quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sertânica 2 (Salgado Maranhão - 1953)

meu boi está vivo
em mim,
na ciência de esperar,
no mugir sob os mourões;

meu boi já virou folia,
fugiu para o pasto
misturado aos aboios
e ao ganir dos cachorros.

deixou-me apenas o nome
nas marcas do ferrador:
esta fúria sem revanche
feita de canga e "sim senhor".

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sertânica 1 (Salgado Maranhão - 1953)

há de vir o relâmpago
sobre a carniça andante,
sobre o oco da terra seca
e o monótono sermão
do chocalho das cabras.

há de vir a nascente
da chuva
sobre a pedra ancestral,
a lavar a carne
e a fratura dos dias.

desse enredo de espectros
escrito nos olhos,
há de vir o trovão
sobre a cal da espera,
traduzindo o silêncio de Deus.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Sparks (Mauro Cappelletti - 1927 - 2004)

Raras centelhas
no espaço escuro
átimos
de efêmeras paixões
de desordenadas visões.
É está a nossa vida;
o resto é sono,
o sono sem fim
que foi,
o sono sem fim
que será,
misterioso imenso negro fantasma
que mente humana
não pode compreender
ainda quando
mudado em devastadora tormenta
penetra e sacode o nosso espírito
atraindo-lhe
centelhas raras
no espaço escuro.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Epitáfio (Mauro Cappelletti - 1927 - 2004)

Fui, na minha juventude,
como um iceberg gigantesco
hirto de agulhas
estendidas
nos azuis espaços infinitos.
Depois vieram as Correntes do Tempo
e me arrastaram,
enleado nos seus estreitos,
para os Mares Temperados
das Boas Criações
e ali
pouco a pouco
ruptura sucedendo a ruptura
me amoldei ao plano.

Eu amaldiçoo o meu tempo!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A noite desce (Florbela Espanca - 1894 - 1930)

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce...Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Renúncia (Florbela Espanca - 1894 - 1930)

A minha mocidade outrora eu pus
No tranquilo convento da Tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Lua, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
É como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio sem luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra,
Ó minha mocidade toda em flor.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Anoitecer (Florbela Espanca - 1894 - 1930)

A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui...outr'ora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bençãos d'amor para toda a gente!
E a minha alma sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora...

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...