Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.
Agora (o tempo é que o fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.
Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.
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segunda-feira, 21 de julho de 2014
domingo, 20 de julho de 2014
Diário de um brasileiro (Thiago de Mello - 1926)
O brasileiro convive bem com o escândalo moral.
Os ladrões infestam os salões de luxo,
os Bancos estouram, os banqueiros
são cumprimentados com reverência,
o Presidente do Congresso chama o senador
de bandido, sim senhor, vossa excelência.
O Presidente diz pela televisão
que "é preciso acabar com a roubalheira
nos dinheiros públicos".
As pessoas das cidades grandes
vivem amedrontadas, qualquer
transeunte pode ser um assaltante.
As meninas cheiram cola. Depois
vão dar o que têm de mais precioso
ao preço de um soco na cara desdentada.
O brasileiro convive com o escândalo
como se fosse o seu pão de cada dia,
com uma indiferença letal.
Como se dormir na casa com um rinoceronte,
mas rinoceronte mesmo,
fosse a coisa mais natural do mundo,
chegando a cheirar a camélias.
O povo, um dia.
Do povo vai depender
a vida que vai viver,
quando um dia merecer.
Vai doer, vai aprender.
Os ladrões infestam os salões de luxo,
os Bancos estouram, os banqueiros
são cumprimentados com reverência,
o Presidente do Congresso chama o senador
de bandido, sim senhor, vossa excelência.
O Presidente diz pela televisão
que "é preciso acabar com a roubalheira
nos dinheiros públicos".
As pessoas das cidades grandes
vivem amedrontadas, qualquer
transeunte pode ser um assaltante.
As meninas cheiram cola. Depois
vão dar o que têm de mais precioso
ao preço de um soco na cara desdentada.
O brasileiro convive com o escândalo
como se fosse o seu pão de cada dia,
com uma indiferença letal.
Como se dormir na casa com um rinoceronte,
mas rinoceronte mesmo,
fosse a coisa mais natural do mundo,
chegando a cheirar a camélias.
O povo, um dia.
Do povo vai depender
a vida que vai viver,
quando um dia merecer.
Vai doer, vai aprender.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Cantiga quase de roda (Thiago de Mello - 1926)
Na roda da vida
lá vai o menino
trazendo contente
um canto no peito
na fronte uma estrela.
Mal chega e descobre
que o mundo é feroz
e o tempo é de sombras.
Os homens caminham
calados, sozinhos,
com medo de amar.
De pena, o menino
começa a cantar.
(Cantigas afastam
as coisas escuras).
Portanto ele sabe
que os homens, embora
se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem
de aurora e de infância.
Na roda do mundo,
ao lado dos homens,
lá vai o menino
rodando e cantando
seu canto de amor.
Um canto que faça
o mundo mais manso,
cantigas que tornem
a vida mais limpa,
um canto que faça
os homens mais crianças.
O menino entrega ao mundo
o dom da sabedoria
que nasce do coração.
Porque é do amor e da infância
que o mundo tem precisão.
lá vai o menino
trazendo contente
um canto no peito
na fronte uma estrela.
Mal chega e descobre
que o mundo é feroz
e o tempo é de sombras.
Os homens caminham
calados, sozinhos,
com medo de amar.
De pena, o menino
começa a cantar.
(Cantigas afastam
as coisas escuras).
Portanto ele sabe
que os homens, embora
se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem
de aurora e de infância.
Na roda do mundo,
ao lado dos homens,
lá vai o menino
rodando e cantando
seu canto de amor.
Um canto que faça
o mundo mais manso,
cantigas que tornem
a vida mais limpa,
um canto que faça
os homens mais crianças.
O menino entrega ao mundo
o dom da sabedoria
que nasce do coração.
Porque é do amor e da infância
que o mundo tem precisão.
domingo, 8 de junho de 2014
Saudade de Deus (Thiago de Mello - 1926)
Cresci menino com Deus.
Minha mãe acho que foi
quem Deus pôs dentro de mim.
Dentro de mim, mas não meu.
Não foi um amigo de infância.
Não me deixava à vontade
(nem nos banhos escondidos
na fundura do meu rio).
Não me deixava ser eu,
ser livre: sua presença
- uma lâmina suspensa
constante na minha vida -
me dava um grande temor.
Não me envergonho em dizer
que nunca lhe tive amor.
Por isso (suponho) foi
que um dia acordei sem Deus
(um dia quando os meus olhos
já conheciam o assombro).
Deus se perdeu. Não me achei
sozinho, me vi comigo.
(Talvez por isso eu carregue
esse ar de criança perdida.)
