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domingo, 17 de agosto de 2014

Docemente (Maria Teresa Horta - 1937)

Docemente
disponho dos teus braços

dos peixes que navegam
docemente

Docemente
disponho em minha face

a faca dos teus olhos
docemente.

Docemente
canso, disponho do cansaço

primeiro do teu afago
docemente

Docemente
afago, a tua boca apago

e vou negando a minha
docemente.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Nem só (Maria Teresa Horta - 1937)

Nem só do teu silêncio
direi raiva
Nem de todo o meu corpo
direi vício

nem de todo o pênis
direi arma
e apenas do teu direi ter sido

Quando o vácuo é de
vingar
ou de vergar
cravando sobre os seios a sua enxada

Quando a minha boca se conjuga
no baixo do teu ventre
e tua espada...

nem de todo o desejo
direi verão
nem de todo o grito
a tua imagem

nem de toda a ausência
direi chão
e só de teus flancos
a viagem

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O corpo, dois corpos (Maria Teresa Horta - 1937)

Dizer do corpo
o corpo da poesia

Os ombros
os seios
o ventre que sequestra

entre as pernas fechadas
a vagina
com a sua longa boca entreaberta

Pensar do corpo
o corpo da poesia

Mais os dedos do que as mãos
sobre as arestas
Mais as fendas do que o liso

Mais a ruga
Mais a ruga das coxas
e das pernas

Depois vêm os dentes e a língua
a descer no trilho brando do umbigo
bebendo o sal do suor da pele
e o fermento de um doce que não digo

Escrever do corpo
o corpo da poesia

Os pulsos tão febris
a nuca
e a garganta

O silêncio de uns olhos
que por certo queriam
ver bem mais longe do que o pubis
deixa

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Existem pedras (Maria Teresa Horta - 1937)

Existem pedras nos olhos
mas não as tragas
contigo

meu amor
e meu amigo

Existem pedras nas mãos
mas não as uses
comigo

meu amor
e meu amigo

Existem pedras sedentas
de amor e muito perigo

Não querias que elas inventem
motivos de meu castigo