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sábado, 24 de agosto de 2013

Acostuma-te a ver atrás de mim a sombra (Pablo Neruda - 1904 - 1973)

Acostuma-te a ver atrás de mim a sombra
e que as tuas mãos saiam do rancor, transparentes,
como se na manhã do mar fossem criadas:
o sal deu-te, meu amor, proporção cristalina.

A inveja sofre, morre, esgota-se com meu canto.
Um a um agonizam seus tristes capitães.
Digo amor, e o mundo povoa-se de pombas.
Cada sílaba minha traz a Primavera.

Então tu, minha flor, meu coração, bem-amada,
és nos meus olhos como a folhagem
do céu, e vejo-te reclinada na terra.

Vejo o sol transportar cachos para o teu rosto,
olhando para o alto reconheço os teus passos.
Matilde, bem-amada, diadema, bem-vinda!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Espinhos, vidros partidos, enfermidades, lágrimas (Pablo Neruda - 1903 - 1974)

Espinhos, vidros partidos, enfermidades, lágrimas
assediam noite e dia o mel dos seres felizes
e de nada servem a torre, a viagem, os muros:
a desgraça atravessa a paz dos que dormem,

a dor sobe e desce e aproxima as suas colheres
e não há homem sem este movimento,
não há dia de anos, não há teto nem cerca:
é preciso ter em conta este atributo.

E também não aproveitam, no amor, olhos fechados,
profundos leitos longe do pestilento ferido,
ou do que passo a passo conquista a sua bandeira.

Porque a vida é pegajosa como cólera ou rio
e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos duma imensa família de dores.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Matilde, onde estás? (Pablo Neruda - 1904 - 1973)

Matilde, onde estás? Notei, em baixo,
entre a gravata e o coração, e em cima,
certa melancolia intercostal:
é que tu estavas, de súbito, ausente.

Fez-me falta a luz da tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é uma casa sem ti,
ficam apenas trágicas janelas.

De puro taciturno o teto ouve
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:

e assim te espero como casa abandonada
e tornarás a ver-me e a habitar-me.
De outro modo as janelas me entristecem.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Uma vez mais, amor, a rede do dia extingue (Pablo Neruda - 1904 - 1973)

Uma vez mais, amor, a rede do dia extingue
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e nos entregamos à noite o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e da terra.

Só a lua no meio da sua página pura
sustenta as colunas do estuário do céu,
o nosso quarto adota a lentidão do ouro
e as tuas mãos vão e vêm, preparando a noite.

Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge as suas uvas tempestuosas,

até que somos apenas um só espaço escuro,
uma taça onde cai a cinza celeste,
uma gota no pulso dum lento e longo rio.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Não estejas longe de mim (Pablo Neruda - 1904 - 1973)

Não estejas longe de mim um dia que seja, porque,
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia,
e estarei à tua espera como nas estações
quando em algum sítio os comboios adormeceram.

Não te afastes um hora porque então
nessa hora se juntam as gotas da insônia
e talvez o fumo que anda à procura de cassa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebra a tua silhueta na areia,
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem:
não te vás por um minuto, ó bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que atravessarei a terra inteira perguntando
se voltarás ou me deixarás morrer.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

De tanto amor a minha vida tingiu-se de violeta (Pablo Neruda - 1904 - 1973)

De tanto amor a minha vida tingiu-se de violeta
e andei de senda em senda como as aves cegas
até chegar à tua janela, minha amiga:
tu sentiste um rumor de coração partido

e então das trevas subi ao teu peito,
sem ser e sem saber fui à torre do trigo,
surgi para viver nas tuas mãos,
saí do mar para a tua alegria.

Ninguém pode contar o que te devo, é evidente
o que te devo, amor, e é como uma raiz
nascida na Araucânia o que te devo, amada.