Contudo, dele restou
no chão triste da minha alma,
entre doce e dolorida,
mágoa que sabe a saudade.
Minha mãe acho que foi
quem Deus pôs dentro de mim.
Dentro de mim, mas não meu.
Não foi um amigo de infância.
Não me deixava à vontade
(nem nos banhos escondidos
na fundura do meu rio).
Não me deixava ser eu,
ser livre: sua presença
- uma lâmina suspensa
constante na minha vida -
me dava um grande temor.
Não me envergonho em dizer
que nunca lhe tive amor.
Por isso (suponho) foi
que um dia acordei sem Deus
(um dia quando os meus olhos
já conheciam o assombro).
Deus se perdeu. Não me achei
sozinho, me vi comigo.
(Talvez por isso eu carregue
esse ar de criança perdida.)
Contudo, dele restou
no chão triste da minha alma,
entre doce e dolorida,
mágoa que sabe a saudade.
sábado, 7 de junho de 2014
Amor mais que imperfeito (Thiago de Mello - 1926)
Não do amor. De mim duvido.
Do jeito mais que imperfeito
que ainda tenho de amar.
Com frequência reconheço
a minha mão escondida
dentro da mão que recebe
a rosa de amor que dou.
Espiando o meu próprio olhar,
escondido atrás estou
dos olhos com que me vês.
Comigo mesmo reparto
o que pretende ser dádiva,
mas de mim não se desprende.
Por mais que me prolongue
no ser que me reparte,
de repente me sinto
o dono da alegria
que estremece a pele
e faz nascer luas
no corpo que abraço.
Não do amor. De mim duvido
quando no centro mais claro
da ternura que te invento
engasto um gosto de preço.
Mesmo sabendo que o prêmio
do amor é apenas amar.
Do jeito mais que imperfeito
que ainda tenho de amar.
Com frequência reconheço
a minha mão escondida
dentro da mão que recebe
a rosa de amor que dou.
Espiando o meu próprio olhar,
escondido atrás estou
dos olhos com que me vês.
Comigo mesmo reparto
o que pretende ser dádiva,
mas de mim não se desprende.
Por mais que me prolongue
no ser que me reparte,
de repente me sinto
o dono da alegria
que estremece a pele
e faz nascer luas
no corpo que abraço.
Não do amor. De mim duvido
quando no centro mais claro
da ternura que te invento
engasto um gosto de preço.
Mesmo sabendo que o prêmio
do amor é apenas amar.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
A boca da noite (Thiago de Mello - 1926)
O que não fiz ficou vivo
pelo avesso. O que não tive
pertence à dor do meu canto.
A estrela que mais amei
acende o meu desencanto.
Vinagre? Sombra de vinho?
De noite, a vida engoliu
(é doce a boca da noite)
as dores do meu caminho.
O meu voo se apazigua
quando a tormenta me abraça.
O que tenho se enriquece
de tudo que não retive.
Diamante? Flor de carvão.
pelo avesso. O que não tive
pertence à dor do meu canto.
A estrela que mais amei
acende o meu desencanto.
Vinagre? Sombra de vinho?
De noite, a vida engoliu
(é doce a boca da noite)
as dores do meu caminho.
O meu voo se apazigua
quando a tormenta me abraça.
O que tenho se enriquece
de tudo que não retive.
Diamante? Flor de carvão.
sábado, 12 de abril de 2014
A verdade da vida (Thiago de Mello - 1926)
Moça do vento, menina da luz,
tua paz me penetrou
como uma estrela nascendo
para cantar o meu nome.
Hoje no sol do pleno meio-dia
aprendi a soletrar meu próprio nome
pronunciado pela tua boca.
Num instante fugaz
descobri que existe a eternidade. Nunca
mais serei sozinho.
A luz que escorre dos teus ombros
se espalha iluminando o meu caminho.
Como quem finca uma bandeira
na terra que se acaba de descobrir,
plantas a verdade da vida
no centro do meu peito.
Escrevo com tranqüila certeza
de um menino que descobre a água,
que não precisaria te ver de novo
para que estejas e sejas comigo.
Acompanhas a minha mão neste momento
em que escrevo o teu nome
como o pássaro que canta
o encontro do seu repouso.
tua paz me penetrou
como uma estrela nascendo
para cantar o meu nome.
Hoje no sol do pleno meio-dia
aprendi a soletrar meu próprio nome
pronunciado pela tua boca.
Num instante fugaz
descobri que existe a eternidade. Nunca
mais serei sozinho.
A luz que escorre dos teus ombros
se espalha iluminando o meu caminho.
