Quinho era um macaco diferente.
Não gostava de comer banana
Nem de ficar imitando gente.
Mas não podia ver passarinho
Que tinha vontade de voar.
Parecia até um maluquinho,
Se deitava, rolava no chão,
Saltava entre os galhos e guinchava.
Voar que é bom, não voava não.
Desistia, ficava calado,
A mão no queixo, um jeito sério
E o ar de quem está concentrado.
Aí é que parecia gente.
Nem se coçava, cruzava os braços,
Querendo pensar logicamente.
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quarta-feira, 1 de abril de 2015
segunda-feira, 30 de março de 2015
A galinha cor-de-rosa (Duda Machado - 1944)
Era uma galinha cor-de-rosa,
Metida a chique, toda orgulhosa,
Que detestava pisar no chão.
Cheio de lama do galinheiro.
Ficava no alto do poleiro
E quando saía do lugar,
Batia as asas para voar.
Mas seus pés acabavam na lama.
Aí armava o maior chilique,
Cacarejava, bicava o galo,
E depois, com ar de rainha,
Lavava os pés numa pocinha.
Metida a chique, toda orgulhosa,
Que detestava pisar no chão.
Cheio de lama do galinheiro.
Ficava no alto do poleiro
E quando saía do lugar,
Batia as asas para voar.
Mas seus pés acabavam na lama.
Aí armava o maior chilique,
Cacarejava, bicava o galo,
E depois, com ar de rainha,
Lavava os pés numa pocinha.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Dentro do espelho (Duda Machado - 1944)
dentro do espelho
não mais nos vemos
a seu redor, cada objeto imprime
uma velocidade indefinível
já não importa a distância
a mesma nitidez alcança
o que está perto
e o que é remoto
assim persiste
até que uma fadiga
a cada coisa
desdobra e dissipa
qual um acorde
um desmentido
uma propulsão
um vácuo
rumo a um
nada extraordinário
não mais nos vemos
a seu redor, cada objeto imprime
uma velocidade indefinível
já não importa a distância
a mesma nitidez alcança
o que está perto
e o que é remoto
assim persiste
até que uma fadiga
a cada coisa
desdobra e dissipa
qual um acorde
um desmentido
uma propulsão
um vácuo
rumo a um
nada extraordinário
sábado, 14 de dezembro de 2013
Imitação das coisas (Duda Machado - 1944)
Vamos, dedique-se por inteiro
às aparências, às coisas propriamente
ditas. Procure frequentá-las,
trazê-las para dentro de si mesmo,
incorporá-las dia a dia,
a cada instante,
por mais irrisório/absurdo que pareça.
Pode ser, no entanto, que você
não resista o tempo todo
e, de vez em quando, se afaste
da consistência das coisas
e se deixe levar
pelo hábito de transformá-las
em encantamento ou profundidade.
Não se perturbe. Ao persistir,
voltaremos mais uma vez a elas,
imperfeitos e concentrados
- como no amor -, decididos
a alcançá-las, embora adivinhando,
e já pouco importa, que ainda
não estamos preparados.
às aparências, às coisas propriamente
ditas. Procure frequentá-las,
trazê-las para dentro de si mesmo,
incorporá-las dia a dia,
a cada instante,
por mais irrisório/absurdo que pareça.
Pode ser, no entanto, que você
não resista o tempo todo
e, de vez em quando, se afaste
da consistência das coisas
e se deixe levar
pelo hábito de transformá-las
em encantamento ou profundidade.
Não se perturbe. Ao persistir,
voltaremos mais uma vez a elas,
imperfeitos e concentrados
- como no amor -, decididos
a alcançá-las, embora adivinhando,
e já pouco importa, que ainda
não estamos preparados.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Devoração da paisagem (Duda Machado - 1944)
À esquerda, o morro. Logo
adiante casas, o arvoredo
vário. Um pouco abaixo.
a estrada, o riacho.
Cores que ultrapassam distâncias,
sugestões de textura
entre vegetação e vento;
o olhar que erra e se prolonga
em busca de sua moradia.
De algum lugar,
distante das retinas,
a fera irrompe
e de pronto,
a paisagem se contrai.
Já é presa,
repasto de significados,
com que a fera
realimenta a sua fome.
adiante casas, o arvoredo
vário. Um pouco abaixo.
a estrada, o riacho.
Cores que ultrapassam distâncias,
sugestões de textura
entre vegetação e vento;
o olhar que erra e se prolonga
em busca de sua moradia.
De algum lugar,
distante das retinas,
a fera irrompe
e de pronto,
a paisagem se contrai.
Já é presa,
repasto de significados,
com que a fera
realimenta a sua fome.
terça-feira, 6 de março de 2012
Carapicuíba (Duda Machado - 1944)
sentados
as cabeças caindo
uma a uma
o sono
resistindo aos freios
aos solavancos
do ônibus
em pé
compactados num híbrido
de cabeças e braços
que não permite
distinguir seus donos
se equilibram
vacilam
e obstinados
se agarram
ao silêncio
último recurso
de espaço
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