É sem dúvida estrelado tudo o que te devo,
e o que te devo é como o poço duma zona silvestre
onde o tempo guardou relâmpagos errantes.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Amor, dirigimo-nos agora para a casa (Pablo Neruda - 1904 - 1973)

Amor, dirigimo-nos agora para a casa
onde a trepadeira sobe pelas escadas:
antes de tu chegares chegou ao teu quarto
o verão nu com pés de madressilva.

Nossos beijos errantes percorreram o mundo:
a Arménia, espessa gota de mel desenterrado,
Ceilão, pomba verde, e o Yang Tsé separando
com antiga paciência os dias e as noites.

E agora, ó bem amada, pelo mar crepitante
como duas aves cegas voltamos ao muro,
ao ninho da distante primavera,

porque o amor não pode voar sem se deter:
ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,
ao nosso território regressaram os beijos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

De noite, amada, prende o teu coração ao meu (Pablo Neruda - 1904 - 1973)

De noite, amada, prende o teu coração ao meu
e que no sono eles dissipem as trevas
como um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.

Nocturna travessia, brasa negra do sono
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade dum comboio desvairado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.

Por isso, amor, prende-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate
com as asas dum cisne submerso,

para que às perguntas estreladas do céu
responda o nosso sono com uma única chave,
com uma única porta fechada pela sombra.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Já és minha. Repousa com teu sono no meu sono (Pablo Neruda - 1904-1973)

Já és minha. Repousa com teu sono no meu sono.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite em suas rodas invisíveis
e ao meu lado és pura como o âmbar adormecido.

Nenhuma outra, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma outra viajará pela sombra comigo,
apenas tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves signos sem rumo,
teus olhos fecharam-se como duas asas cinzentas,

enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento fiam o seu destino,
e sem ti já não sou senão apenas o teu sonho.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

De pena em pena o amor atravessa as suas ilhas (Pablo Neruda - 1904-1973)

De pena em pena o amor atravessa as suas ilhas
e cria raízes que o pranto logo rega,
e ninguém pode, ninguém pode evitar os movimentos
do coração que passa silencioso e cruel.

Assim tu e eu procuramos um espaço, outro planeta
onde o sal não tocasse a tua cabeleira,
onde por minha culpa não houvesse dores,
onde sem agonia viva o pão.

Um planeta enredado de distância e de folhas,
um deserto, uma pedra cruel e desabitada,
com nossas próprias mãos queríamos construir

um ninho duro, sem danos, sem feridas, sem palavras,
e o amor não foi assim, mas uma cidade louca
onde as pessoas empalidecem nas varandas.

Oh que todo o amor propague em mim a sua boca (Pablo Neruda - 1904-1973)

Oh que todo o amor propague em mim a sua boca,
que não sofra um instante mais sem primavera,
à dor eu só vendi as minhas mãos,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.

Cobre com teu perfume a luz do mês aberto,
fecha as portas com a tua cabeleira,
e em relação a mim não te esqueças que se acordo e choro
é porque em sonhos sou apenas uma criança perdida

que entre as folhas da noite procura as tuas mãos,
o contacto do trigo que tu me comunicas,
um arroubo cintilante de sombra e de energia.

Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.

domingo, 31 de julho de 2011

Não te quero senão porque te quero (Pablo Neruda - 1904-1973)

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te apenas porque a ti eu quero,
a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,
e a medida do meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.

Consumirá talvez a luz de Janeiro,
o seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história apenas eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.

Busco um sinal teu em todas as outras (Pablo Neruda - 1904-1973)

Busco um sinal teu em todas as outras,
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos meio submersos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.

De repente parece-me que te distingo as unhas
compridas, fugitivas, sobrinhas duma cerejeira,
e é o teu cabelo que passa outra vez e parece-me
ver arder na água o teu retrato de fogueira.

Olhei, mas nenhuma tinha a tua pulsação,
a tua luz, a argila escura que trouxeste do bosque,
nenhuma tinha as tuas minúsculas orelhas.