Como quem finca uma bandeira
na terra que se acaba de descobrir,
plantas a verdade da vida
no centro do meu peito.
Escrevo com tranqüila certeza
de um menino que descobre a água,
que não precisaria te ver de novo
para que estejas e sejas comigo.
Acompanhas a minha mão neste momento
em que escrevo o teu nome
como o pássaro que canta
o encontro do seu repouso.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Aparição (Thiago de Mello - 1926)
Ela oscila ondulante descendo
o barranco ensolarado, vem no vento,
bacia de roupa quarada na cabeça;
é altivo o corpo, os cabelos brilham.
Vem sozinha no sol do meio-dia.
Uma estátua luminosa em movimento.
Ela nem olha o barco que passa.
Quando chega rente à margem
arria a bacia no capim
e some inteirinha no rio.
Quando reaparece, só a cabeça de fora,
a cabeleira se espalha refletindo
a claridade do mormaço. Então ela ri,
não era para o barco: para a vida.
De repente, ágil, sobe no tronco
amarrado na beira e abre os braços,
de costas para o rio.
Da camisa ensopada transparece
um resplendor de nádegas. Espáduas
vastas no fulgor do dia. Foi fugaz.
Na memória perdura, sol e água,
o milagre da moça iluminada.
o barranco ensolarado, vem no vento,
bacia de roupa quarada na cabeça;
é altivo o corpo, os cabelos brilham.
Vem sozinha no sol do meio-dia.
Uma estátua luminosa em movimento.
Ela nem olha o barco que passa.
Quando chega rente à margem
arria a bacia no capim
e some inteirinha no rio.
Quando reaparece, só a cabeça de fora,
a cabeleira se espalha refletindo
a claridade do mormaço. Então ela ri,
não era para o barco: para a vida.
De repente, ágil, sobe no tronco
amarrado na beira e abre os braços,
de costas para o rio.
Da camisa ensopada transparece
um resplendor de nádegas. Espáduas
vastas no fulgor do dia. Foi fugaz.
Na memória perdura, sol e água,
o milagre da moça iluminada.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Suave, surdo, cego (Thiago de Mello - 1926)
Quando morto, me prefiro
coisa suave, surda, cega.
Suave como a minha mão
procurando a tua mão.
Surda como o âmago
das rochas milenárias.
Cega como cegos são
os peixes que lerdos passeiam
nas profundezas das águas.
Deslembrado de tudo, sobretudo
do meu passo cambaio pelo mundo
onde andei de tropeços com meu sonho.
coisa suave, surda, cega.
Suave como a minha mão
procurando a tua mão.
Surda como o âmago
das rochas milenárias.
Cega como cegos são
os peixes que lerdos passeiam
nas profundezas das águas.
Deslembrado de tudo, sobretudo
do meu passo cambaio pelo mundo
onde andei de tropeços com meu sonho.
domingo, 2 de março de 2014
De sonhos dados: neurônios (Thiago de Mello - 1926)
Não convém que a mente acesa
interfira além da conta
nem morda o sol da emoção.
O sentimento se encolhe
quando a inteligência alteia
a voz fria da ciência
cantando o poder da treva
em que se esconde a galáxia
de estrelas que vão nascer.
Na construção da poesia
o cérebro e o coração
trabalham de sonhos dados.
Quem foi que teve a coragem
de afirmar que a inteligência
não sente e que coração
não pensa?
Não é segredo:
no cerebelo residem
os instintos da razão.
O cérebro e o coração
se vigiam e se ajudam
quando o homem ama com arte.
Quem me conhece já sabe,
basta que eu mude de tom.
Convém contudo lembrar
o que faz tempo aprendi:
a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.
interfira além da conta
nem morda o sol da emoção.
O sentimento se encolhe
quando a inteligência alteia
a voz fria da ciência
cantando o poder da treva
em que se esconde a galáxia
de estrelas que vão nascer.
Na construção da poesia
o cérebro e o coração
trabalham de sonhos dados.
Quem foi que teve a coragem
de afirmar que a inteligência
não sente e que coração
não pensa?
Não é segredo:
no cerebelo residem
os instintos da razão.
O cérebro e o coração
se vigiam e se ajudam
quando o homem ama com arte.
Quem me conhece já sabe,
basta que eu mude de tom.
Convém contudo lembrar
o que faz tempo aprendi:
a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.
sábado, 1 de março de 2014
Arde a flâmula (Thiago de Mello - 1926)
Entrei no tempo (as Escrituras dizem)
no qual somente enfados e canseiras
marcam a vida desde o amanhecer.
