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domingo, 10 de abril de 2011

Soneto XX (Sá de Miranda - 1481-1558)

O sol é grande, caem com calma as aves
Em tal sazão que soía de ser fria.
Esta água que cai do alto acordar-me-ia
De sono não, mas de cuidados graves.

Oh cousas tôdas vãs, tôdas mutáveis,
Qual é o coração que em vós confia?
E passa um dia assi, passa outro dia,
Incertos muito mais que o vento as naves?

Eu já vira aqui sombras, vira flôres,
Eu vira fruita já, verde e madura;
Ensordecia o cantar dos ruiseñores!

Agora tudo é sêco e de mistura;
Também mudando-me eu, fiz outas côres.
E tudo o mais renova: isto é sem cura.