Tu és total e breve, única entre todas,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um vasto Mississípi de estuário feminino.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro (Pablo Neruda - 1904-1973)

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
e aos lábios, sedento, ergui o seu sussurro:
era talvez a voz da chuva soluçando,
um sino partido ou um coração cortado.

Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e húmida negrura das folhas.

Ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de aveleira cantou na minha boca
e seu perfume errante subiu no meu critério

como se me procurassem de repente as raízes
que abandonei, a terra que perdi com a infância,
e ali fiquei ferido pelo aroma errante.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Nua, és tão simples como uma de tuas mãos (Pablo Neruda - 1904-1973)

Nua, és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, minúscula, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua, és delgada como o trigo nu.

Nua, és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no cabelo,
nua, és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.

Nua, és pequena como uma das tuas unhas,
curva, subtil, rosada até que o dia nasce
e entras no subterrâneo do mundo

como num longo túnel de roupas e trabalhos:
a tua claridade apaga-se, veste-se, desfolha-se
e volta a ser outra vez uma mão nua.

Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo (Pablo Neruda - 1904-1973)

Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo,
que solidão errante até chegar a ti!
Os comboios continuam vazios rolando com a chuva.
Em Taltal a primavera não amanheceu ainda.

Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos da roupa às raízes,
juntos pelo outono, pela água, pelas ancas,
até sermos apenas tu e eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que o rio arrasta,
a emborcadura da água do Boroa,
pensar que separados por comboios e nações

tu e eu devíamos simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Entre os espadões de ferro literário (Pablo Neruda - 1904-1973)

Entre os espadões de ferro literário
eu passo como um marinheiro distante
que não conhece as esquinas e canta
por cantar, como se não fosse por isso.

Dos atormentados arquipélagos trouxe
o meu acordeão com borrascas, rajadas de chuva louca,
e um hábito lento de coisas naturais:
elas determinaram meu coração silvestre.

Assim, quando os dentes da literatura
morderem meus honrados calcanhares,
voltei, sem saber, cantando com o vento

aos armazéns chuvosos da infância,
aos bosques frios do Sul indefinível,
lá onde a minha vida se encheu com teu aroma.

Nunca terei, não tenho nunca (Pablo Neruda - 1904-1973)

Nunca terei, não tenho nunca. Na areia
a vitória deixou seus pés perdidos.
Sou um pobre homem disposto a amar seus semelhantes.
Não sei quem és. Amo-te. Não dou, não vendo espinhos.

Alguém saberá talvez que não teci coroas
sangrentas, que combati a burla
e que em verdade enchi a preia-mar da minha alma.
Paguei a vileza com pombas.

Eu nunca tenho porque diferente
fui, sou, serei. E em nome
do meu amor mutuamente proclamo a pureza.

A morte é só pedra do esquecimento.
Amo-te, beijo na tua boca a alegria.
Tragamos lenha. Acenderemos uma fogueira na montanha.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Esta é a casa, o mar e a bandeira (Pablo Neruda - 1904-1973)

Esta é a casa, o mar e a bandeira.
Errávamos por outros longos muros.
Não encontrávamos a porta nem o som
depois que partimos, como alguém que morreu.

E por fim a casa abre o seu silêncio,
ao entrar pisamos o abandono,
os ratos mortos, o adeus vazio,
a água que chorou nos canos.

Chorou, chorou a casa noite e dia,
gemeu com as aranhas, entreaberta,
debulhou-se do alto dos seus olhos negros,

e agora de repente devolvemo-lhes a vida,
povoamo-la e não nos reconhece:
precisa florir e não se lembra.

Lembrarás aquela encosta caprichosa (Pablo Neruda - 1904-1973)

Lembrarás aquela encosta caprichosa
a que os aromas palpitantes treparam,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.

Lembrarás os dons da terra:
irrascível fragância, lama de ouro,
ervas do matagal, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.

Lembrarás o ramo que trouxeste,
ramos de sombra, de água e de silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.

E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ao sítio onde nada se espera
e achamos tudo o que nos está esperando.