A Palavra me perdoe.
Chega aos setenta e ao poder
de infância que faz viver,
no milagre do meu dia,
a alegria de servir
a quem de amor carecia.
Levo, flâmula, a confiança
de que amor há de erguer
no chão do mundo: a utopia.
no qual somente enfados e canseiras
marcam a vida desde o amanhecer.
A Palavra me perdoe.
Chega aos setenta e ao poder
de infância que faz viver,
no milagre do meu dia,
a alegria de servir
a quem de amor carecia.
Levo, flâmula, a confiança
de que amor há de erguer
no chão do mundo: a utopia.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Poema perto do fim (Thiago de Mello - 1926)
A morte é indolor.
O que dói nela é o nada
que a vida faz do amor.
Sopro a flauta encantada
e não dá nenhum som.
Levo uma pena leve
de não ter sido bom.
E no coração, neve.
O que dói nela é o nada
que a vida faz do amor.
Sopro a flauta encantada
e não dá nenhum som.
Levo uma pena leve
de não ter sido bom.
E no coração, neve.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Sonho do mármore (Thiago de Mello - 1926)
Teu corpo se modela
no mármore do meu sonho.
Cântico morno.
Te desenho no desejo,
teu corpo me sai da mão:
um rumor de asas.
Chegas altiva de carne
banhada de resplendor:
delícia extrema.
no mármore do meu sonho.
Cântico morno.
Te desenho no desejo,
teu corpo me sai da mão:
um rumor de asas.
Chegas altiva de carne
banhada de resplendor:
delícia extrema.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
O vértice da luz (Thiago de Mello - 1926)
Sem teu passo pela casa,
sem teu corpo no meu corpo,
sinto falta de mim mesmo:
virás cantando.
É perfumada a verdade
das tuas coxas: no vértice
está a luz do meu caminho,
profundo canto.
Como te vou receber?
Tu amanheces sabendo
que o teu riso abre o meu sol
de cada dia.
Vem, abre os braços, e canta
a canção que a solitária
madrugada me ensinou:
meu peito, teu lugar.
sem teu corpo no meu corpo,
sinto falta de mim mesmo:
virás cantando.
É perfumada a verdade
das tuas coxas: no vértice
está a luz do meu caminho,
profundo canto.
Como te vou receber?
Tu amanheces sabendo
que o teu riso abre o meu sol
de cada dia.
Vem, abre os braços, e canta
a canção que a solitária
madrugada me ensinou:
meu peito, teu lugar.
domingo, 21 de abril de 2013
Ninguém me habita (Thiago de Mello - 1926)
Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.
sábado, 20 de abril de 2013
O morno resplendor (Thiago de Mello - 1926)
Longe de ti, me freqüento
o coração estrelado.
A madrugada é sonora.
Canto o teu dorso.
Não estás comigo, te ouço.
Distante das minhas mãos
afago a tua lembrança.
És o meu rio.
O resplendor que se alteia
dos teus movimentos mornos,
na tua ausência se inflama:
suave o teu pescoço.
Esta mão que me escreve
se estreme porque guarda
um palor de madrepérola:
tua pele se arrepia.
Pela prenda delicada
da vida, que te fez minha,
sonho a certeza do fim:
sejas tu perto de mim.
o coração estrelado.
A madrugada é sonora.
Canto o teu dorso.
Não estás comigo, te ouço.
Distante das minhas mãos
afago a tua lembrança.
És o meu rio.
O resplendor que se alteia
dos teus movimentos mornos,
na tua ausência se inflama:
suave o teu pescoço.
Esta mão que me escreve
se estreme porque guarda
um palor de madrepérola:
tua pele se arrepia.
Pela prenda delicada
da vida, que te fez minha,
sonho a certeza do fim:
sejas tu perto de mim.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Os astros íntimos (Thiago de Mello - 1926)
Consulto a luz dos meus astros,
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.
A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.
Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.
A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.
A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.
Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.
A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.
Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.
A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.
A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.
Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.
A véspera (Thiago de Mello - 1926)
A véspera já é certeza
que se antecipa chegando
no gosto do que vai ser.
A véspera já aconchega
a tua ausência no riso
com que sabes receber.
Tudo é véspera no amor.
No instante em que se inaugura
minha carícia em teu peito,
ela se sonha descendo,
no dorso da madrugada
pelo côncavo perfeito
dos quadris que se iluminam
quando a luz da minha língua
trabalha a felicidade
misteriosa que se abriga
numa floresta de pêlos,
cidadela da verdade
que tem de clave o meu nome,
e só por isso se entreabre,
desmurada por meu sonho,
para me entregar o sol
que vai acender a vida
toda que vivi de véspera.
que se antecipa chegando
no gosto do que vai ser.
