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quinta-feira, 25 de julho de 2013

A primeira vez (Saulo Ramos - 1929)

Afinal deu-se comigo:
nasceu a orquídea no velho tronco,
floriu a hera no muro antigo.
Nem o pavor de ser ridículo
impede-me de amar,
pois é a primeira vez que amo
porque sinto o mesmo desassossegado susto
da primeira vez que amei.

Amar pela primeira vez agora
é igual a qualquer primeira vez antiga,
mas esta primeira vez, no fim da vida,
é a primeira vez mais querida,
parece mais do que as outras
e, pela primeira vez,
tenho a certeza, que me faltou antes,
a de ser esta a última primeira vez.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sonho (Saulo Ramos - 1929)

No sonho meu pai retorna
e fala comigo,
o mesmo velho amigo
dos longos e varridos tempos.
Vejo-o com absoluta nitidez
e sei que é sonho,
mas tenho medo de acordar
para que ele não morra outra vez.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Prece de poeta (Saulo Ramos - 1929)

De seus gestos escorriam
neblinas que sussurravam
ânsias de riachos vindos
de angústias inexplicadas.
Braços abertos, no chão
a sombra de suas mãos
era névoa esparramada
pela calma de sonhar.

De repente um vôo aquece
o silêncio das angústias.
Ele sopra suas mãos
postas em formas de conchas,
e sua alma se desprende
do sonho e se vai, riscando
de azul a calma da névoa,
e suas mãos jogam sementes
grávidas de flor.

Era um poeta rezando.