Toda a certeza de que estarei só
por todos os mais dias dos meus dias,
todo o recurso-a-me-lembrar e o pó
dessas lembranças, última valia,
as providências a que me resigno
e de que vivo, adâmico e exilado
como exilado Adão provou do indigno
pão que o suor provê, humanizado,
todo o caminho do retorno a mim
e a meus saberes e aos da minha raça,
da mágica engrenagem do jasmim
ao gatilho, estampidos e fumaça,
toda a glória que a solidão semeia
e agora essa pegada aqui na areia!
Mostrando postagens com marcador Jorge Wanderley. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jorge Wanderley. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Saída do trabalho (Jorge Wanderley - 1938-1999)
o ônibus cinza que dobra a esquina
acenando em cada solavanco
fugir daqui!
máquinas ambições o de sempre
fica tudo no asfalto último
em que pisava o pé antes de subir
tudo lá se ficou na lavagem
no banho
que é embarcar no cinzão
a caminho do centro
e do miniporre com almoço e leitura
e aquela lembrança que retorna e que vai embora
mas que retorna retorna
- de que o tempo acabou -
de que tudo já passou
que não adianta mais
vai ser preciso beber mais de um
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Nada vêem (Jorge Wanderley - 1938-1999)
Pois se entre todos vou desconhecido,
No além de minha condição negado,
Eis que por duas vezes vou servido
De recusa e cegueira, e acostumado.
Melhor: a quem recusa, recusado
Faço que fique no seu mal vencido,
E a quem não vê, pobre desentendido,
Engano, enquanto vim assinalado.
Tudo o que dizem, tenho conhecido,
Sei quando calam tudo que hão calado.
Vá lá que ceguem, já que entorpecido
Têm seu sentido, em si tão limitado:
Mas que neguem quem seja, tem nutrido
Minha vingança e meu poder chamado.
No além de minha condição negado,
Eis que por duas vezes vou servido
De recusa e cegueira, e acostumado.
Melhor: a quem recusa, recusado
Faço que fique no seu mal vencido,
E a quem não vê, pobre desentendido,
Engano, enquanto vim assinalado.
Tudo o que dizem, tenho conhecido,
Sei quando calam tudo que hão calado.
Vá lá que ceguem, já que entorpecido
Têm seu sentido, em si tão limitado:
Mas que neguem quem seja, tem nutrido
Minha vingança e meu poder chamado.
Um sonho pardo (Jorge Wanderley - 1938-1999)
Passeio nesta esquina - onde a verdade
Ou todo o mal, talvez, talvez o fim
Das coisas - das palavras! - de um jardim
De encantos e tormentos, tempestade
Em ondas silenciosas, chega a mim.
Em sonhos não toquei nesta cidade
Senão pelos subúrbios, uma grade
Melancólica, envolta no jasmim,
Por uma tarde longe onde foi ontem.
Nada há por perto, senão ruas e casas
E um sol se pondo e passos meus, incertos.
Nada que na incerteza me descontem
Os lances da memória que se atrasa
E leva a mim, de mim tão longe e perto.
Ou todo o mal, talvez, talvez o fim
Das coisas - das palavras! - de um jardim
De encantos e tormentos, tempestade
Em ondas silenciosas, chega a mim.
Em sonhos não toquei nesta cidade
Senão pelos subúrbios, uma grade
Melancólica, envolta no jasmim,
Por uma tarde longe onde foi ontem.
Nada há por perto, senão ruas e casas
E um sol se pondo e passos meus, incertos.
Nada que na incerteza me descontem
Os lances da memória que se atrasa
E leva a mim, de mim tão longe e perto.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Pátio secreto (Jorge Wanderley - 1938-1999)
Vejo-o talvez em sonho, quando nada
Parece mal: o mesmo pátio, as sombras,
O chafariz envelhecido, a pátina
Que a algum lugar de mármore responde.
O muro, o musgo, a vinha, o abandono
Da pedra e a quase fria madrugada
Passada em névoa ao cinzento do outono,
O sono que flutua em tudo, em nada.
Tudo está morto e vivo pela imagem,
Recanto, quadro, música, memória
Que visito dormindo e sem matéria.
Outros o viram, também. De passagem
Deixaram algo oculto a sua história,
Marca secreta, assinatura etérea.
Parece mal: o mesmo pátio, as sombras,
O chafariz envelhecido, a pátina
Que a algum lugar de mármore responde.
O muro, o musgo, a vinha, o abandono
Da pedra e a quase fria madrugada
Passada em névoa ao cinzento do outono,
O sono que flutua em tudo, em nada.
Tudo está morto e vivo pela imagem,
Recanto, quadro, música, memória
Que visito dormindo e sem matéria.
Outros o viram, também. De passagem
Deixaram algo oculto a sua história,
Marca secreta, assinatura etérea.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Ir (Jorge Wanderley - 1938-1999)
Já quase me convocam e retorno
sem saber bem do que me trouxe aqui.
Não aprendi as árvores que vejo
e nem às que imagino me resigno.
Talvez o sofrimento esteja nisso,
nessas distâncias entre o verde e o sonho.
Do que disponho, o compromisso foge,
foge a linguagem, vai negada a rosa.
Vou sem ter dito, vou sem ter ouvido
e nada em minha nave me compensa.
Fui nesta fala ardente e silencioso,
no entendimento fui ânsia e fracasso:
ah, quem tanto pudesse que fartasse
de voz e de palavra essa partida.
sem saber bem do que me trouxe aqui.
Não aprendi as árvores que vejo
e nem às que imagino me resigno.
Talvez o sofrimento esteja nisso,
nessas distâncias entre o verde e o sonho.
Do que disponho, o compromisso foge,
foge a linguagem, vai negada a rosa.
Vou sem ter dito, vou sem ter ouvido
e nada em minha nave me compensa.
Fui nesta fala ardente e silencioso,
no entendimento fui ânsia e fracasso:
ah, quem tanto pudesse que fartasse
de voz e de palavra essa partida.
Como se (Jorge Wanderley - 1938-1999)
Como se ficassem menos reais
as coisas, quando te incluem:
o amor; as fotografias;
esta parte do planeta
em que teus fantasmas te atravessam
sem ver que estás ali.
Como se tudo o que não vives, sonhas
e o sonho se sabe sonho:
- cadáver, não - metáfora
adiada.
Como é do sonho, nele
és autor e personagem,
pele de herói e as formas laterais:
dentro, o vazio.
O fruto ausente, essência negada.
Não cabem mais a sátira, a ironia
e nem o pânico.
Midas avesso, o que tocas degenera.
Deves te esgueirar entre as coisas para
poupá-las.
Mas será que tudo isto
ainda tem importância, agora que és um velho?
as coisas, quando te incluem:
o amor; as fotografias;
esta parte do planeta
em que teus fantasmas te atravessam
sem ver que estás ali.
Como se tudo o que não vives, sonhas
e o sonho se sabe sonho:
- cadáver, não - metáfora
adiada.
Como é do sonho, nele
és autor e personagem,
pele de herói e as formas laterais:
dentro, o vazio.
O fruto ausente, essência negada.
Não cabem mais a sátira, a ironia
e nem o pânico.
Midas avesso, o que tocas degenera.
Deves te esgueirar entre as coisas para
poupá-las.
Mas será que tudo isto
ainda tem importância, agora que és um velho?
Assinar:
Postagens (Atom)
