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terça-feira, 29 de abril de 2014

O Monge Faz o Hábito (Mário Chamie - 1933)

O tecido entrecortado
do hábito
faz do monge
o avesso do ditado.

Não é o monge
que faz o hábito.
O monge
não é o hálito
que recria o incriado.

Mas se o monge
faz o hábito,
o hábito faz do monge
o hálito
de seu pecado.

Tudo raro e sempre claro:
na rima dessa esgrima
entre o monge
e o seu ditado,
seja aqui, seja lá ou seja longe,
sopra o hálito do diabo:

- ou o hábito é o tecido
que tece o monge;
ou o monge é o vestido
que veste hábito.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Solidão de Rei e de Súdito (Mário Chamie - 1933)

A solidão de um rei
é o usufruto
de tudo.

Não é como
a perda e o luto
na solidão de um súdito.

Se só, o rei sopra
o ouro em pó
do luxo
e faz da solidão
o ouro
de seu refúgio.

Não há razão
para um rei recluso
perder-se amargo
entre o favo
e o travo
de suas flores e frutos.

A solidão de um rei
não é como
a solidão de um súdito.

O súdito, se só,
perde o usufruto de tudo
e, escuso,
rói o próprio osso
no poço
do próprio túmulo.