d'amor para toda a gente!
E a minha alma sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora...

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Tenho saudades de uma dama (Carlos Drummond de Andrade - 1902 - 1987)

Tenho saudades de uma dama
como jamais houve na cama
outra igual, e mais terna amante.

Não era sequer provocante.
Provocada, como reagia!
São palavras só: quente, fria.

No banheiro nos enroscávamos.
Eram flamas no preto favo,
um guaiar, um matar-morrer.

Tenho saudades de uma dama
que me passeava na medula
e atomizava os pés da cama.

domingo, 13 de abril de 2014

Menos a mim (Ferreira Gullar - 1930)

Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.

sábado, 12 de abril de 2014

A verdade da vida (Thiago de Mello - 1926)

Moça do vento, menina da luz,
tua paz me penetrou
como uma estrela nascendo
para cantar o meu nome.
Hoje no sol do pleno meio-dia
aprendi a soletrar meu próprio nome
pronunciado pela tua boca.
Num instante fugaz
descobri que existe a eternidade. Nunca
mais serei sozinho.
A luz que escorre dos teus ombros
se espalha iluminando o meu caminho.
Como quem finca uma bandeira
na terra que se acaba de descobrir,
plantas a verdade da vida
no centro do meu peito.
Escrevo com tranqüila certeza
de um menino que descobre a água,
que não precisaria te ver de novo
para que estejas e sejas comigo.
Acompanhas a minha mão neste momento
em que escrevo o teu nome
como o pássaro que canta
o encontro do seu repouso.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Aparição (Thiago de Mello - 1926)

Ela oscila ondulante descendo
o barranco ensolarado, vem no vento,
bacia de roupa quarada na cabeça;
é altivo o corpo, os cabelos brilham.
Vem sozinha no sol do meio-dia.
Uma estátua luminosa em movimento.
Ela nem olha o barco que passa.
Quando chega rente à margem
arria a bacia no capim
e some inteirinha no rio.
Quando reaparece, só a cabeça de fora,
a cabeleira se espalha refletindo
a claridade do mormaço. Então ela ri,
não era para o barco: para a vida.
De repente, ágil, sobe no tronco
amarrado na beira e abre os braços,
de costas para o rio.
Da camisa ensopada transparece
um resplendor de nádegas. Espáduas
vastas no fulgor do dia. Foi fugaz.
Na memória perdura, sol e água,
o milagre da moça iluminada.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Suave, surdo, cego (Thiago de Mello - 1926)

Quando morto, me prefiro
coisa suave, surda, cega.
Suave como a minha mão
procurando a tua mão.
Surda como o âmago
das rochas milenárias.
Cega como cegos são
os peixes que lerdos passeiam
nas profundezas das águas.
Deslembrado de tudo, sobretudo
do meu passo cambaio pelo mundo
onde andei de tropeços com meu sonho.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Balada de la estrella (Gabriela Mistral - 1889 - 1957)

- Estrella, estoy triste.
Tú dime si otra
como mi alma viste.
- Hay otra más triste.

- Estoy sola, estrella.
Di a mi alma si existe
otra como ella.
- Sí, dice la estrella.

- Contempla mi llanto.
Dime si otra lleva
de lágrimas manto.
- En otra hay más llanto.

- Di quién es la triste,
di quién es la sola,
si la conociste.

- Soy yo, la que encanto,
soy yo la que tengo
mi luz hecha llanto.