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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Mesmo que morra (Alice Ruiz - 1946)

mesmo que eu morra
dessa morte disforme
o esquecimento
não lamento

viver ou morrer
é o de menos
a vida inteira
pode ser
qualquer momento
ser feliz ou não
questão de talento

quanto ao resto
este poema
que não fiz
fica ao vento
mãos mais hábeis
inventem

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Ninguém me canta como você (Alice Ruiz - 1946)

ninguém me canta
como você
ninguém me encanta
como você
nem me vê
do jeito
que só você
de que adianta
ter olhos
e não saber ver
ter voz
mas não não ter o que dizer
digam o que disserem
façam o que quiserem
ninguém diz
ninguém vê
ninguém faz
como você
ninguém me canta
ninguém me encanta
como você

quarta-feira, 12 de março de 2014

Coisa tua (Alice Ruiz - 1946)

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito

poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua.

De tanto não poder dizer
meus olhos deram de falar
só falta você ouvir.

terça-feira, 11 de março de 2014

Saudação da saudade (Alice Ruiz - 1946)

Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vida
só é possível
noutra vida

Aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

Ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

Aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Que teu corpo seja brasa (Alice Ruiz - 1946)

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

domingo, 26 de agosto de 2012

Sonho de poeta (Alice Ruiz - 1946)

Quem dera fosse meu
o poema de amor
definitivo.

Se amar fosse o bastante,
poder eu poderia,
pudera,
às vezes, parece ser esse,
meu único destino.

Mas vem o vento e leva
as palavras que digo,
minha canção de amigo.

Um sonho de poeta,
não vale o instante
vivo.

Pode que muita gente
veja no que escrevo
tudo que sente
e vibre
e chore
e ria,
como eu antigamente,
quando não sabia
que não há um verso,
amor,
que te contente.

Drumundana (Alice Ruiz - 1946)

e agora Maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora Maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

sábado, 25 de agosto de 2012

Queria tanto fazer um poema hoje (Alice Ruiz - 1946)

queria tanto
fazer um poema hoje
uma canção que fosse
digna desse dia
com suas cores
brilhos e brisas

queria tanto
que esse poema me quisesse
e me fizesse um mimo
me desfazendo em risos

queria tanto
esse dia em versos
meu coração
deste bem diverso
para sempre
conservado
em seu próprio encanto

sexta-feira, 13 de abril de 2012

É duro ter coração mole (Alice Ruiz - 1946)

Por favor
não me aperte tanto assim
tenha cuidado,
pega leve
olha onde pisa
isso é meu coração
meu ganha-pão
instrumento de trabalho,
meio de vida, profissão
meu arroz com feijão
meu passaporte
para qualquer parte
para qualquer arte
não machuque esse meu coração
preciso dele
para me levar a Marte
sem sair do chão
não me aperte
não machuque
tome cuidado
eu vivo disso
poesia, sonhos
e outras canções
sem emoção
morro de fome
sinto muito
mas não há nada
que eu possa fazer
sem coração.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Questões III (Alice Ruiz - 1946)

Se a preguiça é pecado,
o que Deus estará fazendo agora?
 Em que se ocupa aquele que tudo pode?
Terá restado algo por fazer
depois que o mundo foi criado?

Se o desejo é fraqueza,
Deus nunca deseja?
Mas se é verdade que nos criou,
algo nele desejou.

Se a vaidade é um erro,
por que nos fez
À sua imagem e semelhança?
Ou terá sido o contrário?

Por que criar alguém
capaz de duvidar da criação?
Por que nós e ele não?

sábado, 20 de agosto de 2011

De novo (Alice Ruiz - 1946)

de novo
volto para meu amigo
trago um novo gosto
outra língua
terra estranha

volto aos poucos
para meu amigo
só que agora
já não trago
a alma comigo

gesto antigo
volto
de repente
para meu amigo
sou outra
outro é meu amigo