Mostrando postagens com marcador Ruy Espinheira Filho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ruy Espinheira Filho. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de julho de 2013

Soneto de velhice e almas (Ruy Espinheira Filho - 1942)

Também no corpo, sim. Mas sobretudo
é na alma que me sinto envelhecer.
Ouço-a cantar canções de adormecer
e me parece que, por fim, já tudo

está cumprido. Em breve serei mudo,
e surdo, e cego... Todo amanhecer
se foi. Não há futuros. Vai descer
logo a noite absoluta sobre tudo.

Mas, felizmente, a alma que me fala
não é a única do meu enredo.
Visto-me de outra, e a anterior se cala.

E, de alma nova, sou diverso, ledo,
ouvindo a voz serena que me fala
que para adormecer ainda é cedo.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Canção do inverno (Ruy Espinheira Filho - 1942)

Faz tempo que cai
a chuva cinzenta
no longo vazio
da rua onde, lenta,

minha alma vai
como nevoenta
brisa em que se embala
a chuva cinzenta.

E faz-se a canção
do inverno assim:
com as cinzas da chuva
e o frio de mim.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Soneto do sonho (Ruy Espinheira Filho - 1942)

Amei-te, ontem, num sonho: clara e nua
como jamais te vi, mas te trazia
em mim há muito tempo assim. Sabia
que tu eras? e és? como no sonho a lua

te fez baixar em minha cama nua,
em meu corpo deserto de alegria
e eis que já cintilante de poesia
que vinha do teu corpo em luz de lua

e calor de ternura densa, e olor
de mar, e azul, e histórias de outra era,
quando se amava e se morria de amor.

E então te amei, agradecido à lua
por me fazer viver uma quimera
como sempre a sonhara: clara e nua.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Soneto da perda (Ruy Espinheira Filho - 1942)

Perdeu aquele dia
e, com ele, a hora.
Tão perdido estava
que não fez o gesto

com que acenderia
o lume da aurora
que o guiaria
pelo mundo afora

desde aquele dia,
desde aquela hora,
ao longo da estrada

pela qual viria
para estar vivendo
outra vida agora.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Canção que eu gostaria de não ter escrito (Ruy Espinheira Filho - 1942)

Agora não tem mais jeito:
a vida ficou assim.
Não há o que possa ser feito,
isso é tudo, hoje, de mim.

De esperança, o que ainda resta
não dá para uma paisagem
desdobrada em flor e festa
- só tarde de fim de viagem

é o que vejo da janela
em que se debruça a alma.
Há uma luz ainda bela,
e certa brisa de calma,

mas tudo ontem. Agora,
é só este o panorama:
outra visão, outra hora
que no ocaso se derrama

Nem deu pra ver direito
como a vastidão da vida
tornou-se este espaço estreito
e manhã encanecida.

Mas assim foi. E é. E, enfim,
não há o que possa ser feito:
o tempo passou em mim
- e agora não tem mais jeito.

domingo, 14 de outubro de 2012

Depois (Ruy Espinheira Filho - 1942)

Depois, saiu andando pela tarde.
Alguém cantava, longe, acalentando
os escombros do ocaso. E até onde
ele chegara se chamava vida.
Assim pensou, enquanto ouvia a doce
canção da Ausente, de onde renasciam
borboletas, regatos, girassóis
e cães ladrando em quintais antigos.
Olhou (andando, andando) o céu cinzento.
O que restava? Aquilo. As tantas horas
mortas, mortas palavras, morto chão
do amor, dispersos hálitos de alma,
e morta a infância, e tudo morto, morto
- mas persistindo, ali, com uma pátina
inelutável, e se chamava vida.
E ele parou, sentindo-se. E, repleto,
depois saiu andando pela tarde.