Breve momento, após comprido dia
de incômodos, de penas, de cansaço,
inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
posso a ti me entregar, doce Poesia.
Desta janela aberta à luz tardia
do luar em cheio a clarear no espaço,
vejo-te vir, ouço-te o leve passo
na transparência azul da noite fria.
Chegas. O ósculo teu me vivifica.
Mas é tão tarde! Rápido flutuas,
tornando logo à etérea imensidade;
e na mesa a que escrevo apenas fica
sobre o papel - rastro das asas tuas -
um verso, um pensamento, uma saudade.
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sexta-feira, 26 de abril de 2013
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Beijos do céu (Alberto de Oliveira - 1859 - 1937)
Sonhei-te assim, ó minha amante, um dia:
- Vi-te no céu; e, enamoradamente,
de beijos, a falange resplendente
dos serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via,
beijavam todos o teu lábio ardente;
e, beijando-te, o próprio Onipotente,
o próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o ciúme - fera que eu não domo -
despertou-me do sonho; repentino
vi-te a dormir tão plácida a meu lado...
E beijei-te também, beijei-te..., e, ai! como
achei doce o teu lábio purpurino,
tantas vezes assim no céu beijado!
- Vi-te no céu; e, enamoradamente,
de beijos, a falange resplendente
dos serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via,
beijavam todos o teu lábio ardente;
e, beijando-te, o próprio Onipotente,
o próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o ciúme - fera que eu não domo -
despertou-me do sonho; repentino
vi-te a dormir tão plácida a meu lado...
E beijei-te também, beijei-te..., e, ai! como
achei doce o teu lábio purpurino,
tantas vezes assim no céu beijado!
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Vaso chinês (Alberto de Oliveira - 1859 - 1937)
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.
Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.
Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.
Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.
Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.
Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.
Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
O ninho (Alberto de Oliveira - 1859 - 1937)
O musgo mais sedoso, a úsnea mais leve
trouxe de longe o alegre passarinho,
e um dia inteiro ao sol paciente esteve
com o destro bico a arquitetar o ninho.
Da paina os vagos flocos cor de neve
colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
e armado, pronto, enfim, suspenso, em breve,
ei-lo balouça à beira do caminho.
E a ave sobre ele as asas multicores
estende, e sonha. Sonha que o áureo pólen
e o néctar suga às mais brilhantes flores;
sonha... Porém de súbito a violento
abalo acorda. Em torno as folhas bolem...
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento.
trouxe de longe o alegre passarinho,
e um dia inteiro ao sol paciente esteve
com o destro bico a arquitetar o ninho.
Da paina os vagos flocos cor de neve
colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
e armado, pronto, enfim, suspenso, em breve,
ei-lo balouça à beira do caminho.
E a ave sobre ele as asas multicores
estende, e sonha. Sonha que o áureo pólen
e o néctar suga às mais brilhantes flores;
sonha... Porém de súbito a violento
abalo acorda. Em torno as folhas bolem...
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento.
domingo, 27 de março de 2011
O caminho do morro (Alberto de Oliveira - 1859-1937)
Guiava à casa do morro, em voltas, o caminho,
Até lhe ir esbarrar com as orlas do terrreiro;
Dava-lhe o doce ingá, rachado ao sol, o cheiro,
E um rumor de maré o cafezal vizinho.
Quanta vez o subi, buscando a um guaxe o ninho,
Ou, saltando, o desci com o regato ligeiro,
Para voar num balanço, embaixo, o dia inteiro,
E ver girar, zonzando, as asas de um moinho!
De setembro até março a colcha de flores
Tapetava-o. Reluz-lhe em poças de água o céu;
Das folhas sobre o saibro os orvalhos escorrem...
Mas morreram na casa, em cima, os moradores,
Morreu, caindo, a casa, o moinho morreu,
O caminho morreu... Até os caminhos morrem!
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