A véspera já aconchega
a tua ausência no riso
com que sabes receber.
Tudo é véspera no amor.
No instante em que se inaugura
minha carícia em teu peito,
ela se sonha descendo,
no dorso da madrugada
pelo côncavo perfeito
dos quadris que se iluminam
quando a luz da minha língua
trabalha a felicidade
misteriosa que se abriga
numa floresta de pêlos,
cidadela da verdade
que tem de clave o meu nome,
e só por isso se entreabre,
desmurada por meu sonho,
para me entregar o sol
que vai acender a vida
toda que vivi de véspera.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Nuvem e nuvem (Thiago de Mello - 1926)
Só digo do que existo e vejo.
Falo somente o que sinto.
E se canto o que imagino
mesmo dormindo e sonhando
é para que o pão pequeno
mal entre no forno, cresça
do tamanho da esperança.
Só vivi, por isso sonho
a vida real, a vida dos homens
que moram sob as estrelas.
Não falo a língua dos anjos.
Na verdade nunca ouvi
uma palavra sequer
do idioma no qual milícias
de anjos cantando espalharam
a pastores assombrados
a chegada de um menino
fadado a lavar pecados.
Notícias dos nossos dias
contam anjos bons de corpo,
desalados, não carecem
de idiomas, basta o olhar,
dizem tudo. Mas não sei.
Verdade é que a meu lado vive um anjo
que mais fala quando cala,
não tem asas mas tem ancas
cheias de estrelas que guardam
seu isósceles perfeito.
Falo a linguagem dos homens,
que entre os homens aprendi.
Mas cuidado! Quando digo nuvem
estou dizendo simplesmente nuvem.
A única diferença entre a nuvem
que flutua brilhante lá no céu
brincando de dragão e bailarina,
e a nuvem que gravo no papel,
é que a minha o vento não esgarça,
nem se desfaz em chuva sobre o solo:
nuvem será, sempre nuvem,
porque feita de palavra,
matéria imperecível
cujos atómos resguardam
os segredos da vida.
Falo somente o que sinto.
E se canto o que imagino
mesmo dormindo e sonhando
é para que o pão pequeno
mal entre no forno, cresça
do tamanho da esperança.
Só vivi, por isso sonho
a vida real, a vida dos homens
que moram sob as estrelas.
Não falo a língua dos anjos.
Na verdade nunca ouvi
uma palavra sequer
do idioma no qual milícias
de anjos cantando espalharam
a pastores assombrados
a chegada de um menino
fadado a lavar pecados.
Notícias dos nossos dias
contam anjos bons de corpo,
desalados, não carecem
de idiomas, basta o olhar,
dizem tudo. Mas não sei.
Verdade é que a meu lado vive um anjo
que mais fala quando cala,
não tem asas mas tem ancas
cheias de estrelas que guardam
seu isósceles perfeito.
Falo a linguagem dos homens,
que entre os homens aprendi.
Mas cuidado! Quando digo nuvem
estou dizendo simplesmente nuvem.
A única diferença entre a nuvem
que flutua brilhante lá no céu
brincando de dragão e bailarina,
e a nuvem que gravo no papel,
é que a minha o vento não esgarça,
nem se desfaz em chuva sobre o solo:
nuvem será, sempre nuvem,
porque feita de palavra,
matéria imperecível
cujos atómos resguardam
os segredos da vida.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Os impenetráveis (Thiago de Mello - 1926)
Quero confessar, penalizado,
e como palavras brandas,
que não consigo entender
por mais que leia e releia
as palavras impenetráveis
dispostas em forma de verso
que deram de aparecer.
Textos, que se querem poemas,
construídos com o ostensivo empenho
de não permitir acesso
ao leitor comum de poesia,
que não possui as claves secretas
para a tradução da linguagem cifrada.
O texto me desafia:
quero ver se me adivinhas.
As palavras são mudas, ocas,
de nervos dissecados,
os olhos vendados
medrosos da emoção.
e como palavras brandas,
que não consigo entender
por mais que leia e releia
as palavras impenetráveis
dispostas em forma de verso
que deram de aparecer.
Textos, que se querem poemas,
construídos com o ostensivo empenho
de não permitir acesso
ao leitor comum de poesia,
que não possui as claves secretas
para a tradução da linguagem cifrada.
O texto me desafia:
quero ver se me adivinhas.
As palavras são mudas, ocas,
de nervos dissecados,
os olhos vendados
medrosos da emoção.
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