Alguns rostos vão se agregando a outros,
parecidos. O saldo não é saudade,
mas um gosto salgado, que até agrada.
Passou, num susto. Hoje parecem justos
os muitos clichês sobre a vida fugaz
- dos quais um jovem foge enquanto pode.
'Tudo de novo? Eu não aguentaria.
Como pude atravessar tanto tumulto
e esquecer aquele insulto inesquecível?'
Na volta da esquina, ele olha pro chão
e, ao passo que volta a seus passos aos nove,
descobre que seu filho é um adulto.
Mostrando postagens com marcador Jorge Emil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jorge Emil. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
domingo, 29 de setembro de 2013
Estar pronto é tudo (Jorge Emil - 1970)
Meus para-choques!
Com dois cortes
- este e este -
e muita sorte,
sobreviveste,
à pior peste
que grassou ao norte,
às batalhas leste-oeste
e à grande fome ao sul.
Mas evita fazer festa
e não tires a veste
de combate.
Não viste
as ameaças da morte
partindo de toda parte?
Podem chegar numa tarde
de trégua como esta.
O homem, treinado e triste,
é o eternamente prestes
a passar por novos testes.
Com dois cortes
- este e este -
e muita sorte,
sobreviveste,
à pior peste
que grassou ao norte,
às batalhas leste-oeste
e à grande fome ao sul.
Mas evita fazer festa
e não tires a veste
de combate.
Não viste
as ameaças da morte
partindo de toda parte?
Podem chegar numa tarde
de trégua como esta.
O homem, treinado e triste,
é o eternamente prestes
a passar por novos testes.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
O resignado (Jorge Emil - 1970)
Corri com tanta revolta
que tombei exausto no lugar exato
donde não saí, dando voltas
idiotas à minha volta.
No afã de ser preciso,
fiz todas, todas as emendas.
Mas perfeita era a versão primeira,
agora extraviada.
Vulcânicos, irrompem os tiques
de nossos pais e dos mais
impensáveis avós, pipocam em nós
e convém não coçar.
Dor e culpa me dão prumo.
Premido por mãos ancestrais,
queira ou não, meu sumo
exala seu cheiro cristão.
que tombei exausto no lugar exato
donde não saí, dando voltas
idiotas à minha volta.
No afã de ser preciso,
fiz todas, todas as emendas.
Mas perfeita era a versão primeira,
agora extraviada.
Vulcânicos, irrompem os tiques
de nossos pais e dos mais
impensáveis avós, pipocam em nós
e convém não coçar.
Dor e culpa me dão prumo.
Premido por mãos ancestrais,
queira ou não, meu sumo
exala seu cheiro cristão.
domingo, 9 de junho de 2013
Bazar (Jorge Emil - 1970)
Eu já devia ter partido...
Contudo, ainda sou capaz
de ler revista feminista no dentista
e jornal cultural no recital.
Me conte quantas vezes você pulou da ponte.
Afora ir longe com um tapa, só faço viagens através do mapa.
2 da manhã; estou persuadido
de que não há amor; mas aí
um parente tosse no quarto ao lado.
Eu tu ele e ah bem nós vós eles mas em
verdade ninguém. Mundo louco, não sei
se estás todo oco ou se está tudo
OK. Que entusiasmo: breve serei fantasma.
Sou ruim sim — ó minha cópia
infinitamente melhor que eu próprio.
Sofri o acidente, estou cego?, quero
ser o líder. Rebolou demasiado acabou
perdendo o rebolado. Não sei por que cargas
d’água quase morri de sede.
A minha ótica, longe de ótima, é patética.
Descompreendo a coisa enfática — tu sem migo, eu
sem vosco... Erro tosco de gramática, de amor.
Descoberta um dia
a fonte de toda angústia a fonte de toda
angústia de descobrir.
Eu já devia ter partido... Não houve jeito:
sobrevivi. A culpa é do comprimido.
Contudo, ainda sou capaz
de ler revista feminista no dentista
e jornal cultural no recital.
Me conte quantas vezes você pulou da ponte.
Afora ir longe com um tapa, só faço viagens através do mapa.
2 da manhã; estou persuadido
de que não há amor; mas aí
um parente tosse no quarto ao lado.
Eu tu ele e ah bem nós vós eles mas em
verdade ninguém. Mundo louco, não sei
se estás todo oco ou se está tudo
OK. Que entusiasmo: breve serei fantasma.
Sou ruim sim — ó minha cópia
infinitamente melhor que eu próprio.
Sofri o acidente, estou cego?, quero
ser o líder. Rebolou demasiado acabou
perdendo o rebolado. Não sei por que cargas
d’água quase morri de sede.
A minha ótica, longe de ótima, é patética.
Descompreendo a coisa enfática — tu sem migo, eu
sem vosco... Erro tosco de gramática, de amor.
Descoberta um dia
a fonte de toda angústia a fonte de toda
angústia de descobrir.
Eu já devia ter partido... Não houve jeito:
sobrevivi. A culpa é do comprimido.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Empurrão (Jorge Emil - 1970)
Baixa uma voz em mim,
seríssima e serena.
Uma voz 'que se acha'.
Em tom baixo me ordena:
- Em marcha!
E obedeço, bisonho.
Que querem que eu faça?
Não se fala em senha,
nem um mapa eu tenho,
nenhum dinheiro em caixa.
Escapo deste sonho?
Não posso apostar
um centavo que seja.
Antes isso. Antevejo,
contra todo o meu desejo,
que estranhas estratégias
com desígnios duvidosos
no caminho se adivinham
e sozinhas se desenham.
seríssima e serena.
Uma voz 'que se acha'.
Em tom baixo me ordena:
- Em marcha!
E obedeço, bisonho.
Que querem que eu faça?
Não se fala em senha,
nem um mapa eu tenho,
nenhum dinheiro em caixa.
Escapo deste sonho?
Não posso apostar
um centavo que seja.
Antes isso. Antevejo,
contra todo o meu desejo,
que estranhas estratégias
com desígnios duvidosos
no caminho se adivinham
e sozinhas se desenham.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O motim primordial (Jorge Emil - 1970)
Se, assim que ganharam tino,
tivessem feito o cálculo
do alarde do seu destino
de construtores de cacos,
não teriam descido
do planeta de macacos.
Diz a mensagem do oráculo:
a aragem ficou na origem,
quando ainda não era tarde.
Sou um bípede covarde.
Não me sentisse tão fraco,
voltava já para a árvore.
tivessem feito o cálculo
do alarde do seu destino
de construtores de cacos,
não teriam descido
do planeta de macacos.
Diz a mensagem do oráculo:
a aragem ficou na origem,
quando ainda não era tarde.
Sou um bípede covarde.
Não me sentisse tão fraco,
voltava já para a árvore.
Assinar:
Postagens (Atom)