quarta-feira, 1 de abril de 2015

O macaco que queria voar (Duda Machado - 1944)

Quinho era um macaco diferente.
Não gostava de comer banana
Nem de ficar imitando gente.

Mas não podia ver passarinho
Que tinha vontade de voar.
Parecia até um maluquinho,

Se deitava, rolava no chão,
Saltava entre os galhos e guinchava.
Voar que é bom, não voava não.

Desistia, ficava calado,
A mão no queixo, um jeito sério
E o ar de quem está concentrado.

Aí é que parecia gente.
Nem se coçava, cruzava os braços,
Querendo pensar logicamente.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A galinha cor-de-rosa (Duda Machado - 1944)

Era uma galinha cor-de-rosa,
Metida a chique, toda orgulhosa,
Que detestava pisar no chão.

Cheio de lama do galinheiro.
Ficava no alto do poleiro
E quando saía do lugar,

Batia as asas para voar.
Mas seus pés acabavam na lama.
Aí armava o maior chilique,

Cacarejava, bicava o galo,
E depois, com ar de rainha,
Lavava os pés numa pocinha.

domingo, 29 de março de 2015

O sapo (Ferreira Gullar - 1930)

Aqui estou eu: o Sapo,
Bom de pulo e bom de papo.

Falo mais que João do Pulo,
Pulo mais que João do Papo.

Por cautela, falo pouco,
Pra evitar de ficar rouco.

Mas, na verdade, coaxo.
Sou quem toca o contra-baixo

em nossa orquestra de sapos,
pois com os sons de nossos papos

fazemos nosso concerto:
um som fechado, outro aberto,

um que parece trombone,
outro flauta ou xilofone.

Tocamos em qualquer festa.
O nosso e-mail é orquestra
@sapos.com.floresta>.

sábado, 28 de março de 2015

A pombinha da mata (Cecília Meireles - 1901 - 1964)

Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.

"Eu acho que ela está com fome",
disse o primeiro,
"e não tem nada para comer."

Três meninos na mata ouviram
uma pombinha carpir.

"Eu acho que ela ficou presa",
disse o segundo,
"e não sabe como fugir."

Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.

"Eu acho que ela está com saudade",
disse o terceiro,
"e com certeza vai morrer."

sexta-feira, 27 de março de 2015

O menino azul (Cecília Meireles - 1901 - 1964)

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Ou isto ou aquilo (Cecília Meireles - 1901 -1964)

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Ano bom (Olavo Bilac - 1865 - 1918)

Ano Bom. De madrugada,
Bebê desperta, e, assustada,
Avista um vulto na cama.
Que será? Que medo! E, tonta,
Eis que Bebê se amedronta,
Chora, grita, chama, chama...

Mas, quando se abre a cortina,
Quando o quarto se ilumina,
Bebê, de pasmo ferida,
Vê que o medo não é justo:
Pois a causa do seu susto
É uma boneca vestida.

Que linda! é gorda e corada,
Tem cabeleira dourada
E olhos cor do firmamento...
Põe-na no colo a criança,
E de olhá-la não se cansa,
Beijando-a a todo o momento.

Nisto a mamãe aparece.
Como Bebê lhe agradece,
Com beijos, risos e abraços!
— porém, logo, de repente,
Diz à mamãe, tristemente,
Prendendo-a muito nos braços:

“Mamãe! como sou ingrata!
Com tantos mimos me trata,
Tão boa, tão delicada!
Dá-me vestidos e fitas,
Dá-me bonecas bonitas,
E eu, mamãe, não lhe dou nada!...”

“Tolinha! (A mãe diz, num beijo)
As festas que eu mais desejo,
Ó minha filha, são estas:
A tua meiga bondade
E a tua felicidade...
Não quero melhores festas!”